domingo, 20 de março de 2011

Internet: uma bomba em nossa casa

Henrique Faria

O mundo vem dando saltos em progressão geométrica no que tange ao progresso tecnológico. As coisas acontecem muito rápido quanto rápido elas se tornam obsoletas. E entre os grandes fatos do mundo da tecnologia, a Internet surge como, talvez, a mais poderosa arma cultural da história da humanidade.
Em muitos poucos anos, desde que foi lançada – aqui no Brasil, em meados dos anos 90 – ela ganhou tamanha importância que vem mudando o comportamento das pessoas de maneira tão rápida, criando uma nova cultura – a cultura cibernética – que deixa o homem pequenininho diante da aldeia global.
As previsões de grandes cientistas, antropólogos, sociólogos e estudiosos do comportamento humano feitas há pouco menos de trinta anos foram superadas em pelo menos dez vezes mais o tempo em que eles se adiantaram, ou que... achavam que estavam avançando. Previsões para 100 anos, aconteceram em menos de 20. Estamos diante do imponderável, do imprevisível, quando o tempo já adquire ares de eternidade, ou seja, o tempo não existe.
Diante de um quadro como esse, assistimos a fatos há pouco tempo inimagináveis, como por exemplo, o já ocorrido há quase dez anos, o ataque às torres gêmeas de Nova Iorque, fruto da ousadia do homem, que só víamos em filmes de ficção.
Pensar numa avalanche como se viu com a tsumani arrastando tudo, implacável, no Japão, só mesmo em filmes de grandes catástrofes, concebidos pela loucura de um Spielberg, que nem ele mesmo acreditava que pudesse vir acontecer. Cenas de fim de mundo. Não se imaginava, pouco tempo atrás, uma capital como Tóquio se escondendo da radiação nuclear, com toda a sua população ameaçada de morte, promovendo um êxodo urbano sem precedentes.
E, se não conseguimos, na década de 40, saber a verdade dos fatos que se desenrolavam pela Segunda Guerra Mundial, hoje estamos no palco da história. Somos expectadores privilegiados instalados no epicentro dos mais importantes fatos que pipocam por todos os quadrantes do planeta e que nos dão a impressão de que nem serão história, tão rápida a sua evolução. As coisas acontecem sem tempo de assimilação histórica, sem tempo de maturação e aprendizado.
A Internet nos coloca nessa situação. Através dela ditadores são depostos, como o foram Bem Ali, da Tunísia e Mubarak, do Egito, que não resistiram ao tsunami cibernético das redes sociais que mexeram com os brios dos povos daqueles países, colocando-os nas ruas a pedir democracia. Através dela estamos assistindo a grande potência japonesa – um dos países mais ricos do planeta – de joelhos perante a humanidade, tão vulnerável quando os mais atrasados países sulafricanos a mendigarem uns míseros bolinhos de arroz que lhes sobraram para matar a fome. Através dela vemos que no Japão também existe zona pobre, o “Jequitinhonha” de lá. As feridas nipônicas estão expostas ao mundo inteiro, ainda que telefones, rádios e televisão estivessem funcionando de maneira precária, em grande parte do país nem mesmo funcionando.Graças à Internet. E foi graças a ela que brasileiros conseguiram contatos com parentes que tentam a sorte no país do sol nascente.
O que nós temos a ver com isso?
Temos que... Veja bem: lembra-se daquela campanha de desarmamento ocorrida alguns anos atrás, que movimentou milhões de brasileiros a entregarem suas armas domésticas, numa tentativa de mitigar a violência entre os cidadão comuns que não têm vocação para a bandidagem, mas que, diante da facilidade do manuseio de uma arma podem escorregar e dividir uma cela com profissionais do crime?
Pois bem. Hoje estamos muito mais armados. Dentro de nossa casa uma bomba poderosa, que tanto pode abrir espaços para o conhecimento quanto para a nossa involução cultural, a desagregação da família, o incentivo à preguiça escolar, já que, se o adolescente tem uma fantástica ferramenta de pesquisas, tem também os seus trabalhos escolares prontos a dois cliques do mouse.
É evidente que a evolução tecnológica implementada pela Internet tem que ser bem vinda, aplaudida. Mas deve ser vista também como um perigoso passaporte para o delito, que pode começar em casa, e cedo, já pelas crianças de seis ou sete anos que lidam com a blogosfera com muito mais desenvoltura do que os adultos. Os adolescentes, se quiserem, dão um verdadeiro baile nos seus pais, usando a Net para o que bem lhes convir.
Como a tecnologia, o comportamento também dá saltos enormes, às vezes inatingíveis para os mais velhos que pararam no tempo e não procuraram acompanhar mais de perto a evolução da juventude. E a Internet vem contribuindo de maneira determinante no comportamento social. Ela é invasiva, ousada, agressiva, amoral. E o nosso comportamento vai assimilando a sua amoralidade, não só pelo que de ruim ela nos proporciona, mas até pelo que de bom podemos conseguir com ela, porém, sabe-se lá a que custo.
Fica o nosso recado, lembrando ao querido e à querida ouvinte , que se a Internet desfraldou o véu do orgulho japonês ou colocou no chão ídolos como Bem Ali e Mubarak – e vai colocar também Kadafi – ela pode também desfigurar nossa família, se não tomarmos cuidado para que ela nos traga apenas o bem, a cultura, o conhecimento, sem nos deixar fora do tempo e da história com a velocidade com que ela nos devora.

