sexta-feira, 24 de outubro de 2014

PASTOR OU BUROCRATA DO CULTO?

HENRIQUE FARIA

Um amigo passa por um momento inquietante para ele. É uma pessoa de fé, que está buscando na sua religião – a católica – respostas e soluções para as suas angústias, que têm como origem alguns problemas de saúde. Eu diria que não é nada assim tão aterrorizante, mas cada um – e apenas cada um – sabe exatamente a intensidade da sua dor.
O que nos aborrece, a nós que desfrutamos da sua amizade e que temos acesso mais íntimo às suas inquietações, é a sua procura frustrada por um sacerdote que o ouça, que lhe faça uma visita e que lhe benza a sua casa. Já vai para um mês que suas tentativas de contato e seus pedidos por uma bênção não encontram resposta por parte de vários sacerdotes.
Antigamente – e aqui não falo de trezentos anos, mas de algumas poucas décadas – uma das primeiras preocupações de um casal católico era proceder a entronização dos Sagrados Corações de Jesus e Maria em seu lar. Comprava-se um quadro ou uma imagem, o padre era convidado, e havia até um rito especial para abençoar aquela casa. Terminava num chocolate gostoso, bem quentinho, ou num bolinho regado a guaraná. Se o seo Ditinho estava acamado, lá ia o padre trocar um dedinho de prosa com ele, ou com a dona Sebastiana que acabara de ganhar mais um bebê. Se a dona Adélia perdera um bebê para a desidratação, o padre estava lá para uma visita de conforto. Dona Estefânia estava lá, esticada dentro do caixão na mesa da sala, recebendo as flores que a criançada apanhava nos jardins da vizinhança, o padre acompanhava o terço puxado pelo seo Inácio, o rezador da redondeza. Toninho, o coroinha, já não ia ajudar as missas há três dias; o padre ia à sua casa para saber o que estava acontecendo. Neuzinha, aquela menininha do seo Geraldo foi atropelada, coitadinha... Lá ia o padre levando um Sonho de Valsa para a criança, que só via chocolate em situações muitíssimo especiais.
O que está acontecendo com os padres que vão deixando de ser pastores para serem burocratas do culto, quando não, astros de uma Igreja-show que arrasta multidões aos seus setenários, novenários ou quarentenas temáticos, no melhor estilo neo-pentecostal protestante? Ou que distribuem a comunhão para uma fila quilométrica de fiéis que não se vê em frente aos confessionários?
A Igreja Católica mudou muito dos anos 1970 para cá. Primeiro, talvez por influência do Vaticano II que apresentou outras frentes de conquista e libertação que não o mero devocionalismo, as vocações sacerdotais foram rareando, seminários fechando, a sociedade cada vez mais descrente ao mesmo tempo que alguns movimentos de vanguarda, inspirados no aggiornamento proposto pelo concílio, não encontravam respaldo entre o clero conservador que insuflava os fiéis contra propostas libertadoras mais comprometidas com o dia a dia das pessoas. Na década de 80, voltaram as vocações, agora adultas, quando bispos mais preocupados com a quantidade do que com a qualidade do clero, ordenavam pessoas sem preparo, sem formação familiar, e sem formação acadêmica de qualidade, alguns sem opção sexual definida (nessa ocasião floresceram muito as vocações homossexuais), e até jovens vítimas da crise econômica pela qual passava o país, que encontraram na Igreja o emprego tão escasso que lhes fechava as portas da indústria, do comércio e do serviço público. Foi por essa época que entre os jovens ordenados muitos passaram a ter o presbitério como uma opção de emprego e se tornaram padres profissionais. Essa geração de padres – evidentemente que não incluo todos os ordenados nessa ocasião – está aí, alguns ostentando títulos de monsenhores e cônegos, se especializando em outras áreas que não a do ministério sacerdotal, aproveitando das benesses do clericato. Os anos 90 trouxeram um outro perfil de padres. Com a ocupação dos espaços perdidos pela Igreja do Vaticano II através da Renovação Carismática Católica, as vocações sacerdotais tiveram um ressurgimento ainda maior, porém, com jovens portando um discurso conservador e uma proposta de conversão, cura e libertação que não contempla a conversão das estruturas sociais, mas sim voltado para a cultura mística, intimista, egocêntrica, devocionalista e conservadora do povo, resgatando a Igreja pré-conciliar exatamente no que ela abominava: a apelação populista perpetrada pelos irmãos separados, hoje gentilmente chamados pelos católicos por “evangélicos”, como se evangélica não fosse a Igreja fundada originalmente por Jesus.
