sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

sábado, 2 de dezembro de 2017

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

ESCOLA SEM PARTIDO: A TÁBUA DOS 6 MANDAMENTOS

Henrique Faria

Poucas vezes se viu no Brasil um debate público tão acalorado, em que as opiniões contra e a favor se igualam em números objetivos, demonstrados pela pesquisa popular estampada no sítio do Senado Federal enquanto um dos projetos de lei aguarda o trâmite litúrgico de apreciação.
Trata-se do programa Escola Sem Partido, que, já criando mofo nas prateleiras desde seu nascimento em 2004, em plena euforia petista de ensinar o povo brasileiro como pensar com a cabeça dos seus mais renomados intelectuais militantes, ganhou notoriedade doze anos depois com a proposição do PL 193/16, de autoria do senador Magno Malta. Segundo seu criador, o advogado Miguel Nagib, o programa é a reação de parte da sociedade à imposição por parte de professores, especialmente os de ensino fundamental e ensino médio, de doutrinação ideológica aos seus alunos e “a usurpação do direito dos pais de alunos sobre a educação moral e religiosa dos seus filhos”.

O roto que falou do remendado

Pode ter certeza: as mesmas cabeças que sempre criticaram a doutrinação da Igreja sobre as crianças e adolescentes, no catecismo, na preparação para a crisma e, principalmente, que criticam a adoção do ensino religioso nas escolas, são as que defendem –  com o argumento de que crianças, adolescentes e jovens precisam de uma formação que lhes aguce o senso crítico e os antene para a realidade social – a liberdade de os professores, em sala de aula, fazerem apologia das suas idéias pessoais sobre assuntos de vital importância para a formação humana dos seus alunos. Defendem a idéia de que os seus conceitos sobre sexo, drogas, família, religião e política devam ser introjetados nos adolescentes, como se não houvesse outras vertentes para a compreensão desses mesmos temas.
A corrente ideológica que defende uma escola aberta às mudanças que se entranham na sociedade, eivadas do relativismo moral que vê como normal a degradação sexual, o uso indiscriminado das drogas, a falência da instituição familiar, o anacronismo dos princípios religiosos e a banalidade da corrupção na política, é a mesma que criticou o governo militar dos anos 70/80 na adoção, nas escolas, de matérias como Educação Moral e Cívica e OSPB, como instrumento manipulador da ideologia de direita.

A tentação pelo paradoxo dialético de uma vertente só

É evidente que não se pode acusar os professores de maneira generalizada como os vilões da corrente anti-Escola Sem Partido. E também não se pode atribuir aos defensores da Escola Sem Partido a pecha de conservadores, autoritários ou fundamentalistas. Em ambas as correntes existe o sectarismo doentio de ideologias conflitantes que se nega ao debate produtivo e que vê na dialética o mero alimento para encorpar a sua ranhetice.
A proposta dos professores – já antiga – de fazer aflorar em seus alunos o senso crítico é pertinente, mas não subliminarmente modelando-os às suas convicções de maneira unilateral sem que se lhes apresentem outras variáveis, não necessariamente antagônicas, sobre um mesmo tema. O grande problema é a tentação do educador em promover o senso crítico sem o debate liberal em que o aluno seja ouvido de maneira respeitosa, após a ilustração de um determinado conceito com as várias nuances em que ele possa ser entendido e, por conclusão pessoal do aluno, formulado.
Por outro lado, a formação de alunos, especialmente no ensino de segundo grau, destinada a tão somente promovê-los no ENEM ou nos vestibulares das universidades públicas, cevando o que poderá vir a ser um profissional totalmente alienado, ainda que bem sucedido econômica e socialmente, constitui um pasto farto onde se lambuzarão políticos e oportunistas para os quais direita ou esquerda são meros direcionamentos no espaço.
No entanto, se o professor se acha no direito de direcionar o seu aluno para as suas próprias convicções, o aluno não se “acha”, mas tem o direito de saber qual deve ser o comportamento do educador em uma sala de aula. E eu falo em direito positivo. Estabelecido na Constituição Federal que, por enquanto, vigorando o Estado Democrático de Direito, é quem rege o comportamento público do cidadão.

