domingo, 16 de novembro de 2014

BEM AVENTURADOS SOMOS NÓS


Henrique Faria

Todo o evangelho é muito bonito. Todo ele vai além da estética e da poesia, mas quem não gosta de um texto bonito, inspirador, envolvente? As bem-aventuranças, os lírios do campo e as aves do céu se configuram com o belo que seduz, com a poesia que encanta, com a esperança que convence, com a fé na vida que promove em seu estágio terreno um ensaio geral da felicidade eterna.

As bem-aventuranças não foram proferidas para os anjos, mas, para os homens. Acho que o que passa despercebido pela maioria das pessoas é que esse texto do evangelho não exalta propriamente o homem pelo que ele é, mas pela recompensa que ele poderá receber pelo que ele é. A pobreza não é uma bem aventurança; o pobre é feliz pela expectativa de ser posseiro do reino dos céus. Os que choram não são felizes porque choram, mas pela expectativa do consolo pleno a que terão acesso. E assim, em todas bem aventuranças declinadas por Jesus no Sermão da Montanha.

Os pobres de espírito – expressão tão deturpada pela nossa linguagem – somos nós: carne e osso, recheados da alma que, na verdade, nos faz ser o que somos.A pobreza de espírito não se quantifica por cifras, mas é sempre infinita, imensurável. Não se é pouco pobre de espírito ou muito pobre de espírito. O desapego, a solidariedade, a partilha são as expressões cristalizadas do amor verdadeiro.

Os que choram, com certeza não são os que já passaram por aqui; somos nós que caminhamos neste vale de lágrimas, de desamor, de violência, de injustiça, de desigualdade social, de abandono por parte de quem deveria cuidar da nossa saúde, de quem vê seu filho terminar o colegial e não lhe pode bancar a universidade ou do filho que não pode seguir seus estudos adiante porque tem que ajudar os pais; de quem vê a sua criança crescer e ser roubada pelo tráfico ou pela prostituição.

Os mansos somos nós que, acima de tudo, ainda acreditamos no respeito, na relação harmoniosa entre pais e filhos, patrões e empregados, na nossa condição de irmãos em uma grande família onde não há necessidade de se gritar para ser ouvido, nem de apanhar para ser educado, nem de sofrer para ser amado.

Os famintos e sedentos de justiça somos nós que ainda respeitamos o momento inicial da criação, quando Deus fez todos iguais, a natureza concorrendo para a harmonia da vida onde não houvesse quem se aproveitasse da fraqueza do outro, quem se servisse da inocência do irmão para explorar, oprimir, extorquir. Mas somos nós que, antes de sermos resignados com a injustiça, nos fazemos profetas para denunciá-la e sujeitos da promoção do equilíbrio, da harmonia e da paz social.

Os misericordiosos somos nós que, diferente dos animais, conhecemos as fraquezas do outro para poder entendê-las e não nos prevalecermos delas; para acolher o fraco e o pecador contumaz e perdoá-lo sempre; para ter no nosso coração o coração do outro, numa relação de empatia que nos faz, de verdade, ser o outro.

Os puros de coração somos nós que conseguimos ver em uma mulher ou em um homem bonitos a presença de Deus e a sua capacidade de criar a estética como fonte de satisfação e alegria; ver na criança suja e já encaminhada no crime o mesmo encanto e a mesma pureza da criança bem nascida, a quem a graça viceja com mais aparência; ver nos idosos, por mais ranhetas que sejam, os faróis que nos iluminam, as setas que nos direcionam, a sabedoria que nos ensina. Muito mais do que isso: os puros de coração somos nós, para quem a maldade passa ao largo, a maledicência não encontra ouvidos, a vingança não é substantivo e o amor é objeto direto.

Os que promovem a paz somos nós que promovemos a harmonia em nossa casa e ensinamos os nossos filhos que a paz é fruto do amor, mas que só é promovida onde há disciplina e respeito; que ela avança para a comunidade quando se aceitam as diferenças e as limitações; que ela pode pairar sobre a pátria quando há justiça, igualdade, consciência cívica que inclui a responsabilidade de se escolher bem os nossos governantes.

Os perseguidos por causa da justiça somos nós que não nos aquietamos em nosso conforto quando tantos passam fome, sofrem violência, são vilipendiados em sua dignidade se arrastando pelas nossas calçadas porque não têm uma oportunidade de promoção nem quem acredite neles; nós somos os taxados de idiotas porque malhamos em ferro frio há décadas, sem que vejamos resultados concretos, insistindo em manter acesa a nossa chama pela justiça e pelo fim da desigualdade social.
Nós somos os perseguidos e os injuriados, como foi um certo Jesus de Nazaré, como o foram Mandela e Gandhi só para citar três aos quais a história fez justiça. O nosso reconhecimento, com certeza, não será por aqui.

