sexta-feira, 16 de junho de 2017

... E O VENTO LEVOU

A CHEGADA DO PADRE HUGO NO CÉU


Henrique Faria

Na tarde do dia 3 de novembro de 2014 a cidade de Taubaté-SP foi abalada pela triste notícia do falecimento do padre Hugo Bertonazzi, figura ímpar dessa cidade, apóstolo dos pobres, exemplo de humildade. Quem o conheceu de perto sabia sempre que era um santo que desfilava pela cidade. Eu o conheci ainda muito jovem e ele me acompanhou por mais de quarenta anos. O choque teve um impacto ainda maior para mim.
Compus esta crônica na noite daquele dia, já sabendo da sua chegada no céu. Acompanhe comigo:

CRÔNICA DE UMA TARDE DE SAUDADE

O padre Pedro, ainda meio novo no ambiente, estava lá com seu violão. Voz limpa, sem aquela pigarra que o vinha atrapalhando pouco antes do seu embarque. Rodeado da moçada que o acompanhava nos anos 50 e 60, cantava os últimos sucessos do Pe. Zezinho, mas, entre um suquinho e outro (de romã) tirava uns acordes melosos de Blue Moon, Love letters, The end of the Word e ponteava gostoso The house of the rising sun.
As gatinhas, todas chegando aos 90, e os rapazes por aí também, batiam palmas no ritmo das músicas, matando a saudade dos bons tempos de Taubaté.
De repente, uma correria. São Pedro arrastando o chinelão, o molho de chaves fazendo um barulhão danado, ia espaventando alguns anjinhos que lhe atrapalhavam o caminho.
- Oi xará! – parou o padre Pedro com a cantoria, mostrando intimidade com o porteiro do céu – Por que essa agitação toda?
Pedrão nem ouviu o que o padre falou. “Sai! Sai! Que o Homem ta chegando!”, e ia botando a anjarada pra correr.
A chave enroscou, a porta emperrou, Pedrão quase perdendo a paciência, aquela fila de anjos... Padre Pedro correu até lá, encabeçou o corso com seu violão, e puxou um canto para os anjos cantarem: “Eu venho do sul e do norte, do leste, do oeste, de todo lugar...” Quando chegava o refrão, os anjos pulavam de contentes: “No peito eu levo uma cruz, no meu coração o que disse Jesus...” E a fila foi entrando e acabando com a rodinha dos baladeiros do padre Pedro.
O padre foi deixando os anjos passarem, meteu a mão estendida, com os dedos esticados e colados uns aos outros sobre as sobrancelhas, como quem olha pra longe. “Não acredito”, pensou ele abrindo aquele sorriso gostoso.
O homem, ou melhor, o Filho do Homem, vinha se aproximando com as mãos cingindo um senhor magro, alto, postura solene, olhar humilde, sorriso tímido.
Pois não é que um anjinho novo, carinha de safado, perguntou: “Quem é aquele homem que está abraçando o padre Hugo?” Pândega pura, porque no momento que veio um encarregado e o puxou pela orelha, o pobrezinho se defendeu: “Foi só uma brincadeirinha, seo Arcanjo!”. Jesus, que passava por ele, sorriu de um sorrisinho torto, tomou-o pelas mãos e lhe permitiu dar um abraço bem apertado no novo morador do céu. A Senhora bonita que vinha logo atrás, deixava por onde passava uma poeira de pequenas estrelas, que lá na frente, depois, fizeram a festa dos anjinhos mirins.
O padre Pedro, vendo tudo, rompeu o protocolo. Pra falar a verdade, se esqueceu até de cumprimentar Jesus, que não ficou nem um pouco chateado.
- Aí, Hugão! Foi bem de viagem?! – E caiu chorando nos braços do amigo.
São Pedro chegou logo depois, esticou o polegar para Jesus e estendeu a mão direita para o novo morador : “Seja bem vindo, padre Hugo!” e deu uma piscadinha para o xará, sem conter um comentário: “Eh, xará... É agora que ninguém segura...”
O anjinho trapalhão, que foi praticamente espirrado das mãos do homenageado, pegou o violão do padre Pedro que estava caído num montinho de nuvem e continuou tocando pros anjos cantarem: “No peito eu levou uma cruz; no meu coração o que disse Jesus”. E quanto mais perto do Trono chegavam, mais a anjarada se assanhava.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

ASSÉDIOS

SE NÃO FOI ISSO QUE JOÃO QUIS DIZER, PACIÊNCIA...