A mesma linguagem que impõe deveres deve dar conhecimento dos direitos

Assim, não vejo como qualquer aberração autoritária a exposição, nas escolas, de um lembrete, tanto ao aluno quanto ao professor, sobre algumas das regras constitucionais que regem o ensino no país. O conhecimento dos seus direitos por parte do aluno – já que os seus deveres são exaustivamente lembrados pela escola – é o primeiro passo para o avivamento da sua consciência crítica, incluindo-se nesse aspecto, também, o conhecimento que ele deva ter dos direitos e dos deveres do professor.
O aluno, tanto do ensino fundamental como do segundo grau, é uma pessoa em formação. Portanto, lembretes espalhados pela escola, nunca são demais para que ele se condicione ao comportamento de um cidadão de verdade. “É proibido pisar na grama”, “Dê descarga ao usar o banheiro”, “Feche a torneira após usá-la”, “Não jogue lixo no chão”, “Conserve as paredes limpas” são lembretes corriqueiros que ajudam na formação da criança e do adolescente. E ajudam também na formação do seu senso crítico. Por que não poder lembrá-lo também de que ele – o aluno – não é obrigado a ouvir do professor apologia sobre suas convicções morais, religiosas ou políticas? De que ele não será favorecido ou prejudicado por aceitar ou não as convicções pessoais do seu educador? De que não será obrigado a participar de manifestações políticas sugeridas ou impostas pelo professor? De que ele tem direito a ouvir e tomar conhecimento de variadas formas de entender um mesmo problema que seja apresentado pelo professor, no que se refere à elaboração de um determinado conceito? De que, em primeiro lugar vem a formação moral que deve receber na família, de seus pais? De que todos esses direitos não poderão ser violados pela escola?

A Tábua dos 6 Mandamentos é uma redundância constitucional

Pois bem. São essas questões que a Escola Sem Partido pretende tornar públicas e visíveis para facilitar o conhecimento do aluno. Que mal há nisso? Ou os críticos da Escola Sem Partido preferem o aluno desconectado dos seus direitos mais elementares de educando, presa fácil de manipulação?
No centro da polêmica, o que se convenciona chamar de esquerda no Brasil é quem carrega a bandeira anti-Escola Sem Partido. E essa esquerda convenciona como forças de direita os formuladores do referido programa. Ou seja, um embate polarizado onde, me parece, não há espaço para a vitória do bom senso, estabelecido entre uma extremidade e outra, o “medio” onde se aninha o “virtus”.
O projeto Escola Sem Partido não pode ser tomado como mero ponto de divergência entre quem quer adotá-lo e quem quer desbaratá-lo. As suas proposições constituem princípios legais, garantidos pela nossa Carta Magna e por convenções internacionais de educação.
Aqueles que querem moldar a consciência de crianças, adolescentes e jovens nas medidas de sua ideologia – seja de um lado ou de outro – incorrem na desobediência ao direito e garantia fundamental de todo cidadão brasileiro de ter a sua liberdade de consciência inviolada (CF art. 5º, VI).

Doce ilusão

Ao que me parece, os professores insurgentes sentem que a Tábua dos 6 Mandamentos, exposta em sala de aula como querem os apoiadores da Escola Sem Partido, soa mais como intimidação a eles do que propriamente como ilustração de direitos dos alunos. (Aqui entre nós, é mesmo.) Por outro lado, os incentivadores do programa caem na doce ilusão de que um professor pode ensinar história, geografia, sociologia, filosofia sem um viés ideológico. Como explicar ao aluno que Cabral não descobriu o Brasil por acaso, ou que Getulio Vargas construiu a própria ruína e que Carlos Lacerda não teve nada a ver com o seu suicídio ou com o comprometimento do filho do presidente no atentado que sofreu na rua Toneleros? É bem verdade que ainda é cedo para se fazer proselitismo no golpe sofrido por Dilma Rousseff ou de como Michel Temer virou vilão no faroeste petista em que ele foi o cavalo do herói. Como propor filosofia sem passar pelo ateísmo de filósofos que excluem Deus da realidade humana, ou geografia sem contar o papelão argentino na Guerra das Malvinas? Mas, como será a reação de uma mãe comprometida com os ensinamentos bíblicos ao saber do seu filho que essa história do homem ter sido feito de barro não condiz com o que o professor falou em sala de aula quando expôs a teoria evolucionista da origem do homem, rebaixando-o à ancestralidade símia?
Doce ilusão também a dos professores engajados no discurso ideológico a de que estarão forjando lideranças revolucionárias, ou revolucionários para um levante bolivariano. O estudante pode até se entusiasmar com uma pregação de esquerda ou com o discurso capitalista de ascensão econômica e social – que também é um viés de pregação ideológica. Mas, ele não se deixa manobrar.Tem discernimento para fazer as suas escolhas quando o tempo exigir.

Respeito é bom e a sociedade agradece

Minha avó já dizia que de boas intenções o inferno está cheio. Assim, entendo que a Escola Sem Partido possa ser bem intencionada. Mas, pode também tornar um inferno a vida do educador. Pode cair na esparrela de se trocar uma ideologia por outra. (Que vantagem Maria leva em se trocar uma ideologia revolucionária por outra conservadora?) Ou, na pior das hipóteses, trocar a liberdade pluralista que defende pela censura burra de que a escola já foi vítima e de cujos fantasmas ainda não se livrou.
A educação, que não vingou por decreto no tempo da ditadura militar, não vai, nunca, prosperar através de dispositivos legais. É um processo dinâmico, dialético, participativo, democrático, em que aluno e professor têm o mesmo peso. Ambos se integram no ensinar-aprender, cada um enriquecendo o outro com a sua parcela de participação. O que precisa é haver respeito de ambas as partes. Da parte do educador, respeito aos preceitos legais, às diretrizes da educação, à cultura local, à estrutura familiar que comporta moral e religião ou não-religião, e, principalmente, respeito à individualidade dos alunos, à sua liberdade de consciência, à sua capacidade de pensar com a própria cabeça, ainda que timidamente nas suas formulações filosóficas. Da parte do aluno, respeito à pessoa do professor não como uma autoridade na sala de aula, mas como aquele que lhe dá a mão na travessia das pinguelas por onde tem que passar; disponibilidade para o aprendizado, disciplina, respeito aos colegas, autonomia de opinião, não sem antes ouvir as diversas variações de um mesmo tema.

