domingo, 16 de novembro de 2014

BEM AVENTURADOS SOMOS NÓS


Henrique Faria

Todo o evangelho é muito bonito. Todo ele vai além da estética e da poesia, mas quem não gosta de um texto bonito, inspirador, envolvente? As bem-aventuranças, os lírios do campo e as aves do céu se configuram com o belo que seduz, com a poesia que encanta, com a esperança que convence, com a fé na vida que promove em seu estágio terreno um ensaio geral da felicidade eterna.

As bem-aventuranças não foram proferidas para os anjos, mas, para os homens. Acho que o que passa despercebido pela maioria das pessoas é que esse texto do evangelho não exalta propriamente o homem pelo que ele é, mas pela recompensa que ele poderá receber pelo que ele é. A pobreza não é uma bem aventurança; o pobre é feliz pela expectativa de ser posseiro do reino dos céus. Os que choram não são felizes porque choram, mas pela expectativa do consolo pleno a que terão acesso. E assim, em todas bem aventuranças declinadas por Jesus no Sermão da Montanha.

Os pobres de espírito – expressão tão deturpada pela nossa linguagem – somos nós: carne e osso, recheados da alma que, na verdade, nos faz ser o que somos.A pobreza de espírito não se quantifica por cifras, mas é sempre infinita, imensurável. Não se é pouco pobre de espírito ou muito pobre de espírito. O desapego, a solidariedade, a partilha são as expressões cristalizadas do amor verdadeiro.

Os que choram, com certeza não são os que já passaram por aqui; somos nós que caminhamos neste vale de lágrimas, de desamor, de violência, de injustiça, de desigualdade social, de abandono por parte de quem deveria cuidar da nossa saúde, de quem vê seu filho terminar o colegial e não lhe pode bancar a universidade ou do filho que não pode seguir seus estudos adiante porque tem que ajudar os pais; de quem vê a sua criança crescer e ser roubada pelo tráfico ou pela prostituição.

Os mansos somos nós que, acima de tudo, ainda acreditamos no respeito, na relação harmoniosa entre pais e filhos, patrões e empregados, na nossa condição de irmãos em uma grande família onde não há necessidade de se gritar para ser ouvido, nem de apanhar para ser educado, nem de sofrer para ser amado.

Os famintos e sedentos de justiça somos nós que ainda respeitamos o momento inicial da criação, quando Deus fez todos iguais, a natureza concorrendo para a harmonia da vida onde não houvesse quem se aproveitasse da fraqueza do outro, quem se servisse da inocência do irmão para explorar, oprimir, extorquir. Mas somos nós que, antes de sermos resignados com a injustiça, nos fazemos profetas para denunciá-la e sujeitos da promoção do equilíbrio, da harmonia e da paz social.

Os misericordiosos somos nós que, diferente dos animais, conhecemos as fraquezas do outro para poder entendê-las e não nos prevalecermos delas; para acolher o fraco e o pecador contumaz e perdoá-lo sempre; para ter no nosso coração o coração do outro, numa relação de empatia que nos faz, de verdade, ser o outro.

Os puros de coração somos nós que conseguimos ver em uma mulher ou em um homem bonitos a presença de Deus e a sua capacidade de criar a estética como fonte de satisfação e alegria; ver na criança suja e já encaminhada no crime o mesmo encanto e a mesma pureza da criança bem nascida, a quem a graça viceja com mais aparência; ver nos idosos, por mais ranhetas que sejam, os faróis que nos iluminam, as setas que nos direcionam, a sabedoria que nos ensina. Muito mais do que isso: os puros de coração somos nós, para quem a maldade passa ao largo, a maledicência não encontra ouvidos, a vingança não é substantivo e o amor é objeto direto.

Os que promovem a paz somos nós que promovemos a harmonia em nossa casa e ensinamos os nossos filhos que a paz é fruto do amor, mas que só é promovida onde há disciplina e respeito; que ela avança para a comunidade quando se aceitam as diferenças e as limitações; que ela pode pairar sobre a pátria quando há justiça, igualdade, consciência cívica que inclui a responsabilidade de se escolher bem os nossos governantes.

Os perseguidos por causa da justiça somos nós que não nos aquietamos em nosso conforto quando tantos passam fome, sofrem violência, são vilipendiados em sua dignidade se arrastando pelas nossas calçadas porque não têm uma oportunidade de promoção nem quem acredite neles; nós somos os taxados de idiotas porque malhamos em ferro frio há décadas, sem que vejamos resultados concretos, insistindo em manter acesa a nossa chama pela justiça e pelo fim da desigualdade social.
Nós somos os perseguidos e os injuriados, como foi um certo Jesus de Nazaré, como o foram Mandela e Gandhi só para citar três aos quais a história fez justiça. O nosso reconhecimento, com certeza, não será por aqui.

A vida continua, e haveremos de ganhar um abraço de todos os que acolhemos, protegemos e defendemos, um dia, no país da bem-aventurança eterna, onde haveremos de entender que quando passamos por aqui nos vestimos de tamanha glória como se vestem os lírios do campo, mas que muito mais do que eles ou do que os pássaros do céu, nós plantamos, nós colhemos, nós fiamos, nós tecemos, nós trabalhamos e demos um sentido de igualdade, de justiça, de harmonia, de paz e de amor às nossas vidas.

