terça-feira, 27 de maio de 2014

VAMOS MONTAR A NOSSA SELEÇÃO DO POVO?

Henrique Faria

No gol, educação. Afinal, é a posição mais estratégica da equipe. Um bom goleiro dá confiança ao time; a equipe joga por ele e é ele o jogador mais vocacionado a ser herói.
Vamos para a zaga. Precisa ser raçudo. Dois zagueiros dá um sistema legal: a saúde, caindo mais para a direita e a cultura, mais à esquerda, já que a intelectualidade é mais canhota mesmo.
Nas laterais, a segurança pública à direita e a justiça à esquerda. É verdade que ao delegar a justiça à lateral esquerda, corre-se o risco de deixar a posição desguarnecida com os constantes avanços do jogador ao ataque. Mas, enfim, existe a possibilidade de uma substituição no decorrer do jogo. A segurança pública tem que ficar à direita, de preferência à direita mais disciplinada e mais enérgica.
Jogamos com dois volantes, guarnecendo a zaga e fazendo a ligação com o meio de campo: mobilidade urbana e transportes, evitando, evidentemente a construção de uma avenida no meio de campo que vá favorecer o adversário.
Meio de campo é fundamental para o equilíbrio da equipe. Economia e desenvolvimento social, jogando sério e sem querer facilitar as coisas para a elite, nem ser generoso demais com o povão, inventando bolsas disso e bolsas daquilo só pra ganhar voto.
No ataque, a honestidade, com presença mais constante na área, oportunismo voltado para a equipe e não para as próprias chuteiras; e competência para ganhar de goleada, porque esse negócio de 1x0, 2x0 é pra timeco. O nosso time se chama Brasil
E para técnico: eu, você, todos nós que vamos montar a nossa equipe nas próximas eleições!
E nada de convocar a corrupção! Cartão vermelho para ela antes mesmo de o jogo começar!

sábado, 3 de maio de 2014

O PODER E A ONDA. O DIA QUE O PAPA VOLTOU A SER RATZINGER

Segue mais um artigo não publicado na época pertinente, mas que o faço agora:

O PODER E A ONDA. O DIA QUE O PAPA VOLTOU A SER RATZINGER

Os críticos da Igreja se refestelam com o noticiário que dá conta de possíveis escândalos na origem da decisão de Bento XVI em abandonar o barco. Para mim, a fé em Jesus Cristo, a confiança em sua mensagem e a certeza de um mundo melhor que existe além das fronteiras do tempo e do espaço não se sentem abaladas por possíveis desvios de rota de gente que tem tudo para conhecer o melhor caminho, mas que parece entender que pela aventura a viagem é mais empolgante.
Reconheço que deve haver, pelos corredores do Vaticano, a mesma tendência ao “bem-estar”, (inegavelmente reconhecido pelo cardeal Martini antes de morrer, em agosto de 2012) que existe em nossos cleros diocesanos, em nossas cúrias e paróquias, freqüentadas por gente e não por anjos. Acho que os anjos vacilam um pouco, quando seus protegidos vestem barretes e manteletas, se paramentam do carmim e desfrutam com mais proximidade das benesses do poder que Jesus transmitiu a um humilde pescador. Eles acham que seus apaniguados não precisam de tanta proteção. Afinal, estão tão pertinho de Deus... Aí, dá no que dá...
A Igreja tem uma história de pecado de mais de dois mil anos, mas o que a sustenta é a graça, muito maior que o mal, inaugurado ainda na presença de Jesus, quando um de seus escolhidos pisou solenemente na bola, como pisam os curiais romanos, farfalhando suas batinas entre um pecadinho e outro. Ou... entre um pecadão e a hipocrisia em escondê-lo debaixo do tapete.
As denúncias que vazaram pela infidelidade do mordomo – sempre ele, o mordomo! – são vicissitudes próprias de pessoas muito próximas do poder. Como manter a santidade de uma instituição com um colégio que não foi educado para ser santo, mas para sustentar um ente rico e poderoso, muito longe da realidade do mundo atual, em que 80% das pessoas estão classificadas como pobres e miseráveis?
Santos são os padrecos – aqui, num tom bem carinhoso – que partilham com suas comunidades de periferia a fome, o desemprego, a violência, a opressão, a falta de oportunidade para a educação formal universitária, a indignidade da moradia, intergalacticamente inferior à suntuosidade dos palácios romanos. Esses, sim, têm sensibilidade para perceber que o seu “bem-estar” não deve ultrapassar o conforto de apenas uma túnica, o despojamento do ouro e da prata, da sacola e do bastão, a satisfação apenas com o salário a que tem direito. Mas eles nunca vão chegar ao poder.
Acho que o papa pensou nisso tudo, viu a viola em caco com a barca soçobrando entre as vagas que prenunciavam um tsunami, e decidiu: “Eu estou muito velho para segurar essa onda!”. E voltou a ser Ratzinger.