CF 2011: A Igreja com os pés na terra

Henrique Faria

Para aqueles que concentram seu olhar crítico à Igreja Católica taxando-a como fora da realidade ao propor a salvação aos homens e a conquista do Reino dos Céus, como se isso fosse uma fantasia milenar, a Campanha da Fraternidade deste vem mostrar que a Igreja Católica pode ter os olhos no céu, mas tem os pés na terra. E bem fincados.

Quando algumas pessoas – que não são poucas – ouvem a Igreja falar em fraternidade, imaginam a utopia do inatingível, como se fraternidade fosse um sonho e não uma realidade que permeia toda a vida do homem.

Teologias à parte, o ser humano vive em comunidade. E a sua tendência natural, pelo menos naqueles que não têm desvios morais que os tornam seres descolados da sua espécie, bem... a sua tendência natural é viver como irmãos. O homem é naturalmente bom, solidário, fraterno. E os desvios que os fazem lobos de si mesmos não fazem parte da sua natureza.

Dentro deste contexto é que a Igreja, como uma instituição fundada por Jesus Cristo dois mil anos atrás – por ser divina é a única instituição humana com tanto tempo de vida e de história – se coloca a serviço da pessoa humana promovendo fraternidade, corrigindo os desvios de rota na caminhada do homem para a eternidade. Quem pode negar – tenha ou não tenha religião – que o homem é um caminhante da eternidade?

A Igreja Católica, no Brasil, aproveitando um período de quarenta dias em que sugere ao povo uma parada para pensar, coloca no ar, nos templos e nos lares uma campanha que, nada mais nada menos, é uma campanha para se promover o bem-estar entre as pessoas, consolidar a sua capacidade de serem irmãos, no mínimo pela espécie a que pertencem.

Ela não situa o homem num espaço virtual a que poderíamos chamar de céu, longe da realidade do que efetivamente vivemos. Ela fala com o homem como um elemento da natureza, ser vivente num espaço físico que tem tudo a ver com a sua vida, o seu dia a dia, a sua saúde, a sua segurança, a sua cultura, as suas tradições, buscando sustentabilidade no seu desenvolvimento.

A Igreja entende que o desenvolvimento da espécie humana deve procurar satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades, possibilitando que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra e preservando as espécies e os habitats naturais. Diga-se de passagem que este é o conceito de desenvolvimento sustentável abraçado pela cultura laica.

