sábado, 24 de setembro de 2011

Considerações de um míope de fé

Henrique Faria

Eu me preocupo em não me fazer entender em tão exíguo espaço do jornal. No entanto, me arrisco a convidar você, leitor, a refletir comigo e, se puder, complementar, consigo mesmo ou através do próprio jornal, no que eu possa estar incompleto, ou me corrigir no que estiver incorreto. Que o faça sem cerimônia.
Não podemos estar de olho na realidade sem estarmos de olho em Jesus. A recíproca é verdadeira. Como n’O Lábaro já existe muita gente de olho em Jesus, eu me permito olhar a realidade sem perdê-lo de vista. Vou me ater a apenas quatro passagens do evangelho onde entendo que Jesus me inspira para o que eu quero afirmar. Não se trata de interpretação do texto evangélico. Que fique claro.
A primeira delas vem do capítulo 2, versículos 13 a 17 do evangelho de João. Não vou me perder em divagações teológicas, mas apenas lembrá-lo de que um dia Jesus perdeu a paciência. Em Mateus, no versículo 15 do capítulo 7, Jesus fala dos lobos vorazes que se vestem com peles de ovelhas. Eu sei que em ambas as passagens é preciso que se veja o texto no seu contexto. Mas, mesmo diante de um contexto diferente, não podemos negar que Jesus foi muitas vezes muito duro, às vezes irônico, mas sempre se mostrando homem, com a sua paciência se esgotando ou com a sua credibilidade na bondade natural do ser humano balançando diante de pessoas que não merecem o nosso crédito.
Ao ouvir de certos corações bondosos uma alusão à virtude inquestionável da solidariedade apregoada no capítulo 25 de Mateus (versículos 35 e 36), chamando uma corja de vagabundos de “nossos irmãozinhos da rua”, eu me questiono se Jesus está mesmo encarnado nessa gente que não quer nada com a dureza, gente que tem família, tem casa, alguns até aposentadoria como um negro – ou se você preferir, afro-descendente – forte que pede esmola na porta de uma das nossas igrejas... Ou se Jesus está mesmo naquela senhora promíscua, que dorme pelas marquises do centro da cidade, sempre com parceiros diferentes, sem a menor compostura, fazendo as suas necessidades fisiológicas sem o menor constrangimento em frente aos estabelecimentos comerciais, fazendo turismo “na roça”, como ela diz, para visitar seus parentes, de vez em quando...
Eu me pergunto se Jesus está mesmo nessa quadrilha de desocupados que nos achacam no centro da cidade com a desculpa esfarrapada e o gentil oferecimento de tomar conta do seu carro por uns míseros minutos quando você vai entrar na farmácia...
Sinto muito, caro leitor, mas eu não estou afirmando que ele não está. O que eu quero dizer é que eu, míope de fé, não consigo enxergar mais do que uma embaçada e indecifrável imagem do que pode ser a sua passagem pelo centro da cidade. Não sei não... Mas, aqui com meus botões, eu acredito que se fosse ele mesmo, perderia a paciência e meteria o relho nessa cambada que se fantasia de Jesus, com aquela falinha mansa nos chamando de “doutor”, escondendo lobos em pele de ovelha.
Não vamos generalizar, evidentemente, mas a polícia teria condições de separar o joio do trigo, se é que você quer dar um tom evangélico a essa mazela social.