Nós, pobres mortais, somos o foco do evangelho. E é a nós que ele encanta e seduz. O texto das bem-aventuranças é muito bonito, mas é mais do que um poema: é um projeto de felicidade, não só para a outra vida, mas para ser desfrutada aqui mesmo, enquanto caminhamos como matéria e espírito. Quando Jesus falou em bem-aventurados, com certeza não estava falando dos anjos. Os anjos são anjos. Bem-aventurados somos nós.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

PADRE HUGO BERTONAZZI E SUA PROCURA PELO ROSTO DE MARIA


Henrique Faria


Você já pensou como seria o rosto de Maria, a mãe de Jesus? Pensou também que ele não tem herança genética de José? Ou que Jesus, que não teve um pai biológico e carregou consigo apenas os traços genéticos da sua mãe? Essas eram indagações que o padre Hugo Bertonazzi fazia a si mesmo e partilhava com as pessoas da sua intimidade.
Até que, alguns anos atrás, o padre Hugo teve uma inspiração.

Como era o rosto de Maria?

Para responder a sua pergunta de como seria o rosto de Nossa Senhora, pensou que, através do rosto de Jesus estampado no Santo Sudário, poderia chegar a uma imagem bem aproximada do rosto real de Maria. Quando conversamos sobre o assunto, em nenhum momento, em 2009, o padre mencionou, sugeriu ou deixou no ar que tal inspiração pudesse ter se originado de algum fato sobrenatural, visão, êxtase ou transe de espiritualidade – relato comum em histórias antigas da Igreja (algumas até bem recentes), que atribuem a um santo ou uma santa qualquer um fato prodigioso que “esquente” um relato de experiência transcendental. Nada disso. “Pensei e pronto!”, me dizia ele naquela ocasião.
No entanto, padre Hugo reconhecia que alguma coisa muito estranha aconteceu para que ele começasse a questionar sobre os traços do rosto de Maria, a Maria hebréia, oriental que, provavelmente não tivesse tido o rosto das Senhoras latino-americanas, europeias, asiáticas ou africanas, cada uma com um rosto diferente e traços que são próprios dos lugares em que são veneradas. Todas elas são uma só, mas vistas de maneira diferente. Mas, Maria teve o rosto dela. Um rosto comum entre as mulheres da Judéia que talvez não tivesse as características das Senhoras ocidentais.
Uma coisa era certa, pensava ele: Jesus tinha os traços de Maria. E, sem a herança genética de José, é possível que os traços de Maria fossem ainda mais determinantes no rosto de Jesus.

E como era o rosto de Jesus?

E qual o rosto de Jesus? Há uma pista de conhecimento público e, de certa forma, acolhida pela ciência, não exatamente comprovada, mas bem próxima da veracidade.
Foi então que o padre Hugo passou a estudar com mais interesse tudo o que envolve o assunto Santo Sudário, portador de um retrato atribuído a Jesus, reconhecido não só pela fé, mas pela ciência que, durante séculos debruçou-se sobre ele, procurando, inclusive desmistificá-lo com aconteceu recentemente. A própria Igreja, poucos anos atrás, permitiu o trabalho de cientistas que poderiam até ter declarado ser uma fraude histórica o que se fala sobre essa peça de linho que teria envolvido um homem morto, ensanguentado, e estampado ali os seus traços, guardada até hoje na cidade de Turim, no norte da Itália. A Igreja sempre tratou deste assunto com muita responsabilidade, respeito pela ciência. Mas as evidências trazidas pelas experiências e pesquisas conduzem, inevitavelmente, a uma verdade: o pano que envolveu o corpo de Jesus após a sua morte e que deixou gravada a imagem do seu corpo pelo sangue que impregnou aquele tecido é mesmo autêntico. E ali está gravado o rosto de Jesus.
Ainda um curioso do assunto, as leituras de vários dos mais de trezentos livros que falam sobre o Santo Sudário, foram deixando o padre Hugo Bertonazzi um estudioso do assunto. Sua afirmação, vinda talvez de uma inspiração divina sem arroubos de ascese, é de que o rosto de Maria também está ali. Naqueles traços do Sudário.

Tentativa de ajuda

Era o ano de 2003 quando essas indagações fervilhavam na sua cabeça. Como levar essa indagação para frente? Era preciso que alguém se interessasse pelo assunto e investisse numa pesquisa mais científica que identificasse nos traços do rosto de Jesus do Santo Sudário, o rosto da sua mãe. Chegou a pensar em levar até o apresentador de TV e empresário Gugu Liberato que talvez pudesse se interessar pelo assunto – mesmo que apenas sob a ótica jornalística. Achando que possivelmente pela sua influência na mídia, o padre Marcelo Rossi – cantor de grande sucesso e frequentador assíduo dos programas de TV – encaminhasse a questão para o apresentador para que ele e sua equipe pudessem descobrir ou elaborar, através de computadores e de avançadas técnicas de design, o retrato do rosto de Nossa Senhora. Dom Beni, então bispo de Lorena e grande amigo do padre Hugo, foi o portador da questão até o padre-cantor. Marcelo se manifestou: “Que bom que alguém pensou nisso!”, mas as suas atividades e a agenda assoberbada não lhe permitiram qualquer retorno ao padre Hugo. No entanto, o desinteresse foi providencial.

