quarta-feira, 15 de março de 2017

POESIA DE PAI É ASSIM...


Henrique Faria

Eu queria escrever um poema bem bonito para os pais.

Mas... Pai não é como mãe que você junta cinco ou seis palavras e está feita a poesia. Pai não rende.

Ser pai é poético, sim, mas como pai é atrapalhado!... Às vezes a mãe põe as mãos em cada lado da cintura, cabelo juntado no cocoruto, vassoura encostada no sovaco e... “Ai, meu Deus! Onde é que eu fui amarrar o meu burro?” (O pai está lá na cozinha tentando apagar o fogo do óleo da frigideira que quase põe a casa abaixo durante a mais prosaica missão de um pai faminto que não quer esperar a mulher para fritar um ovo). Isso dá poesia? Ah... dá! Mas no momento que ele, envergonhado, se dirige à “patroa” e lhe tasca um selinho que ela, poderosa e incomplacente, não lhe retribui.

Ser pai é poético, sim, eu repito, mesmo quando a mãe reclama que ele é uma criança a mais que ela herdou da sogra, mais criança que os filhos com que ele mesmo concorreu para povoar o mundo. Pois é sendo criança que ele brinca de ser bandido pra que o filho seja o herói. E nessa de brincar estabanado pela casa, lá se vai o porta-retrato com a foto de casamento, que a mãe acabara de espanar, reduzido a cacos por um golpe desferido pelo filho, mas que ele assume como seu. Isso dá poesia até que os dois, devidamente cúmplices daquela “arte”, coloquem as próprias mãos tapando a boca, escondendo o riso maroto dos arteiros.

Ser pai é poético, sim, até quando ele, por machão que seja, chora escondido por se sentir impotente por não poder agradar o filho com um mimo mais caro, dessas tranqueiras eletrônicas que todos os seus amiguinhos têm, mas que custam quase um mês do seu salário. Isso dá poesia? Dá sim. É quando à noite, ao beijar o filho e lhe cobrir o peito, o menino sussurra enternecido: “Ah, pai... Quando você puder, você me dá. Combinado?”.

Ser pai é poético, sim, até quando a diretora o chama na escola pra lhe dar uma notícia ruim do filho adolescente se encaminhando por trilhas que não vão dar certo. “Ah... isso não vai prestar”, pensa ele. Porque isso também dá poesia, ao estremecerem as paredes do colégio, reverberando a cigarra estridente que aponta o fim das aulas, quando o ele põe a mão sobre o ombro do menino e lhe diz “ô, tigrão! Nós precisamos conversar!” e dão uma paradinha na lanchonete da esquina para um papo gostoso, tocado a sabor de baunilha com creme de chantily.

Ser pai é poético, sim, mesmo quando não tenha nada mais antipoético do que aquela notícia que a mãe vem escondendo há dias, de que ele já desconfiou, mas em que prefere não acreditar. Sua menina... Ah... Sua menina... Sua princesinha com quem há pouco brincava de serra-serra ou quem dançava no tapete da sala com os pezinhos sobre os seus pezões... Pois veja só: ela está esperando um bebê! Um bebê! Pode? Mas, como? Com quem ela aprendeu essas coisas? Mas, no momento em que ele engole em seco essa perfídia, recoloca sua princesa no trono do seu colo e lhe põe a mão sobre a barriguinha mesmo sem dizer palavra alguma, a poesia brota muda, sai do coração e lhe desce pelos olhos numa lágrima teimosa que ele tenta conter com o polegar.

Poesia de pai é assim. Sempre mais dura de brotar.

E o pai faz questão de não se sentir inspiração, porque – pode ter certeza! – ele acha que toda a poesia se encerra na mulher e nos filhos e que o seu papel é apenas se embevecer, no seu jeito às vezes durão e atrapalhado, palhaço dissimulado, cúmplice e companheiro, provedor e conselheiro, na delícia que é ser o artista desse quadro e desse poema que, pra ele, tem o nome de “família”.
Enfim... Poesia de pai é assim...