Henrique Faria

Vamos esclarecendo. Eu não sei teologia. Ou, pelo menos, a teologia sistemática e acadêmica. Como, também, não sei filosofia, a filosofia ensinada desde os primeiros sábios da Grécia até os dos nossos dias. E, talvez, por essa minha carência da cultura acadêmica, eu tento fazer a minha própria teologia e a minha própria filosofia. Ou, seja, eu me vejo obrigado a pensar com a minha própria cabeça.
Esclarecido, meu caro leitor, convido você a pensar comigo, não necessariamente a concordar comigo, podendo até mesmo me taxar de ignorante presunçoso, “sem noção” como se diz na linguagem popular. Vamos, então, direto ao assunto.
Acabo de chegar de uma missa, de Corpus Christi, onde pude ouvir pela enésima vez as palavras do evangelista João, em que seu Mestre afirma ser o “pão vivo descido do céu”, “quem come a minha carne e bebe o meu sangue terá a vida eterna”. Bem. É melhor você tomar a leitura do Novo Testamento em João 6, 51-58 para sentir você mesmo o impacto que causam essas palavras.
A minha primeira tendência foi a mesma dos judeus que o ouviam, questionando “como é que ele pode dar a sua carne a comer?”. Mas pensei comigo: deve haver uma coisa mais profunda nessas palavras, que eu, reles ouvinte, não tenha inteligência para alcançar. Isso mesmo: inteligência, já que não tenho cultura. Eu digo sempre que eu acredito no que vejo (diga-se de passagem, Deus eu vejo) e no que a minha razão consegue processar. Comecei a pensar, na missa mesmo, ali na igreja dos capuchinhos, sobre o sentido daquelas palavras. E me veio uma inspiração, que me pareceu lógica no contexto desse mistério a que a Igreja chama de encarnação. Note que estamos falando em “carne”, “sangue”.
Foi então que me vieram à mente as primeiras palavras do evangelho de João. O texto de João é muito bonito, poético, profundo. Mas, os menos avisados podem avaliar assim: “esse cara ta viajando, delirando...” (o João, não eu) Eu não penso assim, pois, afinal, passaram-se mais de dois mil anos e o seu texto continua vivo, instigante, sedutor, envolvendo gente anos-luz à minha frente na compreensão da teologia, da filosofia, da história.
No comecinho do seu evangelho, João fala em Verbo (confira as 14 primeiros versículos do evangelho de João). E fala que o Verbo se fez carne e habitou entre nós. A coisa pode parecer mais complicada do que é. Veja bem: “Verbo” quer dizer “Palavra”. Em grego, língua em que foi escrito o evangelho de João, “logos”. E “logos” tem um sentido mais amplo do que a mera junção de vogais e consoantes que formam uma palavra. “Logos” é um “discurso”, uma “mensagem”.
Pois bem. Primeiramente nós temos que acreditar em Deus, um ente que deu início à matéria. Se você não acredita em Deus, nem continue lendo essas minhas lucubrações.
Deus tinha uma mensagem para transmitir às suas criaturas. Essa mensagem era o “Verbo”, o “Logos” a que João se refere. Por isso que ele diz que o Verbo, no princípio, estava junto de Deus e que o Verbo era Deus (Jo 1, 1 e 2). E era necessário que a mensagem de Deus se materializasse para que a humanidade entendesse. Essa materialização se fez em forma de carne, de gente. “o Verbo se fez carne”. E apareceu, na Galileia, um homem (carne e osso) que trazia uma mensagem até então nunca ouvida. Demorou para que o Criador se dispusesse a se fazer entender assim de forma tão explícita, já que Ele vinha tentando se fazer entender havia séculos por aquele povo cabeça dura sem resultados que pudessem transformar a história e o coração dos homens.
Não se preocupe, meu caro leitor, se aquele galileu foi “gerado, não criado”, obra de um lance de mágica (a que a Igreja chama de mistério) que o colocou no ventre de uma menina para nascer, crescer, e viver tão pouco tempo. Esse Galileu, de nome Jesus, seja como for, é uma figura histórica, que palmilhou aquelas estradas pedregosas e secas do que é hoje o Estado de Israel, levando a sua missão tão a sério que fazia das suas palavras, do seu discurso, da mensagem de Deus uma verdadeira comida para aqueles que o ouviam. É como se dissesse “não basta vocês ouvirem estas palavras, esta mensagem; é preciso comê-las”; “vocês precisam ‘comer’ o Verbo!”.
Jesus era a mensagem encarnada de Deus: o Verbo. Daí entender-se porque ele dizia “eu sou o pão vivo descido do céu; quem comer deste pão viverá eternamente”, “quem come da minha carne e bebe do meu sangue tem a vida eterna”.
E eu voltei da missa de Corpus Christi satisfeito com este meu entendimento. Se não foi isso que João quis dizer, paciência...

