sábado, 22 de janeiro de 2011

CONFESSO A DEUS TODO PODEROSO... (RISCOS DE UMA IGREJA BUROCRÁTICA)

Henrique Faria

Quem esteve presente à cerimônia de ordenação do padre Ricardo Cassiano em julho do ano passado, na igreja de São João Bosco em Taubaté, testemunhou, provavelmente, uma das mais eloquentes homilias de dom Antônio Affonso, quando ele se dirigiu ao clero sem meias palavras para criticar pesadamente a omissão de alguns padres – que não são poucos – no atendimento paroquial aos seus fiéis, de um modo muito especial aos que os procuram para se confessar. Além da eloquência retórica, a força da advertência que soou como uma repreensão histórica àqueles que não atinam para o dever missionário da cura de almas, minimizando a importância do dever que o padre tem de ser pai e pastor. Pai, “padre” como a própria definição do seu ministério que lhes atribui a paternidade dos seus e de todos os fiéis que estão sob o seu sacerdócio; e pastor como a mais emblemática imagem daquele a que eles se comprometeram suceder: Jesus, o Bom Pastor que dá a vida a suas ovelhas e que se põe a não só salvar, mas procurar a ovelha perdida.
Dom Antônio tem estatura e autoridade morais para passar essa carraspana homérica que, infelizmente, poucos dos que precisavam ouvir ouviram. Por isso, é na esteira da sua catedrática autoridade que nos sentimos à vontade, não para criticar pura e simplesmente, mas para dar publicidade a tão sábias palavras que se constituíram em mais do que em um conselho, em uma severa e dolorosa crítica do nosso bispo emérito a significativa parte do nosso clero.
É evidente que a burocratização da administração dos sacramentos não é uma peculiaridade nossa. Toda a Igreja militante, pelo menos no Brasil, passa por um processo de “aggiornamento” pastoral que se esbarra na tentação de uma Igreja burocrática em que planos e projetos se sobrepõem à caridade paroquial em nome de uma eficiência pastoral que, em última instância, compromete aquilo que é o seu objetivo imediato: a evangelização. Louvados sejam os esforços pastorais que procuram maximizar a eclesialidade. Mas não se pode, diante da moderna metodologia que atende ao apelo dos “novos métodos”, descurar a importância do “renovado ardor missionário”. Há que se encontrar a equação entre esses dois apelos.
Há, ainda, a justa preocupação da implementação de uma mentalidade diocesana que, não sendo bem assimilada pelos agentes de pastoral – padres e leigos – minimiza o espírito paroquial que faz que a comunidade aconteça de verdade em um território restrito, onde as pessoas estão mais próximas, têm mais familiaridade, são mais sensíveis umas com as outras, convivem com os mesmos problemas, choram os mesmos dramas e sorriem as mesmas alegrias.
Uma Igreja burocrática põe em risco a comunhão paroquial. Entendemos que a fixação de horários de atendimentos, a organização administrativa que supõe regras que atendam à legislação trabalhista e à lisura contábil sejam necessárias em tempos de exacerbação da defesa dos direitos. Mas entendemos também, que se a secretária ou o secretário paroquial ou a diarista que faz a faxina na casa paroquial são trabalhadores sujeitos à legislação trabalhista que lhes faculta trabalhar dentro dos limites do direito, o padre não o é. Ele não é um funcionário burocrático de uma empresa chamada Mitra Diocesana. Nem muito menos de um conglomerado multinacional chamado Igreja Católica. Ainda que mereça suas férias, seu descanso semanal, o direito à sua sesta e que não seja um apóstolo de ferro, não pode passar por esquecida a sua missão de pai e pastor que ele jurou desenvolver sem medidas.
A queixa de um de nossos ouvintes que procurou na semana passada por um padre para se confessar, telefonando em seis paróquias diferentes e não o encontrando – em horário de expediente, diga-se de passagem – e tendo que desistir para pegar seu carro e ir até Aparecida para poder se reconciliar com Deus não é um caso isolado. Há relatos de pessoas que presenciaram o padre negar uma confissão numa manhã de terça feira porque o horário seria das 15 às 17 da quarta... Outro, de uma pessoa que foi recebida pelo padre para confessar (no horário estabelecido, claro!) na secretaria onde ele contava dinheiro. O penitente relatou seus pecados enquanto o padre continuava contando dinheiro (Como cristão verdadeiro, não me contou o nome do padre. Melhor assim...) Oras... Sem comentários... E quando se precisa de um padre para encomendar um defunto? (Expressão mais incômoda...) A família não está buscando uns pingos de água benta para molhar o corpo do falecido... Ela está buscando o colo do pai, o ombro do pastor. E como é difícil encontrar um padre nessas ocasiões. E, aqui entre nós, quem priva mais de perto da intimidade de um padre, sabe quantas vezes o vê desdenhando a dor da família, especialmente daquela família que não freqüenta a Igreja, mas que é também ovelha do seu rebanho, a ovelha perdida que nesse momento dá um berro para que ele possa encontrá-la. E ele perde essa oportunidade...
Pais e filhos, ovelhas e pastor têm uma relação não só de amor, mas de carência. Um precisa do outro para exercer a sua missão. O pai burocrático tem pouco sucesso da educação dos seus filhos. E o pastor... O pastor? O pastor não tem nem como exercer a burocracia com o seu rebanho. As ovelhas não entendem. Elas só sabem andar sob a cadência do seu cajado

NADA COMO RENOVAR NOSSA ESPERANÇA...