Conclusão

Nada contra a colocação de um cartaz expondo os 6 mandamentos da Escola Sem Partido, que tanto pode funcionar como intimidação ao professor ou instrumento de poder por parte do aluno, como pode vir a ser aquele cartaz da enfermeira fazendo “psiu” nos hospitais, que ninguém respeita, apesar de achar bonita a figura da moça se comunicando com os visitantes.
Não é, certamente, a imposição de regras que contribuirá para uma melhor educação. Aí vai uma série de fatores como o bom preparo intelectual dos professores, o seu descompromisso com qualquer ideologia – seja de direita ou de esquerda – enquanto estiver em sala de aula, a sua consciência em bem elaborar um plano de aula e, principalmente, o seu comprometimento com a história da criança, do adolescente e do jovem.
Se você me perguntar se sou contra ou a favor a Escola Sem Partido, eu vou lhe responder: deixa que coloquem na sala de aula a Tábua dos 6 Mandamentos, que quem manda mesmo nesse processo de formação humana é a consciência cidadã e o bom senso.


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

PRETO OU BRANCO, GORDO OU MAGRO, JAPONÊS OU PORTUGUÊS, JOVEM OU SENIL, VÁ BUZINAR ASSIM NA PU...


Henrique Faria

Não vi o vídeo. Estou me baseando apenas no texto publicado pelo portal UOL que, por sua vez, reproduziu texto da Jovem Pan.
Se foram apenas essas quatro palavras ditas por Willian Waack, entendo que a repercussão é desproporcional ao fato. Com certeza, ele não quis ofender a comunidade afrodescendente (já não sei mais qual é o termo juridicamente correto) nem a pessoa envolvida no fato. O jornalista é uma pessoa fina, de educação requintada, formação esmerada, de nível muito acima da média dos milhares de jornalistas que pululam na periferia das grandes redações em busca de espaço. Se ele tivesse identificado a pessoa e esta fosse um daqueles louros vermelhões com 250cms de circunferência abdominal e dissesse “é coisa de gordo comedor de hamburguer”, ninguém teria levantado o punho em protesto. As pessoas obesas sofrem tanto ou mais discriminação e não são defendidas com tanta gana. Agora, vamos e venhamos, se Waack viu a pessoa que buzinou e a identificou como uma pessoa negra, foi ou não foi coisa de preto? Lembre-se que, no Brasil, o próprio IBGE, ao selecionar a população por cor, determina que os afrodescendentes sejam classificados por “preto”.
E mais: ninguém tem a intenção de ofender a santa mãezinha de um filho da puta desses que mete a mão na buzina só pra aporrinhar. Aqui entre nós, buzina, na maioria das vezes, é gesto de falta de educação, de pretensa autoridade, próprio daquele que se sente um “asno volante”. Tira qualquer um do sério.
Há muito de melindre e de oportunismo nessa história de ofensa racial. Aliás, diga-se de passagem, Diego e Robson conseguiram seus minutos de fama. Terezinhaaaaaaaaa! Fon fon!

Para sua ilustração, confira o link http://jovempan.uol.com.br/entretenimento/tv-e-cinema/queriamos-discutir-o-racismo-afirmam-responsaveis-por-vazamento-de-video-de-waack.html

AFINAL, QUANDO UTILIZAR OS TERMOS “PRETO”, “NEGRO” OU “PARDO”?

