sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Há causas mais urgentes por que gritar

O conflto entre estudantes e polícia, ocorrido durante esta semana no campus da USP atinge também jovens e polícia da nossa região.
Nada contra a impetuosidade própria da idade. Há que se entender o jovem como um contestador sazonal, na primavera da vida, disposto a consertar o mundo. E é isso que deveria mover a sua juventude.
Em princípio, mesmo que não tenha razão em todas as suas contestações, carece-lhes um ente disciplinador, com poder (os órgão públicos de educação e segurança) e status moral e social (os pais) para lhes conterem o ímpeto quando extrapolam seus limites.
Dar razão à revolta de alguns estudantes pela ação da polícia que deteve três jovens portando maconha, é, no mínimo, temerário. Primeiro porque a polícia está lá exatamente a pedido de administração, professores e alunos, para dar segurança a quem freqüenta o campus, em decorrência do assalto com morte de um jovem daquela Universidade, no seu estacionamento. Na ocasião, a grita geral era pela falta de segurança. Resolvido o problema, agora, é pelo excesso de segurança e zelo por parte da polícia militar do estado de São Paulo.
De uma certa forma, os jovens das classes A e B – eles são maioria na USP – têm pouco a contestar, pelo menos no que atinge a si próprios, pois, convenhamos, quem consegue usufruir do ensino gratuito da maior universidade da América Latina tem uma situação privilegiada se comparados à miséria e exclusão de que são vítimas a grande maioria de jovens brasileiros da sua idade. Estes sim, com motivos de sobra para atacarem não a polícia militar, mas a estrutura política dos três poderes – dos três... – que os alija da universidade pública.
Ou seja, a maioria desses alunos que tomaram o prédio da reitoria da USP são rebeldes sem causa que, ao primeiro “qüi-pro-quó” estabelecido no campus, levantam bandeiras, agressivos, brigando por brigar, num revide desproporcional à causa, como aconteceu na USP esta semana. As mesmas bandeiras que levantaram na ocasião do crime que tirou a vida do colega, levantam agora, com outra tarja, contra a mesma instituição que defenderam alguns meses atrás.
No meio desses alunos beligerantes existem bons meninos, boas meninas, que se envolveram no calor da briga, principalmente no momento que a polícia teve que agir. Mas foram manipulados. Fora dessa curriola, conforme uma consulta informal feita por alguns jornalistas de vários meio de comunicação, existe uma maioria muito mais significativa que defende a permanência da polícia militar para coibir os abusos ensejados por uma minoria que não gosta de estudar e que tem a USP como símbolo de status – inteligentes, é verdade, mas pouco afeitos aos estudos – tirando lugar de jovens que precisam muito mais do arrimo publico.
Não é segredo para ninguém que rola todo tipo de droga no campus universitário, levadas pelo tráfico “quase inocente” (aqui usamos aspas) de jovens aparentemente inofensivos, bonitinhos, bem cuidadinhos, bem alimentadinhos, diferentes dos malucos que fazem o avião da favela.
E é preciso coibir esta prática. Se para a comunidade acadêmica o uso de droga está banalizado – já que uma boa parte dos jovens se drogam com extrema naturalidade, principalmente nos barzinhos e nas baladas – para a sociedade ainda não está. O uso e o porte de drogas são atitudes condenadas, por causarem estragos às vezes irremediáveis para as famílias e para as pessoas. Não se pode descuidar desse perigo.
Por isso, se a educação de pais e mestres não funciona, é preciso que a polícia interfira na comunidade jovem, coibindo essas ações, que são questões não só de saúde, de moral, mas de segurança pública.
Aos jovens é preciso que se conscientizem de causas mais nobres para empunharem as suas bandeiras. E que não façam como muitos dos seus pais, que berraram tanto na juventude e hoje, acomodados em seus empregos ou em suas empresas, não têm mais sensibilidade para gritar, por exemplo, por muitos dos amigos dos seus filhos que não têm a menor chance de estudar em uma universidade pública.
Como muitos dos seus pais, que os jovens não percam a capacidade de se indignar, e nem cantem daqui a alguns anos, os versos de Belchior para quem os pais foram quem deram a idéia de uma nova consciência e juventude, mas que agora estão em casa contando o vil metal.
Há muita coisa por que gritar. Mas, com certeza, não deva ser na defesa da banalização do uso e do porte de drogas.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