A vida continua, e haveremos de ganhar um abraço de todos os que acolhemos, protegemos e defendemos, um dia, no país da bem-aventurança eterna, onde haveremos de entender que quando passamos por aqui nos vestimos de tamanha glória como se vestem os lírios do campo, mas que muito mais do que eles ou do que os pássaros do céu, nós plantamos, nós colhemos, nós fiamos, nós tecemos, nós trabalhamos e demos um sentido de igualdade, de justiça, de harmonia, de paz e de amor às nossas vidas.

Nós, pobres mortais, somos o foco do evangelho. E é a nós que ele encanta e seduz. O texto das bem-aventuranças é muito bonito, mas é mais do que um poema: é um projeto de felicidade, não só para a outra vida, mas para ser desfrutada aqui mesmo, enquanto caminhamos como matéria e espírito. Quando Jesus falou em bem-aventurados, com certeza não estava falando dos anjos. Os anjos são anjos. Bem-aventurados somos nós.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

PADRE HUGO BERTONAZZI E SUA PROCURA PELO ROSTO DE MARIA


Henrique Faria


Você já pensou como seria o rosto de Maria, a mãe de Jesus? Pensou também que ele não tem herança genética de José? Ou que Jesus, que não teve um pai biológico e carregou consigo apenas os traços genéticos da sua mãe? Essas eram indagações que o padre Hugo Bertonazzi fazia a si mesmo e partilhava com as pessoas da sua intimidade.
Até que, alguns anos atrás, o padre Hugo teve uma inspiração.

Como era o rosto de Maria?

Para responder a sua pergunta de como seria o rosto de Nossa Senhora, pensou que, através do rosto de Jesus estampado no Santo Sudário, poderia chegar a uma imagem bem aproximada do rosto real de Maria. Quando conversamos sobre o assunto, em nenhum momento, em 2009, o padre mencionou, sugeriu ou deixou no ar que tal inspiração pudesse ter se originado de algum fato sobrenatural, visão, êxtase ou transe de espiritualidade – relato comum em histórias antigas da Igreja (algumas até bem recentes), que atribuem a um santo ou uma santa qualquer um fato prodigioso que “esquente” um relato de experiência transcendental. Nada disso. “Pensei e pronto!”, me dizia ele naquela ocasião.
No entanto, padre Hugo reconhecia que alguma coisa muito estranha aconteceu para que ele começasse a questionar sobre os traços do rosto de Maria, a Maria hebréia, oriental que, provavelmente não tivesse tido o rosto das Senhoras latino-americanas, europeias, asiáticas ou africanas, cada uma com um rosto diferente e traços que são próprios dos lugares em que são veneradas. Todas elas são uma só, mas vistas de maneira diferente. Mas, Maria teve o rosto dela. Um rosto comum entre as mulheres da Judéia que talvez não tivesse as características das Senhoras ocidentais.
Uma coisa era certa, pensava ele: Jesus tinha os traços de Maria. E, sem a herança genética de José, é possível que os traços de Maria fossem ainda mais determinantes no rosto de Jesus.

E como era o rosto de Jesus?

E qual o rosto de Jesus? Há uma pista de conhecimento público e, de certa forma, acolhida pela ciência, não exatamente comprovada, mas bem próxima da veracidade.
Foi então que o padre Hugo passou a estudar com mais interesse tudo o que envolve o assunto Santo Sudário, portador de um retrato atribuído a Jesus, reconhecido não só pela fé, mas pela ciência que, durante séculos debruçou-se sobre ele, procurando, inclusive desmistificá-lo com aconteceu recentemente. A própria Igreja, poucos anos atrás, permitiu o trabalho de cientistas que poderiam até ter declarado ser uma fraude histórica o que se fala sobre essa peça de linho que teria envolvido um homem morto, ensanguentado, e estampado ali os seus traços, guardada até hoje na cidade de Turim, no norte da Itália. A Igreja sempre tratou deste assunto com muita responsabilidade, respeito pela ciência. Mas as evidências trazidas pelas experiências e pesquisas conduzem, inevitavelmente, a uma verdade: o pano que envolveu o corpo de Jesus após a sua morte e que deixou gravada a imagem do seu corpo pelo sangue que impregnou aquele tecido é mesmo autêntico. E ali está gravado o rosto de Jesus.
Ainda um curioso do assunto, as leituras de vários dos mais de trezentos livros que falam sobre o Santo Sudário, foram deixando o padre Hugo Bertonazzi um estudioso do assunto. Sua afirmação, vinda talvez de uma inspiração divina sem arroubos de ascese, é de que o rosto de Maria também está ali. Naqueles traços do Sudário.