Pois bem. Para a Igreja, desenvolvimento sustentável é uma expressão de fraternidade. E neste ano, durante a Quaresma, tempo em que a Igreja convida as pessoas à conversão, ela dá várias pistas para reflexão, para promover a fraternidade e a vida no planeta. A Campanha da Fraternidade deste ano traz um tema cientificamente trabalhado – ou seja, vendo o homem como homem e não como anjo – propondo que todas as pessoas de boa vontade olhem para a natureza e percebam como as mãos humanas estão contribuindo para o fenômeno do aquecimento global – trata-se de um enfoque pontual – e as mudanças climáticas, com sérias ameaças para a vida em geral, e a vida humana em especial, sobretudo para os mais pobres e vulneráveis.

Impossível enquadrarmos em tão pouco espaço de tempo a riqueza da Campanha da Fraternidade deste ano. Mas vai aqui o nosso apelo a que você procure se inteirar da Campanha como um agente da sustentabilidade ambiental que pensa não somente em si mesmo, mas no seu irmão que está sofrendo as conseqüências do descaso humano com a natureza por meio de doenças, acidentes climáticos, fome.

A Campanha propõe ações concretas, algumas mais elaboradas, que devam ser implementadas pelo poder público, e algumas mais simples que cada um de nós pode implementar em gestos aparentemente prosaicos, como
- o descanso semanal, o conhecimento do próprio consumo ecológico – como e em que quantidade estamos contribuindo para o aquecimento global –
- a tomada de consciência da importância de nos livrarmos das famigeradas sacolas plásticas;
- o consumo local, a horta caseira ou comunitária, economizando dinheiro e combustível do transporte;
- a diminuição da temperatura de geladeiras, ar condicionados e estufas no inverno e aumentando no verão;
- o uso mais racional dos eletrodomésticos; o costume de desligar aparelhos – especialmente os dotados de stand by;
- o uso de painéis solares; preferir os carros a etanol ou gás;
- comer mais frutas e verduras, já que carnes de ovinos e bovinos são responsáveis por 18% das emissões mundiais de gás carbônico;
- uso de fraldas ecocompatíveis: a biodegradação das fraldas tradicionais leva 500 anos; economizando papel, já que com o consumo menor de papel,menor - o desmatamento; escovando os dentes com a torneira fechada;
- usando lâmpadas econômicas que consomem cinco vezes menos;
- banhos rápidos; enfim uma série de medidas domésticas que podem contribuir sensivelmente com a diminuição do aquecimento global, sem que precisemos cerrar fileiras entre os ecocontestadores que, vira e mexe, estão arrumando confusões por aí.

Existem também as ações concretas que a Igreja propõem para o poder público. Aí também entra você com a sua participação, sabendo escolher seus governantes comprometidos com a fraternidade vista sob o aspecto ambiental.

Participe da Campanha da Fraternidade, um momento rico para aprimorar seus conhecimentos e se conscientizar do dever de fazer acontecer uma vida melhor para o planeta e, em primeira instância para o seu irmão. E uma bela oportunidade para você entender definitivamente que a Igreja não fala somente de anjos e arcanjos.