Henrique Faria

Eu que passei boa parte do ano passado em campanha pessoal contra a eleição da candidata indicada pelo presidente Lula, me rendo à realidade histórica que confirma a nossa vocação democrática e que colocou no Palácio do Planalto a primeira mulher para dirigir os destinos do Brasil.
O discurso inaugural da nova presidente acena para um estilo diferente de governar. De pouca prosa, diferente do presidente falastrão, Dilma Rousseff mostrou-se mais sincera do que foi seu antecessor. E eu acho que a gente pode acreditar no seu discurso, por dois motivos fundamentais: por ser uma mulher a oradora – aqui entre nós, mulher é mais transparente: quando presta e quando não presta a gente sabe – e por não ser política carreirista a nova presidente. Minha esperança é de que ela se preocupe mais com as questões aflitivas e de urgente implementação do que com os refletores da mídia, tão bem manipulados pelo presidente que lhe deixou o trono do Planalto.
Aliás, falando em “trono”, esta é uma outra preocupação: que ela não se contamine pelo monarquismo de Luiz Inácio I e seja mais democrática. Ou ainda que, diferente de Luiz Inácio, não governe como quem joga futebol. O monarca anterior era o dono da bola e do jogo de camisas e quem não jogasse no seu esquema não tinha direito ao “chopps” depois do jogo. Que ela não goste de “chopps” nem “daquela que matou o guarda” porque na sobriedade as idéias ficam mais claras. E a sobriedade foi o ponto alto do seu discurso.
Dilma mostrou-se elegante, cumprindo com singeleza a formalidade litúrgica do ato de sua posse. De uma elegância que não se traduziu no bonito tailleur que vestia, mas na postura educada, de urbanidade e civilidade, elementos que agregam ao seu perfil alguns pontos a mais. Muito mais do que uma salvadora da pátria saída da ralé inconformada, a nova presidente apresenta-se como uma servidora. O que, na verdade, ela é: uma servidora pública que exerce o cargo mais importante do Estado brasileiro.
E, sendo uma servidora pública, promete governar para todos os brasileiros, sem discriminação, sem compadrio, sem privilégios. Eu acredito nela, mesmo que – quem acompanha estas minhas ponderações sabe muito bem – não tenha dado meu voto a ela e que, por enquanto ainda não tenha me arrependido disso. É verdade, nós já ouvimos esse discurso da boca do Sarney, do Collor, e ultimamente do Luiz Inácio. Mas parece que da boca da dona Dilma ele saiu com mais sinceridade. E ela nem precisou chorar, como chorou o Luiz Inácio. Um embargozinho aqui e outro ali, mas não chorou... E ela, que ainda adolescente sofreu na alma e no corpo a crueldade da tortura da ditadura militar, poderia estar, como Luiz Inácio, tripudiando seus algozes esfregando-lhes na cara o seu diploma de presidente da república. Muito pelo contrário, afirma em sua fala inaugural não carregar nenhum ressentimento ou espécie de rancor. E estende a mão àqueles que pensam diferente, não lhes pedindo que abdiquem de suas convicções, dizendo que “é o embate civilizado entre idéias que move as grandes democracias”.
Como ela ainda não acredita que nunca antes neste país todos os 190 milhões de brasileiros já conseguem tomar todos os dias o café da manhã, almoçar e jantar, e que a minha casa é a minha vida, afirmou que “não vou descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos na mesa, enquanto houver famílias no desalento das ruas, enquanto houver crianças pobres abandonadas à própria sorte, acreditando que “o congraçamento das famílias se dá no alimento, na paz e na alegria”, prometendo perseguir este sonho. É... porque ainda é um sonho, não obstante a falácia com que Luiz Inácio pinta os oito anos em que esteve no poder.
Desta vez ela se lembrou de Deus: “que Deus abençoe o Brasil e o povo brasileiro”, foram palavras que antecederam a frase final do seu discurso.
Este é o meu sentimento neste início de ano. Nada como renovar nossas esperanças, ainda que não acreditemos em papai noel, em lobisomem, em fada madrinha ou que foi a cegonha que nos trouxe Luiz Inácio.
(Algumas das minhas considerações foram inspiradas pela leitura da matéria de capa da revista Veja nº 2198, ano 44, nº 1, de 5 de janeiro de 2011)

ADEUS HOMEM VELHO! FELIZ HOMEM NOVO!