A Providência

Dona Ednira pinta rostos com maestria. E frequenta a paróquia de São Pedro, onde vivia e trabalhava o padre Hugo Bertonazzi, em Taubaté-SP. Conhecedor das suas habilidades, o padre contou a ela a sua já quase angústia pela procura do rosto de Maria, que poderia estar revelado no Sudário. Pediu a ela que pintasse um rosto de Nossa Senhora, extraindo as características do rosto de Jesus gravado naquele lençol. Ora! Ednira é uma artista plástica e não uma cientista. Mas ela aceitou o desafio e foi pesquisando até encontrar um rosto de Jesus, já pintado no século V, com as características do Santo Sudário. Mas era uma foto escura, sem boa definição, quase impossível de reproduzir. Foi pelo lado mais difícil: esquadrinhou o rosto de Jesus impresso no Sudário, estampado em uma foto, e passou a buscar ali um rosto de mulher.
Foram três meses de trabalho até Ednira chegar ao um rosto que atribui à Maria, mãe de Jesus. “Não fui eu quem pintou!”, exclama emocionada. E repete isso a cada cinco ou seis palavras. “Foi o Espírito Santo que me conduziu! Na minha capacidade de um ser humano sem muito estudo, ter pintado um rosto assim tirado de um, eu diria, negativo, só pode ser obra do Espírito Santo mesmo, e não me julgo melhor que ninguém, por isso sei que fui apenas um instrumento nas mãos de Deus. Com certeza se Ele providenciou assim é porque quer que as pessoas conheçam esse que deve ser de fato o verdadeiro rosto de Nossa Senhora”. Nem os retoques a que se viu obrigada a dar, não desfiguraram o rosto que pintara. Ednira tem uma foto do quadro em sua cabeceira da cama, que vê todos os dias. Mas quando se vê diante do quadro original que pintou, há uma energia diferente, ela sente ali a mão de Deus dando as pinceladas quando usou as suas para pintar. E se emociona, invariavelmente, todas as vezes que se vê diante do quadro.

Surge uma nova devoção

O quadro original – registrado na Faculdade de Belas Artes do Rio de Janeiro para resguardar os direitos autorais cedidos por Ednira à Mitra Diocesana de Taubaté – está bem na entrada da igreja de São Pedro, em Taubaté-SP, desde o ano 2008. E uma nova devoção vai surgindo entre o povo daquela comunidade: Nossa Senhora do Santo Sudário.
A principal mensagem de Ednira é de que “quando olharem o rosto de Maria, extraído do Santo Sudário, vejam o rosto de Jesus”, o que foi complementado pelo padre Hugo: “ver a mãe, e no seu rosto ver o Filho; ela é o caminho para Jesus, ela trouxe Jesus”. “O rosto de Maria inspira paz – acrescenta Ednira – eu quero que todos vejam nele o rosto de todos que precisam de paz, de justiça, de amor”. O padre ia mais longe: “isso pode ser um das provas da verdade do Santo Sudário”.
Em nenhum momento qualquer um dos dois falou em milagre, mas, cá entre nós, experimente colocar no quadro um papel tapando a parte inferior do rosto de Maria, onde seus traços são mais acentuadamente femininos – o nariz, a boca – e você verá, com certeza, o rosto de Jesus.
Falecido em 3 de novembro de 2014, o padre Hugo Bertonazzi, um grande empreendedor, iniciador e instalador de três paróquias na diocese de Taubaté-SP, deixa entre seus legados mais preciosos, uma nova devoção que ainda vai prosperar, marcar a diocese de Taubaté no cenário e na história da Igreja Católica e, o que é mais importante: a possibilidade física das pessoas verem no rosto de Nossa Senhora do Santo Sudário o rosto de Jesus, o caminho para que se chegue a ele, já que foi ela quem o trouxe para a humanidade.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

PASTOR OU BUROCRATA DO CULTO?