terça-feira, 8 de março de 2011

Os culpados somos nós

Henrique Faria

Há poucas possibilidades de se reverterem certas situações a curto prazo. Nós lutamos contra uma cultura arraigada, de descaso para com o que possa acontecer a outras pessoas, a partir das nossas atitudes.
As últimas notícias sobre violência, ou sobre desastres de natureza climática, disseminação de doenças como a dengue, a AIDS e até a tuberculose que já estava praticamente banida, enfim, de fatos e situações que conturbam o sossego da nossa sociedade, têm sempre a sua raiz no comportamento das pessoas. Tudo porque temos uma tendência de nos fecharmos em nossos quadrados, pouco nos importando com o que possa estar acontecendo no quadrado do próximo. Aliás, os outros nem sempre são tão próximos assim.
Temos também uma tendência a atribuir ao poder público a responsabilidade pelo que de ruim acontece à sociedade, quando sabemos que, no fundo, não há governo que consiga lutar contra essa cultura autista e egocêntrica.
Procure andar pela cidade, com calma, com paciência, e principalmente com espírito observador, e você verá o homem lobo de si mesmo em plena atividade.A cada passo você verá uma atitude de desrespeito por parte de pedestres contra pedestres, ciclistas contra pedestres, motoqueiros contra pedestres e contra ciclistas, motoristas contra pedestres, contra ciclistas e contra motoqueiros, enfim, as pessoas se comendo num trânsito maluco que agrava a sua violência quando sob um calor de 40 graus.
Ou, então, procure “entrar” – aqui falamos entre aspas – na intimidade das famílias para ver onde nasce essa cultura, passada de pais para filhos, confortavelmente instalados sem seu sofás. Dificilmente você vai flagar um jovem lendo um livro bom, ou os adultos conversando com tranqüilidade assuntos que possam versar desde o comportamento familiar até as vicissitudes que deseducam nossos filhos. Na maioria dos lares estarão todos sentados com os olhos na TV e, se for depois das 10 da noite, milhões de famílias brasileiras estarão discutindo nos intervalos a performance dos atores que compõem a maior estupidez da televisão brasileira, esse tal de BBB.
Procure dar um passeio por avenidas – geralmente esburacadas – de nossos bairros e vai ver em suas margens, principalmente quando essas margens são terrenos baldios e abertos, e você verá sempre uma pessoa com seu carro despejando sacos de lixo nesses locais públicos, quando não nos córregos que riscam a cidade com a sua poluição causada não só pela falta de infraestrutura de saneamento básico, mas principalmente pela ação violenta dos próprios moradores que depois os culpam pelas enchentes.
Procure dar uma espiadinha por cima do muro de certas casas – mas tome cuidado! Você pode passar como suspeito de um possível assalto – para você ver quanto foco de doença você vai ver ali, além do criadouro do aedes aegypt, condições para a disseminação de outras doenças. Quantos imóveis desocupados, abandonados que se prestam a esse trabalho de contribuir para o desassossego da sociedade com a proliferação de doenças.
Você não vai conseguir, mas se for possível, procure entrar nas cozinhas de alguns dos nossos restaurantes – até dos mais bem conceituados... – , nos salões de algumas de nossas padarias, na intimidade de algumas de nossas lanchonetes, e você pode acabar anoréxico por não querer mais comer nada que venha dessas fontes, onde você encontra insetos dos mais asquerosos, sujeira, coliformes fecais, elementos que concorrem para a sua mesa, seu café da manhã, seu lanche, seu almoço ou jantar.
É o poder público que tem culpa por isso tudo? Talvez tenha parte, pela educação ineficiente, que por séculos não consegue formar uma cultura de gente civilizada. Mas os principais culpados somos nós. É verdade que o poder público não nos dá condições dignas de moradia, obrigando os menos favorecidos a pendurar suas casas em morros e favelas, aceitando o risco de uma hora para outra despencarem lá de cima como tem acontecido. Mas o homem desafia a natureza e a lei da física. O resultado é o que se vê. O mesmo se pode falar do desmatamento ciliar nas encostas dos rios para a ocupação desordenada de casas e barracos que poderão ser engolidos pela fúria das águas.
Com certeza também não é o poder público que tem culpa pelas poças que se espalham pelos nossos jardins e quintais, pelos terrenos baldios e pelas nossas lajes, que favorecem a criação do mosquitinho sem vergonha que está dominando a nossa sociedade.
E não é também do poder público a culpa pelas nossas crianças e adolescentes ficarem grudados na TV ou na internet vendo o que não presta para moldar o seu caráter à imagem e semelhança dos mais pérfido bandidos que nos assustam; ou pelas nossas jovens que não têm hora para chegar em casa e quando chegam, alteradas pela droga e pelo álcool, encontram os pais dormindo o sono dos anjos; ou pelos jovens que nem chegam.
Enquanto não criarmos uma cultura de responsabilidade social, o mal cresce e não temos condições de enfrentá-lo. Mas serão precisas atitudes radicais, tanto da parte do poder público com fiscalização e penalização sobre atitudes anti-sociais, quanto das famílias, que precisam se reinventar, criar um novo modelo de comportamento social de pais e filhos.

