sábado, 6 de maio de 2017

SONHO E REALIDADE: UM CONTRAPONTO

Henrique Faria

Sonhar é mesmo um contraponto.
Eu lhe conto que, poeta,
Sonhei tanto
que não tive tempo
pra me realizar.
Agora, mais prático, pé no chão,
Eu me realizo sonhando
Pra não dar tempo à frustração.

Há uma imensidão de frases feitas que se destinam a amenizar o cansaço da velhice. Entre elas, o termo “espírito jovem” para aqueles que não sucumbem aos estragos do tempo. O tempo é cruel e sua ação é inexorável. Não há porquê dizer-se de “espírito jovem”. Nós somos o que é o nosso espírito. E o nosso espírito, se não é eterno (pois teve um começo), é infinito. É ele que caminha para a eternidade.
Nosso espírito envelhece, sim, graças a Deus, e com o seu envelhecimento o seu amadurecimento vem surgindo aos poucos, o que em algumas pessoas atinge aquilo que se costuma chamar de “sabedoria”. Nem todos os velhos são sábios, porque nem todos atingiram com o amadurecimento esse patamar.
Eu, particularmente, não gostaria de ir desta para a melhor com o meu “espírito jovem”. Já pensou, amargar a eternidade fazendo as mesmas cacas, ou outras cacas diferentes que sejam, caminhando lado a lado com as que eu fiz por aqui no tempo, na certeza de que o meu estágio de sábio eu só atingiria no encontro das paralelas?
Brincadeiras à parte, o amadurecimento e a sabedoria são dons para o nosso tempo. E, se vamos levá-los para a eternidade, com certeza não levaremos vantagem alguma sobre os que foram na nossa frente, alguns ainda bebês, crianças, jovens, sem o nosso amadurecimento e a nossa sabedoria, mas com igual desfrute dos bens eternos.
Por isso, assumir a velhice é mais do que uma aceitação. É seguir a vida como ela é. No tempo e no espaço. Sonhando sempre, ainda que fazendo da nossa realidade o nosso sonho, porque fazer do seu sonho a sua realidade é para os “espíritos jovens”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário