sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Há causas mais urgentes por que gritar

O conflto entre estudantes e polícia, ocorrido durante esta semana no campus da USP atinge também jovens e polícia da nossa região.
Nada contra a impetuosidade própria da idade. Há que se entender o jovem como um contestador sazonal, na primavera da vida, disposto a consertar o mundo. E é isso que deveria mover a sua juventude.
Em princípio, mesmo que não tenha razão em todas as suas contestações, carece-lhes um ente disciplinador, com poder (os órgão públicos de educação e segurança) e status moral e social (os pais) para lhes conterem o ímpeto quando extrapolam seus limites.
Dar razão à revolta de alguns estudantes pela ação da polícia que deteve três jovens portando maconha, é, no mínimo, temerário. Primeiro porque a polícia está lá exatamente a pedido de administração, professores e alunos, para dar segurança a quem freqüenta o campus, em decorrência do assalto com morte de um jovem daquela Universidade, no seu estacionamento. Na ocasião, a grita geral era pela falta de segurança. Resolvido o problema, agora, é pelo excesso de segurança e zelo por parte da polícia militar do estado de São Paulo.
De uma certa forma, os jovens das classes A e B – eles são maioria na USP – têm pouco a contestar, pelo menos no que atinge a si próprios, pois, convenhamos, quem consegue usufruir do ensino gratuito da maior universidade da América Latina tem uma situação privilegiada se comparados à miséria e exclusão de que são vítimas a grande maioria de jovens brasileiros da sua idade. Estes sim, com motivos de sobra para atacarem não a polícia militar, mas a estrutura política dos três poderes – dos três... – que os alija da universidade pública.
Ou seja, a maioria desses alunos que tomaram o prédio da reitoria da USP são rebeldes sem causa que, ao primeiro “qüi-pro-quó” estabelecido no campus, levantam bandeiras, agressivos, brigando por brigar, num revide desproporcional à causa, como aconteceu na USP esta semana. As mesmas bandeiras que levantaram na ocasião do crime que tirou a vida do colega, levantam agora, com outra tarja, contra a mesma instituição que defenderam alguns meses atrás.
No meio desses alunos beligerantes existem bons meninos, boas meninas, que se envolveram no calor da briga, principalmente no momento que a polícia teve que agir. Mas foram manipulados. Fora dessa curriola, conforme uma consulta informal feita por alguns jornalistas de vários meio de comunicação, existe uma maioria muito mais significativa que defende a permanência da polícia militar para coibir os abusos ensejados por uma minoria que não gosta de estudar e que tem a USP como símbolo de status – inteligentes, é verdade, mas pouco afeitos aos estudos – tirando lugar de jovens que precisam muito mais do arrimo publico.
Não é segredo para ninguém que rola todo tipo de droga no campus universitário, levadas pelo tráfico “quase inocente” (aqui usamos aspas) de jovens aparentemente inofensivos, bonitinhos, bem cuidadinhos, bem alimentadinhos, diferentes dos malucos que fazem o avião da favela.
E é preciso coibir esta prática. Se para a comunidade acadêmica o uso de droga está banalizado – já que uma boa parte dos jovens se drogam com extrema naturalidade, principalmente nos barzinhos e nas baladas – para a sociedade ainda não está. O uso e o porte de drogas são atitudes condenadas, por causarem estragos às vezes irremediáveis para as famílias e para as pessoas. Não se pode descuidar desse perigo.
Por isso, se a educação de pais e mestres não funciona, é preciso que a polícia interfira na comunidade jovem, coibindo essas ações, que são questões não só de saúde, de moral, mas de segurança pública.
Aos jovens é preciso que se conscientizem de causas mais nobres para empunharem as suas bandeiras. E que não façam como muitos dos seus pais, que berraram tanto na juventude e hoje, acomodados em seus empregos ou em suas empresas, não têm mais sensibilidade para gritar, por exemplo, por muitos dos amigos dos seus filhos que não têm a menor chance de estudar em uma universidade pública.
Como muitos dos seus pais, que os jovens não percam a capacidade de se indignar, e nem cantem daqui a alguns anos, os versos de Belchior para quem os pais foram quem deram a idéia de uma nova consciência e juventude, mas que agora estão em casa contando o vil metal.
Há muita coisa por que gritar. Mas, com certeza, não deva ser na defesa da banalização do uso e do porte de drogas.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

QUE POSSAMOS TER PELO MENOS O NECESSÁRIO

Henrique Faria

A doença do ex-presidente Lula enseja alguma reflexão. Evidentemente que nós cristãos somos solidários com ele nesse momento crítico e desejamos, como desejamos aos milhões de contribuintes do INSS e aos outros tantos que nem INSS têm e que precisam se valer do SUS para cuidar da sua saúde, que ele tenha sucesso no seu tratamento e que sua doença não passe dos efeitos da pirotecnia que a mídia vem lhe imprimindo.
Mas ao nos referirmos aos SUS não tem como esquivar-nos da pergunta: ora, se a saúde vai tão bem no país e o SUS tem atendimento de primeiro mundo como ele próprio alardeia e alardeiam os caríssimos anúncios oficiais veiculados na televisão, por que Luiz Inácio não se sujeitou a se tratar na rede pública de saúde, procurando um dos mais caros e, diga-se de passagem, mais eficientes hospitais do Brasil? Você responderia: porque ele pode pagar.
Concordamos plenamente que quem pode pagar deve mesmo procurar os melhores recursos e seria uma estupidez uma pessoa dessas sujeitar-se a se deitar numa maca estacionada num dos corredores sujos e infectos dos nossos hospitais públicos – com algumas exceções – aguardando por dois ou três dias o momento do médico mandar que abra a boca para enfiar-lhe a palhetinha na garganta.
Não iríamos exigir isso do ex-presidente. Mas fica evidente que o SUS não tem condições mesmo de garantir um tratamento eficaz. Vale reproduzirmos aqui alguns números divulgados pelo Tribunal de Contas da União, segundo uma reportagem da Folha de S. Paulo, que o jornalista Gilberto Dimenstein publicou em seu blog: no ano passado, 60 mil pacientes portadores de câncer não conseguiram se submeter a tratamento radioterápico; como se esse número não fosse o suficiente para sensibilizar o nosso governo, 80 mil não puderam se submeter a uma cirurgia de extração de tumor. E o pior: detectada a doença, o tempo máximo sugerido para espera do tratamento é de 30 dias. Mas, no Brasil, segundo o TCU, dos que conseguem atendimento em radioterapia – repetimos que 60 mil não conseguem – , apenas 35% o conseguem no prazo de risco, sendo a média de espera de 77 dias, na melhor das hipóteses. Na quimioterapia a situação é pior: a média de espera é de 112 dias e somente 16% dos pobres privilegiados conseguem atendimento no primeiro mês.
Isso só para falar muito superficialmente do câncer. Outras doenças têm da mesma forma o mesmo tratamento. Algumas piores. Nossos hospitais públicos são verdadeiros circos de horrores.
E pensar que nós temos dinheiro para isso! Com uma das maiores cargas tributárias do mundo, o Brasil deixa escoar pelo ralo da corrupção o dinheiro que arrecada, que daria para Luiz Inácio ser atendido, com todas as honras de um ex-presidente, em um hospital do SUS. A riqueza que seria para ser repartida entre os muitos milhões de brasileiros é saqueada por uns poucos, que chegam talvez a sete ou oito centenas de ladrões que têm em Brasília a sua caverna maior, e a senha tupiniquim, equivalente à da versão das mil e uma noites, codificada por Ali Babá, com as doze letras do “Abra-te Sézamo!”.
Nada de execrar o pobre ex-presidente – que se iguala aos pobres mortais num momento como esse – por ele poder ser tão bem atendido. Nós não queríamos dividir com ele a nossa pobreza, mas gostaríamos que ele dividisse conosco a sua riqueza. Afinal, ser solidário na pobreza é pedir esmola para dois. Nós temos que dividir é a riqueza, mas enquanto ficarmos trocando votos por dentadura ou por uma merreca de uns míseros poucos reais do Bolsa Família, vamos continuar sendo pobres. Isso vale para você também que não tem dentadura e tem seus dentes bonitos, ou que nem vive dos favores do governo.
Deus salve o rei! Deus salve a rainha! Deus salve esse povo e lhe permita viver com saúde! E se os amigos do rei têm o direito a tudo, que seus súditos tenham acesso pelo menos ao necessário!