Há uma discussão com conseqüências às vezes irremediáveis em que o interlocutor pode sofrer severa punição pelo emprego do termo “preto” para identificar uma pessoa de pele escura. Avocando a lei 7.716/89 ou a 12288/10, defensores desavisados dos que se sentem melindrados pelo que alegam ser ofensa racista, não atentam para o próprio IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que classifica a população brasileira nas opções de cor/raça branca, preta, parda, amarela e indígena.
Branca, amarela e indígena não suscitam dúvidas. Entre a cor parda, preta e negra é que residem as controvérsias.
Quem é o “preto” ? Os pretos eram os nativos da África sub-saariana. Os primeiros pretos chegaram ao Brasil por volta de 1549. A partir daí, o termo passou a designar também os seus descendentes nascidos na América.
E o “negro”? Originalmente, a palavra “negro”, de origem espanhola ou portuguesa, era utilizada para referir-se aos escravos pretos e não somente a eles, mas, também aos índios escravizados – estes também denominados “negros da terra”. Ou seja, se se pode admitir alguma conotação ofensiva a uma dessas duas palavras (preto e negro), esta recairia sobre o termo “negro”.
O pardo, por sua vez, de tom de pele entre o branco e o preto, já existia no Brasil antes do seu descobrimento. O primeiro registro para designar um pardo na história do Brasil está consignado na Carta de Pero Vaz de Caminha, de 1500: ele descreveu os índios como “pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos, bons narizes, bem feitos.”
Pardo não é afrodescendente. E não é negro. O pardo tem a sua ascendência na miscigenação dos indígenas com o homem branco – os mestiços caboclos.
Bem. Esta é a posição histórica do IBGE.
Entretanto, em 2003, o governo do PT, de acordo com as orientações do Plano de Governo do Partido dos Trabalhadores (PT) e do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) resolveu pintar os pardos de preto. Dividiu racial e etnicamente o Brasil em negros, brancos e índio, excluindo a mestiçagem da composição étnica brasileira. Os negros somaram-se aos pardos, somando, no Censo de 2010, 50,7% da população brasileira.
Esta posição adotada pelo petismo é uma evidente discriminação contra os verdadeiros pardos.
O IBGE não classifica pardos como negros. E não identifica os negros como pretos. Repito: para efeito de classificação de cor/raça, o IBGE distingue o preto, o branco, o amarelo, o indígena e o pardo.
(Fonte:http://nacaomestica.org/blog4/?p=17752)
Para aprofundar: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv63405.pdf
Ilustração: http://mascarellocabines.com/blog/2012/01/barulho-buzina-som-escapamento.html

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

UM CORAÇÃO POETA SÓ SE ENCANTA. QUEM JULGA É A RAZÃO.


Henrique Faria
Agosto de 1991

Todo mundo tem seu ídolo, seu modelo, seu espelho que possa mirar-se encarnando sua vida, sua ideologia, sua mensagem, sua história. Eu tenho três ídolos.
Um deles, longe de estar sujeito a qualquer escala de comparação, é o maior de todos. Seu nome: Jesus Cristo. Não bastasse a sua divindade (quer você creia ou não), foi o maior dos homens que a humanidade conheceu.
Os outros dois... Bem! Dos outros dois vou contar uma estorinha que bem poderia ter acontecido vinte e quatro anos atrás, quando os três juntos se encontraram na Casa de Jesus.

Foi no dia 9 de outubro de 1967. Isso, aqui na terra, porque na Casa de Jesus o tempo não existe. Os dois se encontraram no céu. Chiquinho, todo remendado, barba por fazer, uma barbinha rala – um ou outro fio mais comprido –, mas de uma fisionomia verdadeiramente angelical. Ernesto, sujo, rasgado sem remendos, fisionomia carregada de mil e uma noites mal dormidas, uma chaga no peito. Recém chegado ao Paraíso, parecia um peixe fora d’água. Ele mesmo não acreditava na paradisíaca visão.
Na terra eram passados mil novecentos e sessenta e sete anos do nascimento do Chefão e quase oitocentos da morte do colega Chico.
Na ante-sala do Paraíso, a diferença entre os dois saltava aos olhos. Entretanto, algumas semelhanças os aproximava e, entre elas, as chagas que ambos carregavam no peito. Chico tinha quatro a mais: uma em cada mão e mais duas – uma em cada um dos pés – havidas pelo excelso merecimento que conquistara ainda em sua vida temporal.
Ernesto chegou meio desajeitado, desprovido daquela afoiteza e coragem que o levaram ao holocausto nas selvas da América.
Chico vibrava, desapontado, é verdade, pelo novo companheiro não trajar o seu burel marrom, marca registrada daqueles que na terra se empenhavam na defesa dos oprimidos. Ernesto, no entanto, trazia um coração muito parecido com o coração do Chico. Muito parecido...
Braços abertos, os estigmas emitindo envolvente e estranha luz. Chico enfeitiçava o novo morador do Paraíso.
- Você não é o Francisco de ...
A pergunta foi interrompida por um “psiu” do poverello. Um sorriso doce entremeou a observação:
- O Homem ta chegando...
Ernesto tremeu nas bases.
Pedrão vinha na frente. Abrindo alas e espantando uns anjinhos teimosos que insistiam em tocar “La cumparsita” em suas liras. O Chefe, bonito e glorioso da glória que a ressurreição lhe eternizara o corpo, parecia não se incomodar com o que Pedro julgava ser um sacrilégio. Apenas uma doce ansiedade o apressava um pouco, divinamente louco por conhecer o novo inquilino.
- Deixa, Pedro! Tá tão bonito...
Pedrão não se emendava:
- Mas, Mestre, isso não é música pra se tocar no Paraíso!
O Mestre nem ligou. Deu um tapa no ar em frente ao próprio rosto como quem diz “deixa pra lá!”.
- Chame o Ernesto!
É verdade que Pedrão ficou meio surpreso. Tanto tempo se passara e ainda não se acostumara com as extravagâncias do seu Chefe.
Então, os anjinhos se empolgaram. E, num angelical pout-pourri sapecaram “La Cumparsita”, “Mano a mano”, “Mi Buenos Aires querido”, “Por uma cabeza” e ainda arriscaram uns acordes de “Don’t cry for me, Argentina”. Saiu muito bonito.
Ernesto ficou mais à vontade.
- Não precisa de formalidades – sussurrou Chiquinho – o Homem é gente boa.
- Pois, não, Chefe!
- Vem cá, Chê! – Jesus posou de gaúcho – Meu Pai fala muito bem de você!
- De mim?!
Ernesto ficou pasmado.
- Você mesmo! Afinal eu lhe devo alguns favores...
- O quê?!
Parecia que o barbudo ia ter um troço.
- Isso mesmo! Há algum tempo eu estive com fome e você me alimentou; tive sede e você me deu água...
Cada vez mais surpreso, Ernesto duvidava.
- Não acredito...
- E mais: estive doente e você tratou de mim; preso e você me visitou... Cheguei a ficar sem roupa e você me vestiu. ..
- O quê?! Quando foi que fiz isso pro senhor?
- Deixa o “senhor” de lado, Chê!
Um sorriso doce, quase escondido no canto da boca, denunciava que o Mestre gostava também de reservar pequenas surpresas:
- Você se lembra daqueles leprosos da Amazônia? Dos favelados de La Paz? Daqueles índios do Peru? Dos caribenhos miseráveis de Sierra Maestra? Pois é... Foi pra mim que você fez tudo aquilo.
Ernesto não entendia nada.
Mais do que depressa o Mestre lhe cingiu os rins e num abraço amigo o conduziu por entre as nuvens.
Pedrão, ainda mais surpreso, confidenciou com Francisco:
- Não me conformo! Mas, o Homem sabe das coisas... Manda quem pode, obedece quem tem juízo...
E saiu resmungando:
- Só me faltava essa...
Chiquinho esfregava as mãos de contente. E andando apressado deixava um rastro de pequeninas estrelas que um ou outro anjinho retardatário apanhava para a sua coleção.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