QUE POSSAMOS TER PELO MENOS O NECESSÁRIO

Henrique Faria

A doença do ex-presidente Lula enseja alguma reflexão. Evidentemente que nós cristãos somos solidários com ele nesse momento crítico e desejamos, como desejamos aos milhões de contribuintes do INSS e aos outros tantos que nem INSS têm e que precisam se valer do SUS para cuidar da sua saúde, que ele tenha sucesso no seu tratamento e que sua doença não passe dos efeitos da pirotecnia que a mídia vem lhe imprimindo.
Mas ao nos referirmos aos SUS não tem como esquivar-nos da pergunta: ora, se a saúde vai tão bem no país e o SUS tem atendimento de primeiro mundo como ele próprio alardeia e alardeiam os caríssimos anúncios oficiais veiculados na televisão, por que Luiz Inácio não se sujeitou a se tratar na rede pública de saúde, procurando um dos mais caros e, diga-se de passagem, mais eficientes hospitais do Brasil? Você responderia: porque ele pode pagar.
Concordamos plenamente que quem pode pagar deve mesmo procurar os melhores recursos e seria uma estupidez uma pessoa dessas sujeitar-se a se deitar numa maca estacionada num dos corredores sujos e infectos dos nossos hospitais públicos – com algumas exceções – aguardando por dois ou três dias o momento do médico mandar que abra a boca para enfiar-lhe a palhetinha na garganta.
Não iríamos exigir isso do ex-presidente. Mas fica evidente que o SUS não tem condições mesmo de garantir um tratamento eficaz. Vale reproduzirmos aqui alguns números divulgados pelo Tribunal de Contas da União, segundo uma reportagem da Folha de S. Paulo, que o jornalista Gilberto Dimenstein publicou em seu blog: no ano passado, 60 mil pacientes portadores de câncer não conseguiram se submeter a tratamento radioterápico; como se esse número não fosse o suficiente para sensibilizar o nosso governo, 80 mil não puderam se submeter a uma cirurgia de extração de tumor. E o pior: detectada a doença, o tempo máximo sugerido para espera do tratamento é de 30 dias. Mas, no Brasil, segundo o TCU, dos que conseguem atendimento em radioterapia – repetimos que 60 mil não conseguem – , apenas 35% o conseguem no prazo de risco, sendo a média de espera de 77 dias, na melhor das hipóteses. Na quimioterapia a situação é pior: a média de espera é de 112 dias e somente 16% dos pobres privilegiados conseguem atendimento no primeiro mês.
Isso só para falar muito superficialmente do câncer. Outras doenças têm da mesma forma o mesmo tratamento. Algumas piores. Nossos hospitais públicos são verdadeiros circos de horrores.
E pensar que nós temos dinheiro para isso! Com uma das maiores cargas tributárias do mundo, o Brasil deixa escoar pelo ralo da corrupção o dinheiro que arrecada, que daria para Luiz Inácio ser atendido, com todas as honras de um ex-presidente, em um hospital do SUS. A riqueza que seria para ser repartida entre os muitos milhões de brasileiros é saqueada por uns poucos, que chegam talvez a sete ou oito centenas de ladrões que têm em Brasília a sua caverna maior, e a senha tupiniquim, equivalente à da versão das mil e uma noites, codificada por Ali Babá, com as doze letras do “Abra-te Sézamo!”.
Nada de execrar o pobre ex-presidente – que se iguala aos pobres mortais num momento como esse – por ele poder ser tão bem atendido. Nós não queríamos dividir com ele a nossa pobreza, mas gostaríamos que ele dividisse conosco a sua riqueza. Afinal, ser solidário na pobreza é pedir esmola para dois. Nós temos que dividir é a riqueza, mas enquanto ficarmos trocando votos por dentadura ou por uma merreca de uns míseros poucos reais do Bolsa Família, vamos continuar sendo pobres. Isso vale para você também que não tem dentadura e tem seus dentes bonitos, ou que nem vive dos favores do governo.
Deus salve o rei! Deus salve a rainha! Deus salve esse povo e lhe permita viver com saúde! E se os amigos do rei têm o direito a tudo, que seus súditos tenham acesso pelo menos ao necessário!

