sábado, 25 de junho de 2011

O sonho do batráquio

Henrique Faria

Me engana que eu gosto... A mídia nacional, especialmente as grandes redes de televisão, veiculam propagandas espetaculares, muito bem feitas, sobre a maravilha que constitui este país pós-batráquio barbudo. Os manipuladores da opinião nacional, bem assessorados por competentes agencias de publicidade, distantes dos princípios éticos que nortearam a criação do partido que hoje está no poder, reinventaram o Brasil como um país do “faz-de-conta”.
Quem vê o sapo coaxando na lama que se tornou o governo que antecedeu à dilminha-paz-e-amor, imagina uma Suiça de dimensões continentais abaixo da linha do Equador.
As escolas, nos mais distantes rincões, servem verdadeiros banquetes em suas merendas, ensinam o que garante uma vaga às mais cobiçadas universidades europeias ou norteamericanas; aos menos aquinhoados, o Pro-Uni faz o seu papel de não deixar nenhum jovem sem universidade; o ensino fundamental abriga crianças em suas carteiras azuis, todas lindas em salas limpinhas onde alunos bem penteados, meninas bem vestidas e professoras que se recusam a disputar as passarelas do mundo fashion, apesar de tão bonitas, para ensinar o beabá; os adolescentes do ensino médio vivem momentos de euforia e não controlam a ansiedade de poderem chegar ao terceiro grau com a garantia de se colocarem, logo no primeiro emprego, em funções com salários que somente serão superados pelos dos jogadores de futebol. Que coisa maravilhosa!
Nossas estradas são verdadeiros tapetes das mil-e-uma-noites, onde carretas enormes, que mais e parecem trens, planam ao lado de carrões dotados dos mais modernos itens de segurança e conforto, como se fizessem o trajeto Dubai-Riyad nos tempos do Ali Babá.
O sonho do batráquio estende seus eflúvios pelos nossos hospitais, onde há sempre um especialista esperando ansioso que o procure um doente – coisa rara de se ver nesse país – sem que precise esperar por filas que já fazem parte do folclore, dos lendários tempos em que para se conseguir um exame dos pulmões, uma endoscopia, uma reles ultrasonografia do abdômen você precisava esperar o dia certo do mês – um dia só nas calendas do hospital público – para disputar com dezenas de outros pacientes o privilégio de conseguir uma senha para um das seis vagas disponíveis para os exames do mês seguinte. No sonho que o sapo sonha não há pacientes baleados dando entrada no pronto-socorro, porque a violência foi banida desse país; entra um ou outro com gastrite, crise renal, apendicite e até um pré-coma-alcoólico – que, afinal, na Suiça meridional todos os males estão desaparecendo, mas não se conseguem banir os exageros etílicos, já que isso não faz parte dos sonhos do batráquio.
Eu poderia falar muito mais, como, por exemplo, do clima de mosteiro que se instalou nos morros cariocas, ou do hare em que transformaram os bairros mais violentos de Salvador...
Sonhe você seus próprios sonhos, que eu vou amargando a minha realidade, vendo adolescentes desistindo dos estudos no terceiro grau para trabalharem em empregos que não são exatamente os dos seus sonhos; empurrando as minhas crises de vesícula aguardando a minha cirurgia com previsão de seis meses após o diagnóstico; desviando de buracos por nossas estradas e cambaleando pelas nossas ruas, num balé patético que me faz desviar de balas perdidas, de buracos nas calçadas ou de montes de cocô fedorento deixados de lembrança por moradores de rua que a cada dia inflacionam as nossas estatísticas como chagas sociais que não param de crescer.
Sonhe você o sonho do batráquio, que eu já quase não consigo sonhar nem mesmo os sonhos de Platão.