ACUSADA


Maior polêmica porque Marina Ruy Barbosa fez um anúncio de um papel higiênico preto. A coitadinha tá sendo acusada de racista. Pode? E olha que ela se casou com Xandinho Negrão... Fala sério! Esse povo não tem mais com o quê se preocupar? Lá no Congresso se fazem tantas cagadas que não há papel higiênico (nem branco nem preto) suficiente para limpar e esse povo tá a fim de azucrinar a mocinha? Me poupe! (Henrique Faria)

domingo, 15 de outubro de 2017

NADA CONTRA, APENAS UMA CURIOSIDADE: o uso da barba pelos padres


São Francisco de Assis fundou uma ordem religiosa que primava pela simplicidade e pela humildade. Dentro dessa Ordem surgiu um grupo de padres que queriam realizar o seu voto de pobreza de maneira ainda mais radical. Eram os frades capuchinhos. Entre os sinais visíveis que apontavam para o seu despojamento, humildade e simplicidade, o uso da barba era emblemático.
Até uns quarenta anos atrás, o seminarista capuchinho cumpria os seus estudos de ginásio e colegial, geralmente por volta dos dezoito anos, e iniciava a sua vida como religioso, professando os votos de obediência, castidade e pobreza. A partir daí, no início do seu ano de noviciado, deixava a barba crescer. Com a profissão desses votos já poderia considerar-se um capuchinho. Um barbudinho, como os chamavam.
Esses dias atrás estive em Aparecida e vi um padre cantor que não conhecia. Barbinha super bem feita, traçada com esmero, com certeza por um desses profissionais que atendem em verdadeiros ateliês da barba, cabelo e bigode. O padrezinho cantor era a imagem e semelhança do “outro” mais famoso. Ou seja, a barba que hoje adorna o rosto de padrecos metrossexuais muito bem vestidos e bem acompanhados, e mesmo sendo em rostos capuchinhos já não é mais símbolo de pobreza e humildade.
Nada contra. Mas, pense comigo: não é verdade? (Henrique Faria)

sábado, 30 de setembro de 2017

COMO "ERA" O LIMBO, SEGUNDO A IGREJA CATÓLICA


Imagine que Deus é um bolo de chocolate. E os anjinhos são a cereja do bolo. É muito difícil uma criança que não goste de bolo de chocolate.
Durante séculos a Igreja Católica ensinou que a criancinha que morre sem ser batizada, não vai para o céu porque, afinal, é o sacramento do Batismo o passaporte para o Paraíso. Mas também não iria para o Purgatório e, muito menos, para o Inferno. Foi então que se arranjou um jeitinho para que as criancinhas pagãs (que, afinal, são puras e inocentes e do pecado original de que são portadoras não lhes cabe qualquer culpa, nem tampouco por não terem se livrado dele) desfrutem da eternidade num lugar lindo, maravilhoso, porém, privadas da visão beatífica de Deus e dos anjinhos, que fazem uma farra danada no céu, correndo pra cima e pra baixo ou, no caso dos mais velhos, tocando harpa para o Senhor ouvir.
Mais ou menos assim: o Limbo é uma grande Confeitaria onde os espíritos infantis podem se esbaldar nos escorregadores, carrosséis, pula-pulas, piscininhas de bolinhas e se lambuzar à vontade nos doces, sorvetes, sucos, merengues, tortas, chantillys, sem que as mamães chatas os interrompam nas brincadeiras, dizendo que está na hora de ir embora. Mas... Tem uma coisa: nessa Confeitaria não existe bolo de chocolate. Nem com cereja, nem sem. (Henrique Faria)