HENRIQUE FARIA

Um amigo passa por um momento inquietante para ele. É uma pessoa de fé, que está buscando na sua religião – a católica – respostas e soluções para as suas angústias, que têm como origem alguns problemas de saúde. Eu diria que não é nada assim tão aterrorizante, mas cada um – e apenas cada um – sabe exatamente a intensidade da sua dor.
O que nos aborrece, a nós que desfrutamos da sua amizade e que temos acesso mais íntimo às suas inquietações, é a sua procura frustrada por um sacerdote que o ouça, que lhe faça uma visita e que lhe benza a sua casa. Já vai para um mês que suas tentativas de contato e seus pedidos por uma bênção não encontram resposta por parte de vários sacerdotes.
Antigamente – e aqui não falo de trezentos anos, mas de algumas poucas décadas – uma das primeiras preocupações de um casal católico era proceder a entronização dos Sagrados Corações de Jesus e Maria em seu lar. Comprava-se um quadro ou uma imagem, o padre era convidado, e havia até um rito especial para abençoar aquela casa. Terminava num chocolate gostoso, bem quentinho, ou num bolinho regado a guaraná. Se o seo Ditinho estava acamado, lá ia o padre trocar um dedinho de prosa com ele, ou com a dona Sebastiana que acabara de ganhar mais um bebê. Se a dona Adélia perdera um bebê para a desidratação, o padre estava lá para uma visita de conforto. Dona Estefânia estava lá, esticada dentro do caixão na mesa da sala, recebendo as flores que a criançada apanhava nos jardins da vizinhança, o padre acompanhava o terço puxado pelo seo Inácio, o rezador da redondeza. Toninho, o coroinha, já não ia ajudar as missas há três dias; o padre ia à sua casa para saber o que estava acontecendo. Neuzinha, aquela menininha do seo Geraldo foi atropelada, coitadinha... Lá ia o padre levando um Sonho de Valsa para a criança, que só via chocolate em situações muitíssimo especiais.
O que está acontecendo com os padres que vão deixando de ser pastores para serem burocratas do culto, quando não, astros de uma Igreja-show que arrasta multidões aos seus setenários, novenários ou quarentenas temáticos, no melhor estilo neo-pentecostal protestante? Ou que distribuem a comunhão para uma fila quilométrica de fiéis que não se vê em frente aos confessionários?
A Igreja Católica mudou muito dos anos 1970 para cá. Primeiro, talvez por influência do Vaticano II que apresentou outras frentes de conquista e libertação que não o mero devocionalismo, as vocações sacerdotais foram rareando, seminários fechando, a sociedade cada vez mais descrente ao mesmo tempo que alguns movimentos de vanguarda, inspirados no aggiornamento proposto pelo concílio, não encontravam respaldo entre o clero conservador que insuflava os fiéis contra propostas libertadoras mais comprometidas com o dia a dia das pessoas. Na década de 80, voltaram as vocações, agora adultas, quando bispos mais preocupados com a quantidade do que com a qualidade do clero, ordenavam pessoas sem preparo, sem formação familiar, e sem formação acadêmica de qualidade, alguns sem opção sexual definida (nessa ocasião floresceram muito as vocações homossexuais), e até jovens vítimas da crise econômica pela qual passava o país, que encontraram na Igreja o emprego tão escasso que lhes fechava as portas da indústria, do comércio e do serviço público. Foi por essa época que entre os jovens ordenados muitos passaram a ter o presbitério como uma opção de emprego e se tornaram padres profissionais. Essa geração de padres – evidentemente que não incluo todos os ordenados nessa ocasião – está aí, alguns ostentando títulos de monsenhores e cônegos, se especializando em outras áreas que não a do ministério sacerdotal, aproveitando das benesses do clericato. Os anos 90 trouxeram um outro perfil de padres. Com a ocupação dos espaços perdidos pela Igreja do Vaticano II através da Renovação Carismática Católica, as vocações sacerdotais tiveram um ressurgimento ainda maior, porém, com jovens portando um discurso conservador e uma proposta de conversão, cura e libertação que não contempla a conversão das estruturas sociais, mas sim voltado para a cultura mística, intimista, egocêntrica, devocionalista e conservadora do povo, resgatando a Igreja pré-conciliar exatamente no que ela abominava: a apelação populista perpetrada pelos irmãos separados, hoje gentilmente chamados pelos católicos por “evangélicos”, como se evangélica não fosse a Igreja fundada originalmente por Jesus.
De uns anos para cá, talvez de dez ou quinze anos, a safra dos clérigos tem sido mais diversificada. No entanto, a figura do pastor ainda está longe de caracterizar o padre. Ele é pouco presente na sua comunidade e nem mesmo na secretaria da sua paróquia é fácil encontrá-lo, ainda que em horário de expediente. Além da sua ausência física, a sua agenda lotada, o seu cansaço compreensivo de um final de semana exaustivo que o leva a descansar em águas puras que certamente não são as do salmista, o seu descaso pelas ovelhas perdidas ou pelas que não estão exatamente coladas nos seus passos é o que mais o afasta do ministério que lhe foi delegado.
A maioria dos padres, hoje, não conhece seus fiéis. Tem medo e tem vergonha de caminhar a pé pelas ruas dos bairros que compõem a sua paróquia. É bem verdade que as pessoas, muitas vezes, não dão abertura para uma visita, para uma conversa descompromissada com o padre. Mas quando elas o procuram... A maioria das igrejas matrizes somente têm expediente de secretaria, onde o padre nunca está. Os horários destinados a confissões são escassos, alguns limitados a poucos minutos que antecedem as missas. Eu conheço caso de um amigo meu que pediu que o padre o atendesse em confissão num momento em que o padre contava dinheiro (que não era pouco...), provavelmente para encaminhar ao banco. O padre o atendeu sem parar a contagem do dinheiro, sentado na mesma cadeira em que se senta para as suas mais prosaicas funções, como a de dar uma espiadinha nas redes sociais ou bisbilhotar sites pouco recomendados. Enquanto meu amigo desfiava os seus pecados, o confessor manipulava as cédulas, provavelmente pensando: “... trezentos e cinqüenta, quatrocentos, quatrocentos e cinqüenta... novecentos e cinqüenta, mil”, e fechava um pacotinho. Outro amigo meu conta que depois de sete ou oito telefonemas para secretarias paroquiais em busca de um horário para confessar-se, desistiu, pegou seu carro e foi a Aparecida-SP, 45 quilômetros da sua paróquia, para receber o sacramento da Reconciliação.
Direção espiritual? Totalmente em desuso. Os próprios padres afirmam não serem psicólogos para um atendimento mais pessoal dos seus fiéis. Encomendação de defunto? Que nada! Mas nem uma visitinha de cortesia à família enlutada...
Aí eu fico pensando no meu amigo que não consegue laçar um padre para benzer a sua casa. E me lembro de muitos casos em que o padre – note que eu conheço o clero quase que na intimidade - desdenha da fé do povo nos sacramentais. Fique sabendo, meu caro leitor, que eu conheci dois ou três padres que não acreditavam na Eucaristia, na forma como eles aprenderam e pregavam a transubstanciação.
Queiram ou não os sacerdotes, eu não temo afirmar que a Igreja Católica sobrevive por causa dos leigos. Da sua fé. Da sua perseverança, como a do meu amigo que não se abala quando um grupo de evangélicos, sabendo da sua angústia, reuniu-se em sua casa, com meia dúzia de intercessores poderosos para orar por ele, pela sua família e pelo seu momento de inquietação. Importante: sem cobrar a sua “conversão” para as hostes evangélicas. Coisa de que uma meia dúzia de padres tirou o corpo fora, desculpando-se com as mais deslavadas alegações.
Então! Você quer saber por que o êxodo de fiéis católicos para as seitas protestantes, algumas notoriamente picaretas? Ora! (Não é ora de reza, não...). Ora bolas! É porque os nossos irmãos separados (alguns enganados) sabem acolher. Porque seus ministros, a quem secularmente chamam de pastores, levam a sério o seu múnus. E mais: porque as suas ovelhas os conhecem (Jo, 10, 14).