sábado, 4 de junho de 2011

Algo de podre no Reino de São Francisco das Chagas

Henrique Faria

Não sei não... Posso estar enganado... Mas a gente vai pinçando aqui, pinçando ali algumas atitudes, comentários, coisas que vão para as ondas do rádio ou para as lajotas marmorizadas dos presbitérios, ditas em homilias ou nos intermináveis momentos de avisos após a comunhão, que me cheiram que há algo de podre no reino de São Francisco das Chagas... Parece... sei não... Mas para eu colocar isso aqui, saiba o leitor que estou fazendo um esforço enorme para não acreditar, embora tenha fundados motivos para desconfiar. Coisa feia... Uma pena que não possa citar nomes, mas, pelo menos os católicos mais assíduos às celebrações, sabem muito bem separar o joio do trigo.
Já não é mais tão velada uma insurreição que vem sendo orquestrada, ainda em “adagio”, buscando abafar o crescimento de certos movimentos dentro da Igreja, que atraiam grande público, ávido de cura, conforto, libertação. Alguns padres, que falam a língua do povo, têm profunda empatia com os fiéis, carreiam multidões para as suas celebrações justamente porque fazem de suas homilias uma verdadeira teologia de libertação – não necessariamente “da” Libertação – vêm sendo sistematicamente podados em suas celebrações – não pelo bispo, diga-se de passagem – em sua caminhada pastoral, em sua vida pessoal e em sua – pasme! – comunhão eclesial.
Quem conhece nossa Igreja de perto conhece também inúmeros casos de banimentos de sacerdotes que começam a incomodar a mesmice “pastoral” que fala mais do sexo dos anjos do que da realidade que vivemos. Muito pior do que isso é o constrangimento a que esses padres são submetidos, sabe por quê? Por causa da concorrência. E por causa da concorrência outros investem pesado no marketing religioso, explorando a boa fé e a ignorância do povo com celebrações às quais inventam nomes bem apelativos, no melhor estilo pentecostalista dos picaretas da fé.
Os protestantes norte-americanos – não as Igrejas (com “I” maiúsculo) protestantes tradicionais, como a Batista, a Luterana, a Presbiteriana, a Metodista e outras – fizeram escola entre nós. E hoje nós temos aí uma infinidade de seitas “caça-níqueis” explorando o povo sofrido que busca alívio para seus males, pagando, às vezes, um alto preço pela sua ingenuidade. Pior: esse movimento estendeu suas teias para o interior da Igreja Católica.
É por essa mentalidade monetarista implantada pelos marqueteiros da fé que também nós, católicos, assistimos, ainda que em câmera lenta, uma luta entre ministros que deveriam ser mais irmãos. Enquanto a banda podre se embate pelas suas coletas, ofertas, favores e doações – às vezes consideráveis! – a banda boa se cala em nome da unidade do clero. Uma pena...

A união homoafetiva: um fenômeno social ou um pecado inatural?

Henrique Faria

Não é fácil elaborar uma reflexão a respeito de qualquer aspecto do homossexualismo sem o risco de cair na rede da discriminação, mesmo que a idéia a ser apresentada seja favorável à prática milenar das relações de afeto entre duas pessoas do mesmo sexo.
Ninguém – ninguém! – é juiz de ninguém para condenar ou para dar sustentação moral ao homossexualismo, seja ele entre dois homens ou duas mulheres. Isso sem contar que muitos – mas muitos mesmo... – dos que fazem coro aos homofóbicos não saem do armário por falta de coragem, ou por conveniências sociais ou religiosas que os mantêm igualmente pendentes ao que a sociedade machista determina como práticas “suspeitas” estranhas ao comportamento masculino ou feminino considerado “natural”. Até na intimidade de casais ditos heterossexuais há uma enciclopédia de relatos pouco recomendáveis à masculinidade ou à feminilidade convencional dos pares. Por isso, a decisão exarada pela mais alta corte judiciária do país a respeito das decorrências jurídicas de uma união homossexual não constitui um julgamento, mas uma regulamentação.
A declaração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) a respeito da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) quanto à união entre pessoas do mesmo sexo carece de alguma emenda. Trata-se de uma declaração equilibrada, respeitosa, desapaixonada. No entanto, acredito haver entre suas linhas um equívoco quando o seu enfoque se baseia na imoralidade do relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo, enquanto “família”. O texto não é discriminatório enquanto entende que “As pessoas que sentem atração sexual exclusiva ou predominante pelo mesmo sexo são merecedoras de respeito e consideração. Repudiamos todo tipo de discriminação e violência que fere sua dignidade de pessoa humana (cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 2357-2358).”
A decisão do STF não contempla a união dos casais gays com o status de “família”, apesar de lhes assegurar direitos que protegem a entidade familiar. Os bispos brasileiros sabem perfeitamente o que constitui uma família, que não é o mero ajuntamento de um homem, uma mulher e uma porção de bacurizinhos. Assim, a união de casais do mesmo sexo também não têm a espiritualidade do que constitui uma família de fato – uma (...) “instituição (...) (que) corresponde ao desígnio de Deus (...) tão fundamental para a pessoa que o Senhor elevou o Matrimônio à dignidade de Sacramento” – já que a de direito é coisa dos homens. O que é “família” para a moral religiosa não é o necessariamente para a lei. E, perante a lei, a união estável de casais do mesmo sexo – uma realidade consumada, irreversível – tem que ser amparada como um fenômeno social e não discriminada como um pecado inatural.