De uns anos para cá, talvez de dez ou quinze anos, a safra dos clérigos tem sido mais diversificada. No entanto, a figura do pastor ainda está longe de caracterizar o padre. Ele é pouco presente na sua comunidade e nem mesmo na secretaria da sua paróquia é fácil encontrá-lo, ainda que em horário de expediente. Além da sua ausência física, a sua agenda lotada, o seu cansaço compreensivo de um final de semana exaustivo que o leva a descansar em águas puras que certamente não são as do salmista, o seu descaso pelas ovelhas perdidas ou pelas que não estão exatamente coladas nos seus passos é o que mais o afasta do ministério que lhe foi delegado.
A maioria dos padres, hoje, não conhece seus fiéis. Tem medo e tem vergonha de caminhar a pé pelas ruas dos bairros que compõem a sua paróquia. É bem verdade que as pessoas, muitas vezes, não dão abertura para uma visita, para uma conversa descompromissada com o padre. Mas quando elas o procuram... A maioria das igrejas matrizes somente têm expediente de secretaria, onde o padre nunca está. Os horários destinados a confissões são escassos, alguns limitados a poucos minutos que antecedem as missas. Eu conheço caso de um amigo meu que pediu que o padre o atendesse em confissão num momento em que o padre contava dinheiro (que não era pouco...), provavelmente para encaminhar ao banco. O padre o atendeu sem parar a contagem do dinheiro, sentado na mesma cadeira em que se senta para as suas mais prosaicas funções, como a de dar uma espiadinha nas redes sociais ou bisbilhotar sites pouco recomendados. Enquanto meu amigo desfiava os seus pecados, o confessor manipulava as cédulas, provavelmente pensando: “... trezentos e cinqüenta, quatrocentos, quatrocentos e cinqüenta... novecentos e cinqüenta, mil”, e fechava um pacotinho. Outro amigo meu conta que depois de sete ou oito telefonemas para secretarias paroquiais em busca de um horário para confessar-se, desistiu, pegou seu carro e foi a Aparecida-SP, 45 quilômetros da sua paróquia, para receber o sacramento da Reconciliação.
Direção espiritual? Totalmente em desuso. Os próprios padres afirmam não serem psicólogos para um atendimento mais pessoal dos seus fiéis. Encomendação de defunto? Que nada! Mas nem uma visitinha de cortesia à família enlutada...
Aí eu fico pensando no meu amigo que não consegue laçar um padre para benzer a sua casa. E me lembro de muitos casos em que o padre – note que eu conheço o clero quase que na intimidade - desdenha da fé do povo nos sacramentais. Fique sabendo, meu caro leitor, que eu conheci dois ou três padres que não acreditavam na Eucaristia, na forma como eles aprenderam e pregavam a transubstanciação.
Queiram ou não os sacerdotes, eu não temo afirmar que a Igreja Católica sobrevive por causa dos leigos. Da sua fé. Da sua perseverança, como a do meu amigo que não se abala quando um grupo de evangélicos, sabendo da sua angústia, reuniu-se em sua casa, com meia dúzia de intercessores poderosos para orar por ele, pela sua família e pelo seu momento de inquietação. Importante: sem cobrar a sua “conversão” para as hostes evangélicas. Coisa de que uma meia dúzia de padres tirou o corpo fora, desculpando-se com as mais deslavadas alegações.
Então! Você quer saber por que o êxodo de fiéis católicos para as seitas protestantes, algumas notoriamente picaretas? Ora! (Não é ora de reza, não...). Ora bolas! É porque os nossos irmãos separados (alguns enganados) sabem acolher. Porque seus ministros, a quem secularmente chamam de pastores, levam a sério o seu múnus. E mais: porque as suas ovelhas os conhecem (Jo, 10, 14).