Tentativa de ajuda

Era o ano de 2003 quando essas indagações fervilhavam na sua cabeça. Como levar essa indagação para frente? Era preciso que alguém se interessasse pelo assunto e investisse numa pesquisa mais científica que identificasse nos traços do rosto de Jesus do Santo Sudário, o rosto da sua mãe. Chegou a pensar em levar até o apresentador de TV e empresário Gugu Liberato que talvez pudesse se interessar pelo assunto – mesmo que apenas sob a ótica jornalística. Achando que possivelmente pela sua influência na mídia, o padre Marcelo Rossi – cantor de grande sucesso e frequentador assíduo dos programas de TV – encaminhasse a questão para o apresentador para que ele e sua equipe pudessem descobrir ou elaborar, através de computadores e de avançadas técnicas de design, o retrato do rosto de Nossa Senhora. Dom Beni, então bispo de Lorena e grande amigo do padre Hugo, foi o portador da questão até o padre-cantor. Marcelo se manifestou: “Que bom que alguém pensou nisso!”, mas as suas atividades e a agenda assoberbada não lhe permitiram qualquer retorno ao padre Hugo. No entanto, o desinteresse foi providencial.

A Providência

Dona Ednira pinta rostos com maestria. E frequenta a paróquia de São Pedro, onde vivia e trabalhava o padre Hugo Bertonazzi, em Taubaté-SP. Conhecedor das suas habilidades, o padre contou a ela a sua já quase angústia pela procura do rosto de Maria, que poderia estar revelado no Sudário. Pediu a ela que pintasse um rosto de Nossa Senhora, extraindo as características do rosto de Jesus gravado naquele lençol. Ora! Ednira é uma artista plástica e não uma cientista. Mas ela aceitou o desafio e foi pesquisando até encontrar um rosto de Jesus, já pintado no século V, com as características do Santo Sudário. Mas era uma foto escura, sem boa definição, quase impossível de reproduzir. Foi pelo lado mais difícil: esquadrinhou o rosto de Jesus impresso no Sudário, estampado em uma foto, e passou a buscar ali um rosto de mulher.
Foram três meses de trabalho até Ednira chegar ao um rosto que atribui à Maria, mãe de Jesus. “Não fui eu quem pintou!”, exclama emocionada. E repete isso a cada cinco ou seis palavras. “Foi o Espírito Santo que me conduziu! Na minha capacidade de um ser humano sem muito estudo, ter pintado um rosto assim tirado de um, eu diria, negativo, só pode ser obra do Espírito Santo mesmo, e não me julgo melhor que ninguém, por isso sei que fui apenas um instrumento nas mãos de Deus. Com certeza se Ele providenciou assim é porque quer que as pessoas conheçam esse que deve ser de fato o verdadeiro rosto de Nossa Senhora”. Nem os retoques a que se viu obrigada a dar, não desfiguraram o rosto que pintara. Ednira tem uma foto do quadro em sua cabeceira da cama, que vê todos os dias. Mas quando se vê diante do quadro original que pintou, há uma energia diferente, ela sente ali a mão de Deus dando as pinceladas quando usou as suas para pintar. E se emociona, invariavelmente, todas as vezes que se vê diante do quadro.

Surge uma nova devoção

O quadro original – registrado na Faculdade de Belas Artes do Rio de Janeiro para resguardar os direitos autorais cedidos por Ednira à Mitra Diocesana de Taubaté – está bem na entrada da igreja de São Pedro, em Taubaté-SP, desde o ano 2008. E uma nova devoção vai surgindo entre o povo daquela comunidade: Nossa Senhora do Santo Sudário.
A principal mensagem de Ednira é de que “quando olharem o rosto de Maria, extraído do Santo Sudário, vejam o rosto de Jesus”, o que foi complementado pelo padre Hugo: “ver a mãe, e no seu rosto ver o Filho; ela é o caminho para Jesus, ela trouxe Jesus”. “O rosto de Maria inspira paz – acrescenta Ednira – eu quero que todos vejam nele o rosto de todos que precisam de paz, de justiça, de amor”. O padre ia mais longe: “isso pode ser um das provas da verdade do Santo Sudário”.
Em nenhum momento qualquer um dos dois falou em milagre, mas, cá entre nós, experimente colocar no quadro um papel tapando a parte inferior do rosto de Maria, onde seus traços são mais acentuadamente femininos – o nariz, a boca – e você verá, com certeza, o rosto de Jesus.
Falecido em 3 de novembro de 2014, o padre Hugo Bertonazzi, um grande empreendedor, iniciador e instalador de três paróquias na diocese de Taubaté-SP, deixa entre seus legados mais preciosos, uma nova devoção que ainda vai prosperar, marcar a diocese de Taubaté no cenário e na história da Igreja Católica e, o que é mais importante: a possibilidade física das pessoas verem no rosto de Nossa Senhora do Santo Sudário o rosto de Jesus, o caminho para que se chegue a ele, já que foi ela quem o trouxe para a humanidade.