O castigo vem a cavalo

Henrique Faria

O caos que tomou conta da política em Taubaté, sinceramente, não era previsível. Ainda que se soubesse das limitações do prefeito reeleito em 2010, bem como da influência questionável da primeira dama nos negócios administrativos do município, não se esperava chegar a tanto. Não me arrisco a condenar o Peixotinho pelas falcatruas alardeadas pela imprensa, pelos grupos de oposição e pelo Ministério Público por dois motivos basilares: primeiro pela raiz do atual prefeito; ele vem de uma família política tradicional da cidade, impoluta, considerando, principalmente, seu pai, Moacyr de Alvarenga Peixoto, que deixou um legado de honradez não somente político, mas, de cidadania, de família. Custa acreditar que o filho do seo Moacyr, irmão do Moacirzinho – uma das pessoas mais íntegras que conheci na minha vida e do qual tenho o privilégio de desfrutar da amizade –, tivesse coragem de meter os pés pelas mãos no trato com o dinheiro público. O segundo motivo é por não acreditar que ele tenha competência e desenvoltura para criar uma situação de extrema pressão sobre ele sem que, depois de vários processos, idas e vindas à justiça local e aos tribunais pertinentes, consiga safar-se de condenação em última instância, como vem acontecendo. “O homem tem corpo fechado”, dizem alguns daqueles que assistem de maneira isenta ao “imbroglio” em que a cidade se meteu. Eu não acredito em “corpo fechado”. Acredito na justiça, ainda que tenha minhas reservas quanto a alguns de seus operadores.
Mas o fato está aí, cercado de factoides, é verdade. E quem o elegeu, principalmente entre o eleitorado assentado sobre o funcionalismo municipal, induzido pela campanha popularesca que prometia os mais prosaicos favores – como por exemplo, a instalação de barraquinhas de quinquilharias no centro da cidade – percebe, agora, que a procissão da rua do Café, que ainda hoje se alinha em frente à casa do prefeito a mendigar favorecimentos e privilégios, não se justificou frente ao custo-benefício de uma administração estabanada que, na melhor das hipóteses, confirma a limitação do nosso alcaide.
Ele já era limitado por ocasião da eleição. O menos indicado para gerir a cidade entre os três candidatos que se postaram nas primeiras colocações. Agora Inês é morta, meu caro! A ignorância, apesar de não ser defeito, produz também os seus castigos. E quando vejo aqueles bravos professores se esperneando na praça Dom Epaminondas por reajuste salarial a que fazem justiça, sinto dizer-lhes que, infelizmente, o castigo veio a cavalo. Troteando de São Bento até aqui.

Chique é ser litúrgico

Henrique Faria

Já perdeu um pouco a atualidade, mas ainda vale recordar como uma referência para a minha reflexão. Estou falando do casamento do príncipe Willian com Kate Middleton. Talvez não tenha tido o brilho das bodas de Charles e Diana, mais pelo carisma de Lady Di do que pela elegância em si da cerimônia. O casamento do príncipe, acontecido do último dia 29 de abril, foi o que de mais glamoroso aconteceu na nobreza do Reino Unido nos últimos trinta anos.
A cerimônia religiosa me chamou à atenção pela elegante simplicidade traduzida na decoração da nave central da Abadia de Westmisnter e, principalmente no desenrolar da celebração, com a participação rigorosamente litúrgica da congregação anglicana, mantendo uma postura reverente durante as orações, cantando quando era o momento de cantar junto com o coral, quando se pôde ver o superstar Elton John com o libreto na mão participando do coro da assembléia como qualquer simples mortal. Uma cerimônia séria. Litúrgica.
Bem... Você poderia dizer: “Ora, mas era o casamento do príncipe!”. Eu lhe diria que era a celebração de um matrimônio de um casal que se ama – é evidente o afeto que Willian e Kate nos transmitiram – que se reduziram a duas pessoas comuns quando se trata de postar-se diante de Deus para receber a sua bênção. Aquele momento sagrado não faz distinção de classes por posição econômica ou social. A seriedade conduzida pelo presidente da celebração, pelos noivos e pela congregação na Abadia de Westminster foi um exemplo de que, afinal, chique é ser litúrgico.
Diferente das nossas celebrações de casamento, quando se dispõe de uma parafernália distribuída entre a aparelhagem de som, os cantores e a decoração rebuscada de lençóis estendidos apartando o povão da passarela, colunas luminosas em fibra de vidro, arcos floridos à prova de qualquer saliência supracefálica dos noivos, e o pior: uma cantora se estrebuchando em inglês, aos berros que pateticamente tentam imitar Whitney Houston em seu antológico “The Bodyguard”. Convenhamos que é o suprassumo do brega, terrivelmente agravado com a execução de “Bridge over troubled wather”, seja no original ou na versão lacrimosa que os jovens dos anos 70 adotaram por hino de amor desmedido. Teatro puro em que nem Deus, nem os noivos são os personagens centrais.
Se você quer ser chique, é melhor repensar as suas referências.