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

QUEM É ESSE DEUS QUE PERMITE ESSA MALDADE?


Henrique Faria

Eu vejo tanta gente questionando a existência de Deus ou, se Ele existe, a sua providência e o seu amparo, a sua presença na história como a fonte da felicidade, da prosperidade, da graça. A fome, a violência, a injustiça, a opressão, o analfabetismo, a miséria são fenômenos que conspiram contra a fé. Como pode um Deus, que temos por Pai, permitir o mal que acreditamos ser patrimônio do diabo?
Como racional que sou, pouco levado a crer no que a minha razão não consegue processar, pode parecer um paradoxo eu acreditar em Deus, principalmente diante dos desvios a que a humanidade foi submetida em relação à felicidade paradisíaca, explicados pela religião como ônus que o homem paga pela sua desobediência à disciplina imposta pelo Criador.
Convenhamos que não é justo a humanidade inteira pagar por uma mordida no fruto proibido e, o pior, per omnia saecula saeculorum. Se Deus é pai, segundo os padrões humanos como a religião o pinta, não é, com certeza, um pai justo e sensível. É muita miséria, muita fome, muita guerra, muitos inocentes sacrificados em nome de nada e por maldade dos seus próximos. E onde é que Deus fica nessa parada?
Se eu reconhecesse esse Deus super-pai, desenhado à imagem das criaturas, evidentemente que eu o teria como um mito, como provavelmente você o tem. A Bíblia diz e as evidências apontam para uma proposição inversa: as criaturas é que são imagem da divindade. Eu digo mais: elas se somam à divindade.
Eu acredito em Deus como um ente físico, que paira sobre a criação que constitui todo o universo. E mais: que nós temos o DNA de Deus. Talvez a ciência ainda venha a ter a coragem de admitir, empiricamente, que Deus existe e que é a sua energia que move tudo, desde a perfeição matemática dos movimentos siderais até o surgimento da vida nas plantas, nos animais, no homem.
Quando eu digo que portamos o DNA de Deus eu repito o que a sabedoria milenar dos nossos ancestrais afirmava sobre a nossa constituição à imagem e semelhança Daquele que nos criou. E quando eu digo que a ciência ainda vai chegar a admitir essa verdade, eu lhe chamo a atenção para a descoberta recente do Bóson de Higgs, o que pode ser a partícula inicial da matéria, também chamada de "a partícula de Deus". Evidentemente que é uma veleidade, em razão do meu absoluto desconhecimento da Física, querer justificar a minha crença com base neste argumento. Mas, o que me chama à atenção, é a busca científica pelo início da matéria. Eu acho que Deus, que para a ciência poderá ter outro nome, ainda vai ser explicado pela razão como o início da matéria.
Assim, eu não acredito que sejamos Deus, mas que componhamos a divindade. Somos a parte de Deus que teve início um dia por concessão Dele, eterno, mas fonte do início de tudo. E no DNA de Deus – eu digo DNA mesmo, o ácido desoxirribonucleico – que nós portamos nós herdamos o que Ele tem de melhor: o amor, a justiça, a sabedoria e a solidariedade. E agregamos a esses dons a fé, a esperança, a prudência, a fortaleza, a temperança e um muito importante que nos permite até nos despojarmos da divindade para rompermos com o equilíbrio da Criação promovendo o que as religiões chamam de pecado, a opressão, a injustiça, a miséria, a fome, a violência, a guerra. Esse dom é a liberdade, que permite ao homem recusar a divindade na sua composição. É o dom pelo qual o Criador se recusa a submeter o homem aos seus desígnios e permitir-lhe ser Deus ou diabo por sua própria opção.
Através da liberdade o Criador delegou ao homem a custódia da Criação. O homem, que traz em sua composição genética dons como o amor, a justiça, a sabedoria e a solidariedade, tem a liberdade de gerir a Criação como lhe apraz, nem sempre com amor, com justiça, com sabedoria, com solidariedade. Quando isso acontece, o desequilíbrio toma conta da Criação. E essa criança aí da foto, que foi criada para dar alegria, torna-se o espectro da tristeza, um monumento à maldade, à covardia, à insensibilidade.
Assim, respondendo à sua pergunta inicial – Quem é esse Deus que permite essa maldade? – eu aponto o meu polegar para o meu peito e o indicador para o seu nariz: Ele sou eu e ele é você. E espalho meus dedos todos para a imensidão dos povos que recusa a própria divindade. Esse Deus está em nós todos, que num determinado momento somos tentados a tomar um caminho que nos separa dos dons divinos que herdamos - geneticamente, insisto! - para nos transformar no diabo(aquele que divide), aquele que promove o mal.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O CORRUPTO PODE SER VOCÊ