FRANCISCO DIANTE DOS MITOS


Eu vejo essa polêmica toda sobre a posição do papa Francsco a respeito de uma revisão nos conceitos que envolvem católicos em segunda união, franqueando-lhes o acesso à Eucaristia, e outros que envolvem o celibato dos sacerdotes, e fico pensando em certos conceitos seculares que vão sendo revistos pela Igreja, como por exemplo, o das indulgências, do limbo, e outros.
Vamos ser francos: aquela história de que a gente trocava meia dúzia de ave-marias por um desconto no período de estágio no purgatório, nem na minha preparação para a primeira comunhão eu não acreditava – porque foi assim que eu e mais alguns bilhões de católicos aprendemos.
E o limbo? Outra balela secular que nunca desceu pela minha garganta. Aliás, não só na minha, mas igualmente na do cardeal Joseph Ratzinger (depois, Bento XVI) que, designado pelo papa João Paulo II aprofundou-se no estudo dessa “verdade” e chegou à conclusão de que o limbo é um mito.
Pra quem não sabe o que é o limbo, é aquele “lugar” para onde vão as criancinhas que morrem sem serem batizadas, que não podem gozar da bem-aventurança celestial. Considerando que o mundo existiu milhares de anos antes que fosse instituído o sacramento do batismo e que mais da metade da população da terra não é católica, nada mais oportuno que a canetada de João Paulo II, acabando com o tal “limbo”, que já se encontrava superlotado, transferindo a criançada toda para o céu.
Ah... Vamos e venhamos: é preciso que Francisco corresponda à nossa expectativa, detonando, mesmo, os mitos que fazem da Igreja Católica um incomensurável mausoléu.
(Henrique Faria)

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O CASO DAS SETE HERESIAS

Eu não vou comentar o caso das “sete heresias”, simplesmente porque não tenho cultura para tanto. Mas, eu creio nas palavras de Francisco e estou com ele.
Agora... Pior do que padre atrasado é o leigo atrasado. O “atrasado” a que me refiro aqui não é, necessariamente, o ignorante, mas o que parou no tempo. Fundamentalista, encastelado em seu gueto corporativo, não consegue inserir-se em uma sociedade pluralista, impondo-se como o arauto defensor da vontade monolítica de Deus que não admite formas plurais de expressão da mesma fé que professa.
Sai dessa vida, bando de hipócritas! Deus se revela na história, portanto, ainda hoje! Com certeza, a sua revelação não se dá nos mesmos parâmetros da Igreja dos anos 300, ou 1200, ou 1800. Estamos no século 21 e Deus caminha, hoje, conosco, numa realidade que vive o divórcio, o aborto, a pílula anticoncepcional,a camisinha, o homossexualismo, o padre que deixou de ser eunuco, a droga, o fanatismo religioso, a corrupção cultural, o relativismo moral, a internet! Com exceção da internet, mais ou menos os mesmos problemas do tempo de Alexandre VI, porém, aculturados à sociedade de hoje, que não é a mesma sociedade manobrada pela Igreja.
Você que se esmera na incitação ao ódio ao Santo Padre, veja como Francisco, o de Assis, conseguiu uma reforma sem traumas, sem cisma, na paz e no amor. Francisco, o de hoje, passa ao largo do seu veneno e do veneno de todas essas instituições elitistas que fazem seu ninho (luxuoso e ostentador) no seio da Igreja de Jesus. (Henrique Faria)

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

JÁ SE FOI O TEMPO EM QUE O CRAQUE "COMIA" A BOLA


Eu leio no Face, em rompantes de ufania patriótica, o que um torcedor escreveu contando que o jogador tal (brasileiro), em transferência de um grande clube europeu para outro, vai levar, só pra ele, 30 milhões de euros por ano, enquanto durar o seu contrato de cinco anos.
Hoje o euro está cotado em pouco menos de quatro reais. Ou seja, o bonitinho vai ganhar 10 milhões de reais por mês ou, para nos matar de inveja, 330 mil reais por dia! É isso mesmo? É tanto zero que eu acabo me confundindo...
Ah... Fala sério! Nada mais imoral num planeta em que a fome endêmica atinge quase 1 bilhão de pessoas! Isso tudo pra brincar com uma bola, além de dar passes errados, errar pênaltis decisivos, marcar gols contra, levar cartões amarelos ou vermelhos que o alijam da disputa; enfim, exercer a sua profissão nem sempre com competência.
E eu, aqui, rezando o meu Pai Nosso e engolindo uma prosaica lasanha congelada com a consciência pesada, me lembrando de umas carinhas pretinhas, crianças esquálidas que se mumificam em vida porque não têm o que comer...
A humanidade é cruel. Quem não faz, aplaude a injustiça social em todas as suas formas de expressão, especialmente naquelas em que a mídia elege alguém para comer bem pelos quase 1 bilhão de pessoas que passam fome.
Já se foi o tempo em que o craque “comia a bola”! (Henrique Faria)

domingo, 17 de setembro de 2017

INSPIRAÇÃO...