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

QUEM É ESSE DEUS QUE PERMITE ESSA MALDADE?


Henrique Faria

Eu vejo tanta gente questionando a existência de Deus ou, se Ele existe, a sua providência e o seu amparo, a sua presença na história como a fonte da felicidade, da prosperidade, da graça. A fome, a violência, a injustiça, a opressão, o analfabetismo, a miséria são fenômenos que conspiram contra a fé. Como pode um Deus, que temos por Pai, permitir o mal que acreditamos ser patrimônio do diabo?
Como racional que sou, pouco levado a crer no que a minha razão não consegue processar, pode parecer um paradoxo eu acreditar em Deus, principalmente diante dos desvios a que a humanidade foi submetida em relação à felicidade paradisíaca, explicados pela religião como ônus que o homem paga pela sua desobediência à disciplina imposta pelo Criador.
Convenhamos que não é justo a humanidade inteira pagar por uma mordida no fruto proibido e, o pior, per omnia saecula saeculorum. Se Deus é pai, segundo os padrões humanos como a religião o pinta, não é, com certeza, um pai justo e sensível. É muita miséria, muita fome, muita guerra, muitos inocentes sacrificados em nome de nada e por maldade dos seus próximos. E onde é que Deus fica nessa parada?
Se eu reconhecesse esse Deus super-pai, desenhado à imagem das criaturas, evidentemente que eu o teria como um mito, como provavelmente você o tem. A Bíblia diz e as evidências apontam para uma proposição inversa: as criaturas é que são imagem da divindade. Eu digo mais: elas se somam à divindade.
Eu acredito em Deus como um ente físico, que paira sobre a criação que constitui todo o universo. E mais: que nós temos o DNA de Deus. Talvez a ciência ainda venha a ter a coragem de admitir, empiricamente, que Deus existe e que é a sua energia que move tudo, desde a perfeição matemática dos movimentos siderais até o surgimento da vida nas plantas, nos animais, no homem.
Quando eu digo que portamos o DNA de Deus eu repito o que a sabedoria milenar dos nossos ancestrais afirmava sobre a nossa constituição à imagem e semelhança Daquele que nos criou. E quando eu digo que a ciência ainda vai chegar a admitir essa verdade, eu lhe chamo a atenção para a descoberta recente do Bóson de Higgs, o que pode ser a partícula inicial da matéria, também chamada de "a partícula de Deus". Evidentemente que é uma veleidade, em razão do meu absoluto desconhecimento da Física, querer justificar a minha crença com base neste argumento. Mas, o que me chama à atenção, é a busca científica pelo início da matéria. Eu acho que Deus, que para a ciência poderá ter outro nome, ainda vai ser explicado pela razão como o início da matéria.
Assim, eu não acredito que sejamos Deus, mas que componhamos a divindade. Somos a parte de Deus que teve início um dia por concessão Dele, eterno, mas fonte do início de tudo. E no DNA de Deus – eu digo DNA mesmo, o ácido desoxirribonucleico – que nós portamos nós herdamos o que Ele tem de melhor: o amor, a justiça, a sabedoria e a solidariedade. E agregamos a esses dons a fé, a esperança, a prudência, a fortaleza, a temperança e um muito importante que nos permite até nos despojarmos da divindade para rompermos com o equilíbrio da Criação promovendo o que as religiões chamam de pecado, a opressão, a injustiça, a miséria, a fome, a violência, a guerra. Esse dom é a liberdade, que permite ao homem recusar a divindade na sua composição. É o dom pelo qual o Criador se recusa a submeter o homem aos seus desígnios e permitir-lhe ser Deus ou diabo por sua própria opção.
Através da liberdade o Criador delegou ao homem a custódia da Criação. O homem, que traz em sua composição genética dons como o amor, a justiça, a sabedoria e a solidariedade, tem a liberdade de gerir a Criação como lhe apraz, nem sempre com amor, com justiça, com sabedoria, com solidariedade. Quando isso acontece, o desequilíbrio toma conta da Criação. E essa criança aí da foto, que foi criada para dar alegria, torna-se o espectro da tristeza, um monumento à maldade, à covardia, à insensibilidade.
Assim, respondendo à sua pergunta inicial – Quem é esse Deus que permite essa maldade? – eu aponto o meu polegar para o meu peito e o indicador para o seu nariz: Ele sou eu e ele é você. E espalho meus dedos todos para a imensidão dos povos que recusa a própria divindade. Esse Deus está em nós todos, que num determinado momento somos tentados a tomar um caminho que nos separa dos dons divinos que herdamos - geneticamente, insisto! - para nos transformar no diabo(aquele que divide), aquele que promove o mal.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O CORRUPTO PODE SER VOCÊ