Henrique Faria

Quem sou eu para tecer qualquer crítica, por menor ou mais branda que seja, a você que votou na Dilma? Por enquanto vivemos numa democracia, onde ainda podemos digitar no momento da escolha o nome da pessoa em quem nós acreditamos ter estatura moral para dirigir este país. (É bem verdade que nem sempre a gente digita o número do nosso candidato e aparece a foto dele na maquininha, como aconteceu numa seção eleitoral da Mooca, em São Paulo, quando o eleitor digitou um número diferente de 13 e apareceu o 13... Mas isso é um acidente de percurso.)
Pois bem. Para ser sincero, primeiro, quando eu coloco a minha opinião para a apreciação pública, não tenho a menor intenção de convencer ninguém. Segundo, para ser mais sincero ainda, não é fácil, agora que estão na disputa o Seis e a Meia Dúzia, eu externar a minha preferência por um ou por outro.
O que está em jogo não são os candidatos. Ou melhor, nenhum dos dois candidatos está em jogo. Trata-se de uma eleição, que é uma ferramenta de transformação, em que podemos mudar a cultura política deste país, infelizmente, tomada pela prática da corrupção, do deboche de alguns poucos recalcados que conseguiram o poder e veem nele a possibilidade de desforra pelo que passaram, pela fome, pelo êxodo, pelo desemprego, pelo sub-emprego, pela perseguição, pela tortura. A elite lulopetista é isso: uma corja de recalcados que se deram bem. Os petistas, não! É injusto generalizar o maquiavelismo lulopetista. É injusto endiabrar pessoas que têm história de luta, mas que no momento estão equivocadas, como eu já estive, quando carreguei bandeiras pela luta de classes, pela ditadura do proletariado e até pela luta armada.
O que me surpreende é constatar que há esse número absurdo de brasileiros a quem o Mensalão não fez nem cosquinha, e tampouco os mais de duzentos escândalos graves protagonizados por integrantes do governo do PT.
Mas, num país em que a corrupção é cultural e se aloja nos mais prosaicos gestos dos cidadão brasileiros, não se pode esperar outra coisa. Há um número astronômico de brasileiros que não se envergonham de jogar papel de sorvete na rua, copinho de yogurte, falsificar carteirinha de estudante, estacionar em vaga de idoso ou deficiente físico sem sê-lo (sem selo do Ciretran e sem ser idoso ou deficiente), oferecer propina a policiais para evitar multas, não dar e não exigir nota fiscal, não declarar Imposto de Renda, aceitar troco errado, roubar ligações de TV a cabo, furar fila, comprar CDs, DVDs, jogos e programas piratas, comprar produtos contrabandeados.
Pode ter certeza, meu amigo, se você não é um corrupto prático é possível que seja um corrupto cultural. Você nem percebe. Mas pode fazer parte de um contingente de brasileiros a quem a corrupção institucionalizada perpetrada nos gabinetes do governo e das estatais não toca e não sensibiliza.
A corrupção tem duas faces: a do corruptor e a do corrupto. Se você não faz as coisas erradas, mas aceita quem as faça, o corrupto é você!

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

OS SETE MERGULHOS DE NAAMÃ E O 171 CHAMADO GIEZI

HENRIQUE FARIA

Eu confesso minha ignorância bíblica. Hoje passei por uma das esquinas da nossa cidade e vi uma propaganda de um desses setenários temáticos que uma certa corrente da Igreja Católica vem promovendo para chamar fiéis para as suas comunidades. Eu ainda não tinha ouvido falar dos tais "Sete mergulhos de Naamã". E fui procurar na Bíblia o que seria a tal história.
Trata-se de um general arameu, vitorioso em suas campanhas, que, por baixo das suas vestes militares muito bonitas, escondia um corpo cheio de chagas, que a Bíblia diz ter sido lepra. Na sua casa trabalhava uma menina, prisioneira de uma de suas batalhas, que aconselhou a sua mulher a encaminhar o marido general até o profeta Eliseu, no reinado de Israel, homem de muita familiaridade com Deus (o Deus de Israel), capaz de curá-lo da enfermidade. Naamã aceitou a sugestão. E lá se foi atrás do profeta. Levou consigo não sei quantos quilos em moedas de prata e mais alguns presentes.
Eliseu mandou-o mergulhar no rio Jordão por sete vezes, prometendo que depois do sétimo mergulho ele sairia das águas com a pele totalmente limpa. O general não gostou muito, já tinha desistido, mas acabou fazendo o que o profeta mandara, graças à insistência de um dos seus criados. E ficou curado! Glória a Deus!
Emocionado e cheio de gratidão, voltou até Eliseu e lhe ofereceu muito dinheiro em recompensa pelo milagre. Eliseu, que me parece não tinha o olho grande, não aceitou a grana e ficou até ofendido com a oferta. Tudo bem. Naamã foi embora.
Só que aí entra o esperto: um tal de Giezi, que havia ouvido a conversa entre o general e o profeta e a recusa deste em aceitar o presente. Ah... Cresceu o olho do Giezi, que correu atrás de Naamã e jogou o maior 171 no general e conseguiu receber o dinheiro em nome de Eliseu.
Acabou que o profeta ficou sabendo, rogou uma praga no Giezi e quem ficou leproso acabou sendo o espertalhão. (Você pode conferir a historinha no 2º livro dos Reis, capítulo 5, versículos 1 a 27.)
Bem. A história termina aí. Na Bíblia. Mas por essas comunidades católicas que vêm resgatando devoções protestantes sacadas do Antigo Testamento, nem sempre. Então eu fico pensando: hoje, quando alguns profetas prometem milagres através desses cultos que dizem ter resgatado da Bíblia, é muito difícil constatar que eles recusam recompensa. Pelo contrário: pedem! Mas, se não pedem, sempre existe um Giezi enrustido que vai saber como meter a mão no bolso dos incautos.