ENVELHECER



Eu parei pra ouvir esta canção...
Lisa canta tão doce, como se um anjo fosse
fazendo sorrir as carinhas dos vovôs.
E vejo, não fosse a voz dessa menina,
talvez seus rostos, os mesmos que eu vejo em cada esquina,
não sorrissem com toda a poesia que essa canção emoldurou.
Na beleza dos sulcos que lhes traçam a face
eu sinto que nasce um gostinho de paraíso.
E cada fio branco que lhes enche de prata esse sorriso
é um louvor à vida e ao seu encanto.
Que solidão, que nada! Envelhecer é bom! Uma questão de atitude...!
E, pra quem sabe envelhecer, envelhecer é eternizar a juventude.
(HENRIQUE FARIA)

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

E AGORA, CATARINA?

Henrique Faria


Vendo essa crise toda envolvendo o mais famoso cantor-padre do Brasil, eu me pergunto se agora ele vai conseguir enxergar que é feito do mesmo barro da Catarina, amiga minha que sofre o mesmo mal que ele, sem poder “gritar pra todo mundo ouvir” pelas ondas da TV.
Esse sujeito se glamourizou tanto, que a sua Síndrome do Pânico rompeu a barreira da sua alcova no solar das Sete Voltas para corromper as palavras do evangelista Mateus (10, 27b) (“o que escutai ao pé do ouvido proclamai-o sobre os telhados”), atribuindo a dimensão de show ao mal que o aflige.
Até então ele não se sente obra do mesmo barro de Catarina.
Não sou ninguém para julgar quem quer que seja. Mas, como pessoa pública, o cantor-padre presta um grande desserviço à comunidade católica. Eu falo da pessoa pública desse rapaz, já que é assim que ele quer ser visto, posando de galã metrossexual.
Eu espero que essa crise seja o conflito gerado pela sua escolha em ser do jeito que é, contrariando a lógica de uma opção vocacional, que não acolhe inconciabilidades para se realizar. Como conciliar o medo de avião com a carreira de aviador? Ou como ser um cirurgião alguém dominado pela hemofobia? Quem quiser enfrentar essas incompatibilidades terá, seguramente, que enfrentar um conflito. E foi isso que aconteceu ao nosso cantor-padre.
A Catarina, coitada, eu a conheço bem. Enfrentando horríveis crises existenciais não tem o mesmo estofo cultural do nosso amigo e se perde naquilo que não foram suas escolhas; foi o seu destino tornar-se presa de conflitos que não consegue gerir sozinha, buscando nas noites de quarta feira um bálsamo para suas dores numa direção espiritual tão bem editada.
E agora, Catarina? Ou você sara em saber que o seu guru, a quem você venera e em quem você confia cegamente, é feito do mesmo barro que você; ou você descamba de vez ao constatar que o super-padre não passa mesmo de um reles cantor que, no auge da carreira, não soube lidar com a fama e com o dinheiro.
Eu acho que a pessoa pública dele levou muito a sério as palavras de Mateus e perdeu uma oportunidade de ouro de ficar calado. Poderia ter se limitado a partilhar sua crise com o mais renomado psiquiatra do país, já que ele não gosta da mediocridade

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

EM DEFESA DO BISPO DE CAICÓ E SUA POSIÇÃO SOBRE OS HOMOSSEXUAIS


Henrique Faria

(Para seu melhor entendimento: https://www.diocesedecaico.com.br/destaque-8)

Vejo na página de um amigo algumas manifestações de repúdio ao bispo de Caicó, às quais respondi acidamente, e cujo texto reproduzo em minha página, omitindo, por conveniências pessoais, o nome do destinatário. Segue:

Meu caro amigo,
Eu vejo pela sua página do Facebook que você tem uma claque numerosa, visivelmente hostil à Igreja de hoje, saudosista de um papa que deixou a nau de Pedro soçobrar, preocupado que sempre esteve em “produzir teologia” em detrimento de uma ação pastoral mais eficiente e uma administração mais competente.
Sob o seu comando, a Cúria Romana expôs suas feridas milenares, transformando em rendez-vous o que deveria ser o espaço mais sagrado do planeta – em linguagem bem popular, perdeu a vergonha - que deu no que deu: a sua renúncia por não poder controlar aquele bando de safados purpurados. Não que ele tivesse culpa, mas não teve culhões para segurar a onda e para defenestrar os bandidos batinados que farfalham pelos corredores do Palácio Apostólico em sussurros pornográficos que tramam inconfidências, negociam mamatas, leiloam oportunidades de satisfação de carências pedófilas e afetivas. Ele pode até ser um santo – eu acredito! – mas, é um fraco.
Pois bem. É essa claque, visivelmente inoculada pelo veneno de certos institutos elitistas – anacrônicos, retrógrados, conservadores, que se embandeiram como seculares defensores da fé - que faz apologia do banimento dos homossexuais do projeto de salvação implementado por Jesus e explicitamente defendido pela Igreja no Catecismo da Igreja Católica, em seu parágrafo 2358, e pelo papa Francisco em notórias manifestações que contemplam esses irmãos perseguidos com o mesmo abrigo no Coração misericordioso e compassivo que abriga toda a humanidade, sem discriminação.
Eu, sinceramente, pouco me importo se esse tal projeto de salvação existe mesmo ou se é uma criação da Igreja Católica, que burocratizou a mensagem de Jesus – nele eu acredito! –, mas a sua claque acredita nesse projeto. Sendo assim, é pura hipocrisia essa gritaria contra a manifestação do bispo de Caicó que entende que a misericórdia e a compaixão preconizada por Jesus não deva alcançar apenas os héteros, mas os homo também, porque ele não codificou a sua lei do amor, estabelecendo um parágrafo único que alije os homossexuais do amor universal.
Portanto, meu caro, esses seus amigos – eu repito – são uns hipócritas, fariseus, pretensos ombusdmen de Deus.

sábado, 29 de julho de 2017

DIA DOS PAIS 2017 - UM POEMA EM 5 ATOS







E o pai faz questão de não se sentir inspiração, porque – pode ter certeza! – ele acha que toda a poesia se encerra na mulher e nos filhos e que o seu papel é apenas se embevecer, no seu jeito às vezes durão e atrapalhado, palhaço dissimulado, cúmplice e companheiro, provedor e conselheiro, na delícia que é ser o artista desse quadro e desse poema que, pra ele, tem o nome de “família”.
Enfim... Poesia de pai é assim...

sexta-feira, 21 de julho de 2017

TRÊS ANOS DEPOIS A GLOBO MEXE NA FERIDA. (EU CONTINUO COM A PATRÍCIA)


Henrique Faria

Três anos depois daquele Grêmio x Santos em que o goleiro Aranha (hoje na Ponte Preta) se sentiu ofendido com gritos de uma menina com indiscutível conotação racista, a Rede Globo de Televisão cutuca a ferida, pelo simples prazer de cutucar, no programa Profissão Repórter, querendo atazanar a vida da gauchinha. A menina Patrícia, que está quietinha em sua casa, é provocada a conceder uma entrevista para dar sequência ao longo calvário que lhe foi imposto por uma atitude passional em um jogo de futebol. Naquela ocasião, saí em sua defesa, quando o Brasil inteiro execrava a pobre coitada numa cruzada hipócrita em favor do então goleiro santista. Segue o texto:

HIPOCRISIA PURA ESSA COMOÇÃO

Pobre Patrícia Moreira... Um país inteiro caindo de pau por uma manifestação que faz parte da cultura dos jogos de futebol. O "macaco" gritado por Patrícia corresponde ao "filho da puta" gritado contra o juiz da partida. Ninguém está ali para ofender a mãe do árbitro, até porque a massa de torcedores não a conhece e pode estar perdendo a grande chance de venerar uma santinha, talvez, aquela que pode ter colocado no mundo um homem bom que, para infelicidade sua e para a sanha da torcida, resolveu ser juiz de futebol.
Está certo, sim, a gritaria geral em defesa do goleiro santista, numa emblemática cruzada contra a discriminação racial. Mas a menina não pode pagar o macaco sozinha. É uma tremenda de uma hipocrisia, principalmente da grande maioria das pessoas que têm o hábito de frequentar, nos estádios, a jogos de futebol, onde não há limites éticos nem morais, misturando-se no mesmo saco bandidos e pessoas de bem, a grande maioria destas também fazendo coro à falta de educação que se vê durante as partidas. Quem não está acostumado, torcedor de presença esporádica nos estádios, fica estarrecido com o vocabulário de torcedores e torcedoras, essas, então, muito à vontade despidas da carapaça moral que a sociedade machista as obriga envergar.
Evidente que a menina não quis ofender o mineiro Mário Lúcio Duarte Costa, mais conhecido como Aranha , mas, o goleiro santista que, convenhamos, é um ente metafísico, sem cor nem raça, sem religião, assexuado. O goleiro, como qualquer outro ocupante de uma das onze posições no futebol, não é um homem; é uma posição.
Se Patrícia puder ler o meu conselho...: não tire a roupa para a Playboy, não! (Ninguém me falou que você vai tirar, mas, de repente...). É dar ainda mais milho pra bode.
Hipocrisia pura essa comoção...