Picuinhas de província

Henrique Faria

Quando lemos alguns jornais ou acessamos alguns sites ou blogs com notícias e comentários políticos das cidades da nossa região – quase todas, talvez com exceção de São José dos Campos, que já se pode considerar uma cidade grande – nos deparamos com o provincianismo da classe política e, na esteira do comportamento dos homens que se dizem políticos, da mídia local também, mais explicitamente dos pequenos jornais – ou melhor, dos jornais menores, porque todos são pequenos – que se debatem em picuinhas para contentar meia dúzia de leitores.
Uma boa parte das pessoas que se servem da nossa mídia para comentar política local, seja jornal, rádio, televisão ou internet, se não são velhos jornalistas ressentidos, são jovens inoculados pelo vírus da mediocridade, tanto pelo despreparo, quanto pela falta de bagagem, ou até mesmo pelos vícios adquiridos daqueles que entra ano sai ano, entra eleição sai eleição, são sempre os mesmos recalcados, que perderam uma fase – entre aspas – “boa” em que tiravam algum proveito das suas opções políticas e das posições que assumiam de público.
Durante o período de poder de alguns caciques políticos, que tinham nas mãos os instrumentos de manipulação dos formadores de opinião postados na imprensa, alguns jornalistas fizeram a festa. Não com dinheiro, evidentemente, porque a grande maioria dos nossos políticos sempre foram pobres, com raríssimas exceções, mas com algum prestígio, emprego, cargos públicos e, principalmente, tapinhas nas costas. Havia ainda as famosas “bocas livres” que eram a alegria dos cupinchas, e que ensejaram a célebre frase de Robson Monteiro, de que “a imprensa daqui é movida a rango”. Coisas de província.
Essa cultura, no entanto, foi interrompida, mas não extirpada, de um modo pontual com a ascensão de um político fora dos padrões provincianos da época, e também pelo declínio da força política do mais poderoso cacique da região. Não entramos aqui no mérito das duas lideranças, duas excelentes pessoas, cada qual com seu estilo.
Entretanto, se a liderança que declinou do seu status de dono do pedaço político local não formou outras novas lideranças de expressão à sua imagem e semelhança, a liderança que ascendeu – estamos falando especificamente de Taubaté – também não o fez; pelo contrário, cultivou o descarte dos jovens políticos promissores que inclusive o ajudaram a ascender à mais alta plataforma da preferência política do povo da cidade.
Essas duas lideranças – as duas agora em estratégico recolhimento – ainda provocam acirradas opiniões entre os comentaristas políticos, execrando o primeiro quem defende o segundo e exorcizando o segundo quem se alinha com o primeiro. Ambas provocam histéricos ressentimentos entre os jornalistas – especialmente os mais velhos.
Se observarmos a história política das cidades da região, vamos ver os mesmos vícios em cada uma delas, e a mesma sonolência no desenvolvimento, algumas mais outras menos, mas quase todas andando a passos de tartaruga, amargando sempre uma escolha mal feita, tão logo cheguem os seis primeiros meses de gestão. Em todas elas um vício é comum. E é possível que a abstinência desse vício seja o nó de górdio para livrá-las do encanto a que foram submetidas, amargando, se não o atraso, a enorme dificuldade que têm em se desenvolver.
Neste sentido achamos que a mídia exerce um papel fundamental. Se os formadores de opinião não se envolvessem em política partidária ou mesmo em relacionamentos estreitos e interesseiros com as nossas melhores lideranças políticas, e se postassem como observadores isentos e honestos – aplaudindo o que se deve aplaudir mesmo que seja de um político desafeto, ou criticando o que se deve criticar mesmo que seja de um político amigo – pelo menos não alimentariam a fogueira das picuinhas e poderiam deixar os homens que fazem políticas mais à vontade para fazer política de verdade.
E política de verdade não se faz com ressentimentos, com vingança, com represálias. A verdadeira política se faz com diálogo, com composição, ainda que as partes envolvidas necessariamente não se morram de amores. Na província não acontece isso. Em política não se diz “pão pão, queijo queijo”. Em política se faz um sanduíche com ingredientes que aparentemente não combinam entre si. E se faz um sanduíche de pão e queijo, melhor. Também não se faz política colocando a vaidade pessoal acima do interesse comum, ou mesmo partidário. É outro vício que faz provinciana a política de uma cidade grande, que a torna medíocre e que impede o seu desenvolvimento.
Nós temos excelentes quadros políticos. Excelentes lideranças que, infelizmente estão adoecidas pelo mal do ressentimento e pelo mal da vaidade. Ninguém cede. E aí acontece o que acontece na maioria das cidades, onde duas ou três boas lideranças racham entre si a metade do filão e acabam deixando a outra metade inteira para um medíocre.
Os tempos são outros. Já não cabem mais essas picuinhas na mídia que ninguém leva a sério, mas que acabam alimentando o ressentimento ou a vaidade de quem poderia estar dando a mão àquele que lhe fizeram desafeto, já que o bom político não gosta de se desentender com ninguém.