Henrique Faria

Quem sou eu para tecer qualquer crítica, por menor ou mais branda que seja, a você que votou na Dilma? Por enquanto vivemos numa democracia, onde ainda podemos digitar no momento da escolha o nome da pessoa em quem nós acreditamos ter estatura moral para dirigir este país. (É bem verdade que nem sempre a gente digita o número do nosso candidato e aparece a foto dele na maquininha, como aconteceu numa seção eleitoral da Mooca, em São Paulo, quando o eleitor digitou um número diferente de 13 e apareceu o 13... Mas isso é um acidente de percurso.)
Pois bem. Para ser sincero, primeiro, quando eu coloco a minha opinião para a apreciação pública, não tenho a menor intenção de convencer ninguém. Segundo, para ser mais sincero ainda, não é fácil, agora que estão na disputa o Seis e a Meia Dúzia, eu externar a minha preferência por um ou por outro.
O que está em jogo não são os candidatos. Ou melhor, nenhum dos dois candidatos está em jogo. Trata-se de uma eleição, que é uma ferramenta de transformação, em que podemos mudar a cultura política deste país, infelizmente, tomada pela prática da corrupção, do deboche de alguns poucos recalcados que conseguiram o poder e veem nele a possibilidade de desforra pelo que passaram, pela fome, pelo êxodo, pelo desemprego, pelo sub-emprego, pela perseguição, pela tortura. A elite lulopetista é isso: uma corja de recalcados que se deram bem. Os petistas, não! É injusto generalizar o maquiavelismo lulopetista. É injusto endiabrar pessoas que têm história de luta, mas que no momento estão equivocadas, como eu já estive, quando carreguei bandeiras pela luta de classes, pela ditadura do proletariado e até pela luta armada.
O que me surpreende é constatar que há esse número absurdo de brasileiros a quem o Mensalão não fez nem cosquinha, e tampouco os mais de duzentos escândalos graves protagonizados por integrantes do governo do PT.
Mas, num país em que a corrupção é cultural e se aloja nos mais prosaicos gestos dos cidadão brasileiros, não se pode esperar outra coisa. Há um número astronômico de brasileiros que não se envergonham de jogar papel de sorvete na rua, copinho de yogurte, falsificar carteirinha de estudante, estacionar em vaga de idoso ou deficiente físico sem sê-lo (sem selo do Ciretran e sem ser idoso ou deficiente), oferecer propina a policiais para evitar multas, não dar e não exigir nota fiscal, não declarar Imposto de Renda, aceitar troco errado, roubar ligações de TV a cabo, furar fila, comprar CDs, DVDs, jogos e programas piratas, comprar produtos contrabandeados.
Pode ter certeza, meu amigo, se você não é um corrupto prático é possível que seja um corrupto cultural. Você nem percebe. Mas pode fazer parte de um contingente de brasileiros a quem a corrupção institucionalizada perpetrada nos gabinetes do governo e das estatais não toca e não sensibiliza.
A corrupção tem duas faces: a do corruptor e a do corrupto. Se você não faz as coisas erradas, mas aceita quem as faça, o corrupto é você!

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

OS SETE MERGULHOS DE NAAMÃ E O 171 CHAMADO GIEZI

HENRIQUE FARIA

Eu confesso minha ignorância bíblica. Hoje passei por uma das esquinas da nossa cidade e vi uma propaganda de um desses setenários temáticos que uma certa corrente da Igreja Católica vem promovendo para chamar fiéis para as suas comunidades. Eu ainda não tinha ouvido falar dos tais "Sete mergulhos de Naamã". E fui procurar na Bíblia o que seria a tal história.
Trata-se de um general arameu, vitorioso em suas campanhas, que, por baixo das suas vestes militares muito bonitas, escondia um corpo cheio de chagas, que a Bíblia diz ter sido lepra. Na sua casa trabalhava uma menina, prisioneira de uma de suas batalhas, que aconselhou a sua mulher a encaminhar o marido general até o profeta Eliseu, no reinado de Israel, homem de muita familiaridade com Deus (o Deus de Israel), capaz de curá-lo da enfermidade. Naamã aceitou a sugestão. E lá se foi atrás do profeta. Levou consigo não sei quantos quilos em moedas de prata e mais alguns presentes.
Eliseu mandou-o mergulhar no rio Jordão por sete vezes, prometendo que depois do sétimo mergulho ele sairia das águas com a pele totalmente limpa. O general não gostou muito, já tinha desistido, mas acabou fazendo o que o profeta mandara, graças à insistência de um dos seus criados. E ficou curado! Glória a Deus!
Emocionado e cheio de gratidão, voltou até Eliseu e lhe ofereceu muito dinheiro em recompensa pelo milagre. Eliseu, que me parece não tinha o olho grande, não aceitou a grana e ficou até ofendido com a oferta. Tudo bem. Naamã foi embora.
Só que aí entra o esperto: um tal de Giezi, que havia ouvido a conversa entre o general e o profeta e a recusa deste em aceitar o presente. Ah... Cresceu o olho do Giezi, que correu atrás de Naamã e jogou o maior 171 no general e conseguiu receber o dinheiro em nome de Eliseu.
Acabou que o profeta ficou sabendo, rogou uma praga no Giezi e quem ficou leproso acabou sendo o espertalhão. (Você pode conferir a historinha no 2º livro dos Reis, capítulo 5, versículos 1 a 27.)
Bem. A história termina aí. Na Bíblia. Mas por essas comunidades católicas que vêm resgatando devoções protestantes sacadas do Antigo Testamento, nem sempre. Então eu fico pensando: hoje, quando alguns profetas prometem milagres através desses cultos que dizem ter resgatado da Bíblia, é muito difícil constatar que eles recusam recompensa. Pelo contrário: pedem! Mas, se não pedem, sempre existe um Giezi enrustido que vai saber como meter a mão no bolso dos incautos.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