Henrique Faria
Estamos vivendo os últimos momentos de euforia e de esperança que traduzimos em votos de um feliz ano novo pela mudança do nosso calendário, no adeus a um ano velho, mais relegado ao esquecimento, injustamente, pelo que nos trouxe de frustrações e desencantos do que somado à nossa história como um tempo que também foi de esperança e realizações.
Um ano que se inicia não rompe a história do ano velho. Pelo contrário, soma a ele as expectativas de um tempo melhor que vamos construindo dia a dia, começando pela renovação da nossa disposição de fazer os nossos dias melhores. O ano do calendário civil não cinde a nossa história. Vivemos, mais do que um dia após o outro, o dia de hoje, que traz as experiências acumuladas dos dias já vividos. Não ficamos mais velhos porque os calendários foram sendo substituídos a cada 365 dias. Aliás, não ficamos mais velhos. Apenas somamos à nossa história a história dos outros, que nos transmitiram também as suas experiências. Não fazemos a nossa história sozinhos. Tudo o que realizamos tem a participação do outro, do ambiente, do tempo. Essa conjugação é que nos oferece a possibilidade de escolha que vai determinar o nosso rumo, a nossa prosperidade tão decantada nos augúrios de um feliz ano novo; a nossa saúde que depende de fatores ligados ao outro, ao ambiente, ao tempo; a nossa paz que não tem como ser só nossa; a nossa felicidade ou não. A nossa história é a soma de nossas escolhas. Das nossas escolhas, a decorrência de nossas conquistas ou o desencanto de nossas derrotas. Por isso, não envelhecemos porque somamos dias, mas porque acumulamos escolhas.
Aqui vale lembrar que o conceito de envelhecimento, atrelado à idéia de degeneração, não faz parte dos nossos votos de feliz ano novo. Ninguém diz “feliz envelhecimento por mais este ano que passou!”. Muito pelo contrário. Os nossos votos são sempre de saúde, de paz, de harmonia, de amor. Dons que se adquirem e se aprimoram com a experiência das escolhas. Envelhecer é tornar-se uma pessoa melhor. A nossa alma não tem idade. E é ela que vive. Nós somos o nosso espírito. E o espírito não é criança, nem jovem, nem idoso.
Em função das escolhas é que vemos pessoas já chegadas aos 80 ou 90 anos – até mais... – felizes com a vida, minimizando as suas restrições físicas, transpirando bem-estar, beleza que as rugas de um corpo às vezes alquebrado não conseguem empanar. Elas são jovens há mais tempo e sua juventude teima em terminar seus dias com elas.
E é em função das escolhas também que vemos pessoas mal chegadas aos 18 ou 20 anos – até menos... – desencantadas da vida, de uma feiúra que a beleza de um corpo bonito e atraente não consegue disfarçar. Estes são os velhos precoces e a degenerescência insiste em matá-los aos poucos, independente dos dias que acumulam em suas histórias.
A passagem de um ano civil para outro constitui apenas um dia especial para a nossa reflexão sobre as nossas escolhas. Entre o dia 31 de dezembro e o dia 1º de janeiro não existe um movimento mágico de transformação que nos faça mais prósperos nem mais amantes. Todos os dias são momentos de esperança. Acordar de manhã, com o sol rompendo nossas janelas, ou uma chuvinha cantando a nossa alvorada, é uma questão de saber entender que com nuvens bonitas de algodão em céu azul de brigadeiro, o sol brilha do mesmo jeito como quando está sobre nuvens carregadas e escuras ou sobre um temporal que desaba sobre a terra. Todos os dias o sol está lá, independente do humor metereológico. E o sol é o sacramento da esperança.
E então? Vamos às nossas escolhas? Para quem soma à sua história algumas escolhas que determinaram a sua desesperança lembramos que o sol, mesmo quando não ilumina, está brilhando. E ele brilha para todos, exatamente como o concebeu o Criador. Brilhando para você que acumula algumas sombras carregadas, frutos nem sempre das suas própria escolhas, mas das escolhas que fizeram por você. Acorde para um dia novo que está nascendo e sinta que Deus o carrega no colo se as suas forças se exaurem e a sua esperança se esvai. Mas não fique aí exaurido e desesperançado. Levante! E olhe que céu azul e que sol bonito vem renovar a sua vida!
E você, para quem as escolhas têm um saldo positivo que lhe permitem a prosperidade, a saúde, a harmonia, a felicidade e o amor, busque ser luz não para brilhar, mas para iluminar. E faça das suas escolhas as escolhas do outro também, lembrando que ninguém faz a sua história sozinho e que há muita gente que precisa da sua luz num dia de nuvens escuras e temporal.
Felizes escolhas pra você! Adeus homem velho! Feliz homem novo!