É carnaval: licença para anarquizar

Henrique Faria

Não quero ser desmancha-prazeres, nem o chato que vê defeito em tudo, muito menos moralista. Mas aqui entre nós – muito aqui entre nós, não espalha não! – essa euforia toda que o brasileiro tem por carnaval me cheira primitivismo, ou na melhor das hipóteses, subdesenvolvimento. Não pela festa em si, que é maravilhosa, democrática. Nem mesmo pela nudez que – me perdoem os hipócritas que gostam, mas escondem – não deixa de ser uma expressão do belo, afinal, criado por Deus em sua versão do homem original. Deus criou o homem e a mulher nus e viu que era bom: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). Então, que fique bem claro que as minhas considerações não têm nada de moralista.
O que me incomoda é esse frisson que muita gente tem, que come, bebe e dorme carnaval. Aliás, o mesmo se aplica ao fanatismo pelo futebol, que revela cada tremendo cavalão chorando desbragadamente pela derrota do seu time – os mesmos homens que têm vergonha de empunhar uma flor, levá-la para casa e dá-la à sua mulher. No carnaval também acontece isso. Naquele monótono falsobordon de se repetir a mesma cantilena por minutos intermináveis – Bateria... dez!, Harmonia...9! Evolução...9 e 75! e assim por diante... – quanto lutador de Jiu-Jitsu a gente vê se derretendo em lágrimas pelos 0,25 pontos de diferença entre a sua escola e a que levou o primeiro lugar, chorando feito uma criança, fazendo beicinho e enxugando as lágrimas com aquelas mãos enormes que se me acertarem... só o pó! O corpo de jurados trata aquilo com tanta seriedade que parece que não há coisa mais séria para ser julgada no Brasil.
Tudo bem se essa festa toda fosse apenas no tríduo que precede a quaresma. Mas a folia mesmo, a zoeira, o barulho se arrastam por três meses antes e uns dez dias depois que a tia Teresinha já recebeu as suas cinzas e está se recolhendo para uma quarentena de reflexão. Não que eu queira fazer essa ligação entre a farra e a religião. Longe de mim me arvorar em paladino do recolhimento quaresmal, ainda que tenha a minha opinião externada no artigo acima. Mas... Só por Deus e em nome do bom senso que aconselha a não enfrentar essa gente que promove o carnaval, que a gente tem que engolir que uma “escola de samba” (quá! quá! quá!) faça seus ensaios em uma quadra colada com o muro de quintal de uma residência onde mora uma velhinha doente, ou um senhor perturbado a quem o barulho constitui uma tortura medieval, ou o cidadão comum – que até gosta de carnaval – mas que levanta cedo e precisa dormir tranqüilo para agüentar o baque na caldeira da fábrica, o mau humor do chefe no escritório, ou a grossura do patrão narigudo no balcão da loja de tecidos. Tudo isso, às vezes, por uma apresentação patética na avenida, que inspira mais dó do que entusiasmo.
Tudo o que eu quero dizer é que o carnaval é a festa do desrespeito – para alguns que não são poucos – e que em nome de uma alegria artificial e passageira, há muita gente que se animaliza e perde a compostura.