CONVERSÃO DAS ESTRUTURAS. PARA QUANDO?

Henrique Faria

As nossas pastorais têm uma visão mais estrutural de conversão, eu sei, mas foram engolidas por um movimento autodenominado libertador que se utiliza com eficiência de técnicas de marketing voltadas para a cultura mística, intimista, egocêntrica, devocionalista e conservadora do nosso povo. O que tem levado multidões às nossas igrejas, hoje, especialmente às quintas feiras - lembrando que o dia preceitual do culto é o domingo - e às novenas, setenários e quaresmas temáticas é essa espiritualidade que contempla a própria cura e libertação de cada fiel, alienada do processo de cura e libertação das estruturas sociais.
Enquanto o nosso povo não for convertido em sua cultura, nossa religião não conseguirá converter as estruturas. Como transformar a cultura do nosso povo em uma cultura verdadeiramente libertadora se essa mentalidade devocionalista e conservadora é o que sustenta nossos pastores, muitos deles ególatras e autodúlicos (aqueles que promovem a própria veneração), moldados à imagem e semelhança da Igreja curial romana, que nem Francisco, o original, conseguiu transformar?

terça-feira, 27 de maio de 2014

VAMOS MONTAR A NOSSA SELEÇÃO DO POVO?

Henrique Faria

No gol, educação. Afinal, é a posição mais estratégica da equipe. Um bom goleiro dá confiança ao time; a equipe joga por ele e é ele o jogador mais vocacionado a ser herói.
Vamos para a zaga. Precisa ser raçudo. Dois zagueiros dá um sistema legal: a saúde, caindo mais para a direita e a cultura, mais à esquerda, já que a intelectualidade é mais canhota mesmo.
Nas laterais, a segurança pública à direita e a justiça à esquerda. É verdade que ao delegar a justiça à lateral esquerda, corre-se o risco de deixar a posição desguarnecida com os constantes avanços do jogador ao ataque. Mas, enfim, existe a possibilidade de uma substituição no decorrer do jogo. A segurança pública tem que ficar à direita, de preferência à direita mais disciplinada e mais enérgica.
Jogamos com dois volantes, guarnecendo a zaga e fazendo a ligação com o meio de campo: mobilidade urbana e transportes, evitando, evidentemente a construção de uma avenida no meio de campo que vá favorecer o adversário.
Meio de campo é fundamental para o equilíbrio da equipe. Economia e desenvolvimento social, jogando sério e sem querer facilitar as coisas para a elite, nem ser generoso demais com o povão, inventando bolsas disso e bolsas daquilo só pra ganhar voto.
No ataque, a honestidade, com presença mais constante na área, oportunismo voltado para a equipe e não para as próprias chuteiras; e competência para ganhar de goleada, porque esse negócio de 1x0, 2x0 é pra timeco. O nosso time se chama Brasil
E para técnico: eu, você, todos nós que vamos montar a nossa equipe nas próximas eleições!
E nada de convocar a corrupção! Cartão vermelho para ela antes mesmo de o jogo começar!

sábado, 3 de maio de 2014

O PODER E A ONDA. O DIA QUE O PAPA VOLTOU A SER RATZINGER

Segue mais um artigo não publicado na época pertinente, mas que o faço agora:

