sábado, 22 de abril de 2017

O SEXO DAS MULAS


Henrique Faria

Eu pensei em rezar com você a oração que Brecht nos ensinou. Mas uma ansiedade crônica incomoda a minha concentração, que, tão logo iniciei a primeira invocação, me lembrei do Alfredo e das lições de zoologia de quem conviveu com caboclos da roça, que me ensinaram que mula não procria. Quando todo mundo teria ficado “pasmo”, fiquei pasmado em descobrir que, em mais de meio século de cultura, ainda não havia me dado conta de que não sabia que a mulher do burro não pode ter filhos. E me perguntei: Ora! Pra quê serve o sexo da mula?
Tentei-me inteirar do assunto e busquei enciclopédias, dicionários, uns livros antigos de ciências naturais e... nada! Ninguém fala de mula. “Ah! A Internet!”, pensei! E cliquei o Google e tantos outros sites para descobrir que mula está relacionada com uma casta de países do Oriente, onde ela leva um acento tônico na última vogal. Desisti e voltei para o Brecht. E rezei sozinho.
Prometi a mim mesmo que não o induziria, meu caro leitor, a rezar comigo a mais bela oração do devocionário político. Há quem diga que Brecht virou lugar comum. Deve ter virado mesmo, como viraram aqueles que não ouvem, não falam, não participam dos acontecimentos políticos. Virou lugar comum reclamar do custo de vida, do preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio. Virou lugar comum aquele burro que se orgulha e estufa o peito, dizendo que odeia política. Virou lugar comum a ignorância, mãe das vicissitudes sociais que geram a prostituição, o menor abandonado, o assaltante, o político vigarista, pilantra, corrupto e explorador das empresas nacionais e multinacionais.
E eu, que não sabia que mula não procria, me pergunto porque Brecht não trocou o burro pela sua fêmea. (Do burro, evidentemente...). Pelo menos ele produz alguma coisa (o burro, claro!). Já chegou até a produzir soro contra o câncer...
Pois bem, meu caro leitor. Nós não vamos ficar discutindo o sexo das mulas, quando nem o dos anjos nos leva a lugar algum. Mas acho que destas reflexões alguma coisa podemos depreender.
Sempre é tempo de aprender alguma coisa. Mas, às vezes insistimos em cometer os mesmos erros já cometidos e que nos ensinaram que a teimosia é um capricho dos muares. Tantos erros cometidos e não aprendemos a lição: é a nossa vocação para a teimosia da mula do Alfredo ou, no mínimo, do burro de Brecht, que se orgulha e estufa o peito, dizendo que odeia política. Já é hora de deixar a teimosia e virar este país de cabeça pra baixo!

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