Quarenta dias não são nada...

Henrique Faria

Não vou falar sobre a teologia quaresmal porque não é minha praia. Há gente muito mais habilitada que o pode fazer em meu lugar. O espaço está aberto. Mas não há como não referir ao tempo que antecede a Páscoa – o tempo civil mesmo, os quarenta dias antes de que você queira comprar aquele ovo de páscoa enorme para dar à namorada, ou ver chegar em casa as crianças com bigodes riscados e orelhas enormes de cartolina, depois de uma dia de aula, ou dar de cabeçada nos corredores dos supermercados abarrotados dos preciosos ovos pendurados. (Demorei tanto para escrever o aposto, que perdi o fôlego da frase que comecei...) – Bem... Como ia dizendo, não há como não referir ao tempo que antecede a Páscoa como o tempo do deserto.
Nós vivemos dias de intensa agitação, preocupações, contas para pagar, o salário que termina quando o mês apenas começou, estresse, irritação, trânsito caótico, falta de respeito nas mais prosaicas manifestações de sociabilidade, sem contar problemas com filho adolescente, com o pai prepotente, a mulher falante, o marido faltante, a casa que está para cair. É preciso dar uma parada! Rever a vida. Fazer ressuscitar aquela emoção de ter visto o filho nascer, o pai levá-lo de cavalinho, a mulher contando seu dia da faculdade no começo de namoro, a presença do marido no começo de casados, os sonhos de construir um lar enquanto se desenhavam os projetos de uma casa nova...
O deserto é um convite à purificação. À reflexão. À mudança. O deserto que você encontra no seu próprio coração, ou na razão que lhe aconselha dar essa parada, pode ser palmilhado por esses quarenta dias, onde você vai valorizar o oásis, aquela água fresca a lhe descer pela garganta. Jesus chama essa “água fresca” de “água viva”, mas eu não sei se você quer ouvir falar de Jesus agora. Você está com tanta pressa, que nem sei se você já pegou o rumo do deserto. Mas pegue! Vamos em frente!
Você precisa criar seu deserto e lhe dar um ambiente de despojamento, próprio para que você recrie seus valores, repagine sua vida, ressuscite dessa tumba em que se transformou seu coração e renasça um homem novo, uma mulher repaginada, uma outra pessoa que você esqueceu no salão ou na avenida quando foi deixando cair a fantasia, ou mesmo nesses rebanhões que o excitaram na procura do deserto.
Não que não lhe venham aturdir as tentações de poder, prepotência e de prazer durante a quarentena. Até Jesus passou por isso... (Ops! Falei em Jesus de novo e não sei se você está querendo ouvir.) Mas você há de reconhecer, comigo, de que ele só fala de coisa boa. E é de coisa boa que você está precisando ouvir. Quem sabe, não?, não seja a voz dele que você está precisando ouvir. No deserto é mais fácil... E quando você achar que ouviu a voz do coração, pode crer, é ele que está falando em você.
Experimente! Afinal, quarenta dias pra ressuscitar não é nada para quem levou duzentos e setenta pra nascer...