quarta-feira, 7 de junho de 2017

ORGULHO DE MORRER AQUI


(Henrique Faria)

Dia desses resolvi utilizar meus direitos de cidadão taubateano – “Cidade de Taubaté, Orgulho de viver aqui” – e me dirigi até um posto de saúde (em minúsculo mesmo) perto da minha casa. Pertinho mesmo. Uma gracinha o postinho da Vila IAPI. Eram 11h01 da manhã. Dei com a cara no portão fechado e soube que os postinhos fecham das 11h00 às 13h00. Tudo bem. Não Tem problema. Numa cidade em que até restaurante fecha para almoço, vá lá...
Fui no dia seguinte, bem cedinho. Consegui marcar uma consulta. Para 30 dias adiante. Maravilha! As atendentes umas belezinhas, educadinhas, cheias de dengo...
Enfim... Passaram-se os 30 dias e eis-me de frente a uma medicazinha bonitinha. Bonitinha, mas, soberbinha. Imagine que nos longos 5 minutos de consulta ela não conseguiu levantar os olhos, deixando de apreciar essa belezura aqui e ignorando se eu era preto ou branco. Tadinha... Timidazinha...
Mas, enfim, o que eu queria mesmo era pegar uma receita para poder adquirir na farmácia popular, a custo zero, o meu “combo-idoso”, composto de remédios para diabetes, pressão alta e colesterol. E, de quebra, levar um pedido médico para fazer uma avaliação da minha glicemia através de um exame de sangue. Oh! Como ela foi boazinha! Me atendeu aos dois pedidos!
Eu, que não sou muito de resolver essas coisas na hora, contrariando o meu jeito de ser fui correndinho para a clínica da prefeitura, lá na rua Portugal, pertinho do Joaquinzão, para agendar o exame. Qual não foi a minha surpresa quando a mocinha que me atendeu, uns quinze minutos depois de ter pego a minha senha, me disse que não era ali. Ô, meu Deus! Será o Benedito? Mas foi ali que eu havia feito uns exames anteriores algum tempo atrás... “O senhor deverá estar se dirigindo até o Jardim Mourisco”, gerundiou a atendente. Subi no possante e me disparei para o local indicado.
Bah! Outra surpresa: “O senhor deverá estar agendando das 11h00 às 15h00”, gerundiou também uma nova atendente. Boazinha, educadinha, cheia de dengo que nem as outras que já haviam me atendido. Ô catso! Ainda era 10h00... Esperar uma hora ali não seria justo, a não ser que eu esperrasse em pé para não ocupar banco de quem já estava esperando há 90 dias para fazer seu exame. Fui embora.
Mas, como quando a gente está refém de urubu o destino é cruel e inexorável, acabei por perder o tal pedido que a medicazinha da cabeça baixa havia me dado.
Ontem, 6 de junho do ano da graça de 2017, achei o minúsculo papel. E lá fui eu novamente ao Jardim Mourisco para agendar o meu exame. Eram 14h50. Liguei o bruto e fui no galope tentando chegar a tempo para o agendamento. Consegui.
Feliz porque era mais uma batalha vencida (eu ter chegado antes das 15h00), entreguei o pedido para a mocinha. Belezinha! Todas são muito boazinhas. “Eu só vou poder estar marcando para o dia 1º de setembro”, fui mais uma vez gerundiado. (Note que eu coloquei a palavra “setembro” por extenso, dispensando o nº 9, pra você não pensar que eu errei na digitação). Isso mesmo! Setembro! Daí a 88 dias! 88! É mole?
A mocinha pensou que eu era louco, pois caí numa gargalhada que chegou a contagiar as outras atendentes e alguns pacientes que até então tinham uma expressão de tristeza, sabe?, aquela cara de cachorro que caiu de mudança.
Foi então que voltei para a casa puto da vida, mas com o protocolozinho na mão, embora, evidentemente eu não vá esperar esse prazo histórico para realizar o meu exame. Isso mesmo: “histórico”, porque o tempo que se conta entre a entrada do pedido no local de agendamento até o dia da efetiva realização do exame já se conta como história, já está nos anais do sistema de saúde do município de Taubaté.
Não é o meu caso, mas, com um serviço eficiente como esse, qualquer dia desses algum taubateano ainda poderá encher o peito – já lá no andar de cima – para exclamar: ORGULHO DE MORRER AQUI.

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