terça-feira, 13 de junho de 2017

quarta-feira, 7 de junho de 2017

ORGULHO DE MORRER AQUI


(Henrique Faria)

Dia desses resolvi utilizar meus direitos de cidadão taubateano – “Cidade de Taubaté, Orgulho de viver aqui” – e me dirigi até um posto de saúde (em minúsculo mesmo) perto da minha casa. Pertinho mesmo. Uma gracinha o postinho da Vila IAPI. Eram 11h01 da manhã. Dei com a cara no portão fechado e soube que os postinhos fecham das 11h00 às 13h00. Tudo bem. Não Tem problema. Numa cidade em que até restaurante fecha para almoço, vá lá...
Fui no dia seguinte, bem cedinho. Consegui marcar uma consulta. Para 30 dias adiante. Maravilha! As atendentes umas belezinhas, educadinhas, cheias de dengo...
Enfim... Passaram-se os 30 dias e eis-me de frente a uma medicazinha bonitinha. Bonitinha, mas, soberbinha. Imagine que nos longos 5 minutos de consulta ela não conseguiu levantar os olhos, deixando de apreciar essa belezura aqui e ignorando se eu era preto ou branco. Tadinha... Timidazinha...
Mas, enfim, o que eu queria mesmo era pegar uma receita para poder adquirir na farmácia popular, a custo zero, o meu “combo-idoso”, composto de remédios para diabetes, pressão alta e colesterol. E, de quebra, levar um pedido médico para fazer uma avaliação da minha glicemia através de um exame de sangue. Oh! Como ela foi boazinha! Me atendeu aos dois pedidos!
Eu, que não sou muito de resolver essas coisas na hora, contrariando o meu jeito de ser fui correndinho para a clínica da prefeitura, lá na rua Portugal, pertinho do Joaquinzão, para agendar o exame. Qual não foi a minha surpresa quando a mocinha que me atendeu, uns quinze minutos depois de ter pego a minha senha, me disse que não era ali. Ô, meu Deus! Será o Benedito? Mas foi ali que eu havia feito uns exames anteriores algum tempo atrás... “O senhor deverá estar se dirigindo até o Jardim Mourisco”, gerundiou a atendente. Subi no possante e me disparei para o local indicado.
Bah! Outra surpresa: “O senhor deverá estar agendando das 11h00 às 15h00”, gerundiou também uma nova atendente. Boazinha, educadinha, cheia de dengo que nem as outras que já haviam me atendido. Ô catso! Ainda era 10h00... Esperar uma hora ali não seria justo, a não ser que eu esperrasse em pé para não ocupar banco de quem já estava esperando há 90 dias para fazer seu exame. Fui embora.
Mas, como quando a gente está refém de urubu o destino é cruel e inexorável, acabei por perder o tal pedido que a medicazinha da cabeça baixa havia me dado.
Ontem, 6 de junho do ano da graça de 2017, achei o minúsculo papel. E lá fui eu novamente ao Jardim Mourisco para agendar o meu exame. Eram 14h50. Liguei o bruto e fui no galope tentando chegar a tempo para o agendamento. Consegui.
Feliz porque era mais uma batalha vencida (eu ter chegado antes das 15h00), entreguei o pedido para a mocinha. Belezinha! Todas são muito boazinhas. “Eu só vou poder estar marcando para o dia 1º de setembro”, fui mais uma vez gerundiado. (Note que eu coloquei a palavra “setembro” por extenso, dispensando o nº 9, pra você não pensar que eu errei na digitação). Isso mesmo! Setembro! Daí a 88 dias! 88! É mole?
A mocinha pensou que eu era louco, pois caí numa gargalhada que chegou a contagiar as outras atendentes e alguns pacientes que até então tinham uma expressão de tristeza, sabe?, aquela cara de cachorro que caiu de mudança.
Foi então que voltei para a casa puto da vida, mas com o protocolozinho na mão, embora, evidentemente eu não vá esperar esse prazo histórico para realizar o meu exame. Isso mesmo: “histórico”, porque o tempo que se conta entre a entrada do pedido no local de agendamento até o dia da efetiva realização do exame já se conta como história, já está nos anais do sistema de saúde do município de Taubaté.
Não é o meu caso, mas, com um serviço eficiente como esse, qualquer dia desses algum taubateano ainda poderá encher o peito – já lá no andar de cima – para exclamar: ORGULHO DE MORRER AQUI.