O DIA QUE O PAPA ACEITOU SEU PRAZO DE VALIDADE

Andei fazendo uma limpeza nos meus arquivos e achei este texto que, não sei por quê, não havia publicado. Segue aí com um pouquinho de atraso.

Se todo mundo pode dar palpite sobre a renúncia do Papa eu também posso. Bento XVI não me surpreendeu com a sua atitude. Para quem entrou com o vigor que ele entrou e chegou em apenas oito anos a esse estado de penúria que lhe legou a cátedra de São Pedro, com o perfil de Ratzinger, só poderia mesmo dar nisso. Acho que ele deu uma tremenda banana aos purpurados da Cúria Vaticana, que como nós, brigam pelos aposentos funcionais, como brigaram os cardeais Sodano e Bertone, este o secretário atual e aquele o secretário anterior do papa, que retardou o quanto pôde em entregar as chaves da alcova secretarial. Secretarial? Existe isso?
As revelações exaladas pelos papéis surrupiados pelo mordomo papal – exaladas mesmo, porque não chegaram à clareza das revelações dignas de um romance de Dan Brown – talvez tenham sido a gota d’água na decisão beneditina, acalentada, segundo Frederico Lombardi – o Lula do Vaticano, que não viu nada, não sabe de nada, não conta nada – desde um pequeno acidente sofrido pelo papa em sua viagem ao México.
Os documentos expõem à nudez as picuinhas curiais muito mais afeitas às humanidades episcopais e cardinalícias – ou seja: os “monsignori” que transitam no dia a dia dos corredores da Cúria Vaticana estão muito mais próximos das vicissitudes humanas que da beatitude angelical – em detrimento do debate de grandes temas que deveriam provocar o “aggiornamento” proposto pelo Vaticano II. Eu digo “grandes temas”, porque, Bento XVI provavelmente ria – intelectual de primeira grandeza que é – dessas miudezas como a tolerância com o uso de camisinhas, casamentos gays, ordenação de mulheres para o ministério sacerdotal, e outros probleminhas que ele sabia que, de uma canetada só, ele poderia resolver.
Acho que a Cúria Romana era muito pequena para Bento XVI, que não escapou à regra geral sobre o desastre que é a intelectualidade no poder. Poder é para “pião” ou para profissionais da política, no que bem se aproximam certos prelados que se alvoroçam com a proximidade de um novo conclave.
E lá Bento XVI tinha tempo para saber a quantas andavam as finanças vaticanas? Tadinho... Ele não tinha jeito nem para pegar criancinhas no colo... Ele queria era escrever. Produzir teologia. E o fez com a grandeza de quem discute com Agostinho ou Tomás de Aquino, e sem dever nada aos próceres da intelectualidade teológica dos dias de hoje. Com este perfil, você acha mesmo que um Ratzinger iria deixar vazar por entre os dedos os anos que lhe faltam cumprir nesta jornada terrena, tentando fazer andar um mecanismo emperrado pelas ferrugens da humanidade, quando lhe foi prometido funcionar com o besunto do Espírito?
Ele aceitou ser papa em nome da memória do seu antecessor que o queria para isso. Mas era para ser um papa de transição. Oras... Já se passaram oito anos e até quando vai essa transição? Acho que ele pensou bem, pensou, pensou... Ó! Vocês querem saber de uma coisa? Morrer eu não vou mesmo tão cedo. E o meu prazo de validade esgotou... vivo! Vivinho! Então: pernas pra que te quero? Ou melhor, pernas pra que “vos” quero, afinal Ratzinger não iria cometer um erro de concordância. Fui!