O PODER E A ONDA. O DIA QUE O PAPA VOLTOU A SER RATZINGER

Os críticos da Igreja se refestelam com o noticiário que dá conta de possíveis escândalos na origem da decisão de Bento XVI em abandonar o barco. Para mim, a fé em Jesus Cristo, a confiança em sua mensagem e a certeza de um mundo melhor que existe além das fronteiras do tempo e do espaço não se sentem abaladas por possíveis desvios de rota de gente que tem tudo para conhecer o melhor caminho, mas que parece entender que pela aventura a viagem é mais empolgante.
Reconheço que deve haver, pelos corredores do Vaticano, a mesma tendência ao “bem-estar”, (inegavelmente reconhecido pelo cardeal Martini antes de morrer, em agosto de 2012) que existe em nossos cleros diocesanos, em nossas cúrias e paróquias, freqüentadas por gente e não por anjos. Acho que os anjos vacilam um pouco, quando seus protegidos vestem barretes e manteletas, se paramentam do carmim e desfrutam com mais proximidade das benesses do poder que Jesus transmitiu a um humilde pescador. Eles acham que seus apaniguados não precisam de tanta proteção. Afinal, estão tão pertinho de Deus... Aí, dá no que dá...
A Igreja tem uma história de pecado de mais de dois mil anos, mas o que a sustenta é a graça, muito maior que o mal, inaugurado ainda na presença de Jesus, quando um de seus escolhidos pisou solenemente na bola, como pisam os curiais romanos, farfalhando suas batinas entre um pecadinho e outro. Ou... entre um pecadão e a hipocrisia em escondê-lo debaixo do tapete.
As denúncias que vazaram pela infidelidade do mordomo – sempre ele, o mordomo! – são vicissitudes próprias de pessoas muito próximas do poder. Como manter a santidade de uma instituição com um colégio que não foi educado para ser santo, mas para sustentar um ente rico e poderoso, muito longe da realidade do mundo atual, em que 80% das pessoas estão classificadas como pobres e miseráveis?
Santos são os padrecos – aqui, num tom bem carinhoso – que partilham com suas comunidades de periferia a fome, o desemprego, a violência, a opressão, a falta de oportunidade para a educação formal universitária, a indignidade da moradia, intergalacticamente inferior à suntuosidade dos palácios romanos. Esses, sim, têm sensibilidade para perceber que o seu “bem-estar” não deve ultrapassar o conforto de apenas uma túnica, o despojamento do ouro e da prata, da sacola e do bastão, a satisfação apenas com o salário a que tem direito. Mas eles nunca vão chegar ao poder.
Acho que o papa pensou nisso tudo, viu a viola em caco com a barca soçobrando entre as vagas que prenunciavam um tsunami, e decidiu: “Eu estou muito velho para segurar essa onda!”. E voltou a ser Ratzinger.

O DIA QUE O PAPA ACEITOU SEU PRAZO DE VALIDADE

Andei fazendo uma limpeza nos meus arquivos e achei este texto que, não sei por quê, não havia publicado. Segue aí com um pouquinho de atraso.

Se todo mundo pode dar palpite sobre a renúncia do Papa eu também posso. Bento XVI não me surpreendeu com a sua atitude. Para quem entrou com o vigor que ele entrou e chegou em apenas oito anos a esse estado de penúria que lhe legou a cátedra de São Pedro, com o perfil de Ratzinger, só poderia mesmo dar nisso. Acho que ele deu uma tremenda banana aos purpurados da Cúria Vaticana, que como nós, brigam pelos aposentos funcionais, como brigaram os cardeais Sodano e Bertone, este o secretário atual e aquele o secretário anterior do papa, que retardou o quanto pôde em entregar as chaves da alcova secretarial. Secretarial? Existe isso?
As revelações exaladas pelos papéis surrupiados pelo mordomo papal – exaladas mesmo, porque não chegaram à clareza das revelações dignas de um romance de Dan Brown – talvez tenham sido a gota d’água na decisão beneditina, acalentada, segundo Frederico Lombardi – o Lula do Vaticano, que não viu nada, não sabe de nada, não conta nada – desde um pequeno acidente sofrido pelo papa em sua viagem ao México.
Os documentos expõem à nudez as picuinhas curiais muito mais afeitas às humanidades episcopais e cardinalícias – ou seja: os “monsignori” que transitam no dia a dia dos corredores da Cúria Vaticana estão muito mais próximos das vicissitudes humanas que da beatitude angelical – em detrimento do debate de grandes temas que deveriam provocar o “aggiornamento” proposto pelo Vaticano II. Eu digo “grandes temas”, porque, Bento XVI provavelmente ria – intelectual de primeira grandeza que é – dessas miudezas como a tolerância com o uso de camisinhas, casamentos gays, ordenação de mulheres para o ministério sacerdotal, e outros probleminhas que ele sabia que, de uma canetada só, ele poderia resolver.
Acho que a Cúria Romana era muito pequena para Bento XVI, que não escapou à regra geral sobre o desastre que é a intelectualidade no poder. Poder é para “pião” ou para profissionais da política, no que bem se aproximam certos prelados que se alvoroçam com a proximidade de um novo conclave.
E lá Bento XVI tinha tempo para saber a quantas andavam as finanças vaticanas? Tadinho... Ele não tinha jeito nem para pegar criancinhas no colo... Ele queria era escrever. Produzir teologia. E o fez com a grandeza de quem discute com Agostinho ou Tomás de Aquino, e sem dever nada aos próceres da intelectualidade teológica dos dias de hoje. Com este perfil, você acha mesmo que um Ratzinger iria deixar vazar por entre os dedos os anos que lhe faltam cumprir nesta jornada terrena, tentando fazer andar um mecanismo emperrado pelas ferrugens da humanidade, quando lhe foi prometido funcionar com o besunto do Espírito?
Ele aceitou ser papa em nome da memória do seu antecessor que o queria para isso. Mas era para ser um papa de transição. Oras... Já se passaram oito anos e até quando vai essa transição? Acho que ele pensou bem, pensou, pensou... Ó! Vocês querem saber de uma coisa? Morrer eu não vou mesmo tão cedo. E o meu prazo de validade esgotou... vivo! Vivinho! Então: pernas pra que te quero? Ou melhor, pernas pra que “vos” quero, afinal Ratzinger não iria cometer um erro de concordância. Fui!