domingo, 30 de outubro de 2011

CASO KALUME: UM PROCESSO VICIADO, UM JURI MAL CONDUZIDO, UMA INJUSTA CONDENAÇÃO

Henrique Faria

O linchamento moral por parte do Judiciário a que foram submetidos os três médicos – já que a pena está sendo cumprida em liberdade até a sentença do recurso – não encontrou eco nas pessoas que conhecem, de perto, os acusados – os doutores Rui Sacramento, Pedro Henrique Torrecillas e Mariano Fiore Jr. Os três saem como vítimas de uma sentença mal exarada, muito pior do que se fosse uma decisão de um juiz só, porque vem da maioria de um júri de sete pessoas. Dos três médicos, dois deles – doutores Rui e Pedro – eram acusados da morte de quatro pessoas. O terceiro – doutor Mariano – pela morte de três. O julgamento foi tão absurdo, mas tão absurdo, que o doutor Mariano foi condenado pela morte de uma vítima da qual não vinha sendo acusado, pois teve a sua pena exatamente igual à dos outros dois colegas, condenado que foi, também, por quatro homicídios. Ficou evidente que o juiz errou ao perguntar aos jurados e que estes não sabiam exatamente o que estavam respondendo. Somente por esse “pequeno” detalhe se pode avaliar a capacidade de julgamento dos jurados, muito provavelmente mal questionados, mal informados, mal formados, suscetíveis à opinião leviana da mídia. Sim, opinião. Porque se a mídia não sentenciou, ela induziu à sentença com seus noticiários tendenciosos, onde dava o dobro de espaço à acusação em detrimento do igual espaço que deveria ter ocupado a defesa. Para a mídia não interessa a justiça. Interessa o crime. A justiça ou a injustiça são acessórios do fato, são subjetivos e, como cantam os “arautos da verdade”, o que interessa é a objetividade dos fatos.
No caso, o fato é esse: uma pessoa fez uma acusação grave de extração de órgãos de pessoas vivas. Isto é objetivo. Se ele está ou não falando a verdade, é problema do Judiciário. Isto é subjetivo. A verdade objetiva desse fato somente virá com a sentença. E a sentença veio: condenados. Isto é objetivo. Se o corpo de jurados teve ou não competência para julgar é muito subjetivo. Somente se tornará objetivo se um louco dentre os sete vier a público denunciar: houve manipulação, os jurados estavam despreparados, o clima no júri era de intenso estresse, coisas deste tipo.
Mas para a Justiça não funciona a assim. O que é objetivo é a apresentação de provas e o relato de testemunhas. E estas não foram convincentes. Isto é técnico. As provas e a testemunha de acusação – especialmente a enfermeira que se perdeu no seu depoimento quando acareada com a médica que ela arrolou como quem esteve presente à cirurgia fatal – não foram convincentes.
Digamos também que as alegações da defesa também tenham sido inconsistentes. Há uma dúvida aí: afinal, quem está falando a verdade? A maioria do júri resolveu jogar. E jogou. Com isso condenou três pessoas sem provas consistentes, quando, no mínimo, deveria ter se valido do princípio do in dúbio pro reo, que leva em consideração que a dúvida deva favorecer o acusado.

sábado, 29 de outubro de 2011

RODSON LIMA E A HIPOCRISIA NA TERRA DE JECA TATU

Henrique Faria

A crueldade com que a população investiu contra o vereador Rodson Lima, de Taubaté-SP, por ter feito comentários politicamente incorretos em um dos sites de relacionamentos, não foi condizente com a gravidade da sua falha, execrando o infeliz de maneira desproporcional.
Lima é, antes de tudo, um puro, inda que circule por entre as impurezas da política, que deterioram qualquer espírito do bem, por mais que se blinde pela correção e pela honestidade de intenções.
Antes de mais nada, vamos rever as suas considerações, provavelmente sentado em uma das preguiçosas de um hotel de Maceió, à beira da piscina. Laptop no colo, Rodson disparou para os amigos do Face que desfrutava uma vida de príncipe, sob o céu azul das Alagoas, dizendo que o povo lhe proporciona essa mordomia há quinze anos, pois o elegeu à vereança por quatro mandatos seguidos.
É mentira? Quem fala a verdade não merece castigo.
Eu não sei do passado parlamentar do nosso Rodson Lima. Eu sei do seu antepassado, ou seja, do tempo em que ele era um simples vidraceiro e depois de ver tanto pouco caso do poder público, especialmente na área da saúde, comprou por sua conta uma ambulância com a qual servia as pessoas do seu bairro para o deslocamento de casa para os pronto-socorros e hospitais.
Tudo bem que a ambulância ostentava o seu nome. Mas o certo é que ele fazia. Ele teve sensibilidade para tomar uma atitude, coisa que nem mesmo as pessoas que têm obrigação disso não tomam. Isso muito tempo antes de ser vereador. (Hoje ele mantém esse serviço de ambulância e seu celular à disposição da população por vinte e quatro horas, com ligações “a cobrar”. E afirma para quem quiser ouvir: “É o dinheiro do povo que paga esse serviço”.)
E daí que as suas intenções eram políticas? Vamos deixar a hipocrisia de lado e reconhecer que a maioria de nós gostaria de estar na Câmara de Vereadores, usufruindo das benesses que são prerrogativas legais do cargo de vereança. Se ele estava hospedado num bom hotel da capital alagoana para um desses encontros faustosos em que puros e impuros se jogam nas mesmas águas azuis de uma piscina de frente para o mar, sorte dele. Aliás, não é bem “sorte”. Ele trabalhou para isso. E ele, talvez, meio constrangido diante da própria consciência, ingenuamente falou para o mundo: é o povo que me paga essa mordomia! Como que quisesse dizer: “Que coisa, não! E pensar que é o povo que me paga essa mordomia..."
Não acho que tenha sido deboche. Mas foi uma declaração infeliz que levou para todo o Brasil, através dos maiores veículos de comunicação, mais uma vez, a imagem de uma cidade que não consegue se livrar do estigma do Jeca Tatu.
Eu seria muito presunçoso para dizer que ele está perdoado. Mas que não seja por isso que ele perca o eleitorado que tem.
O resto é hipocrisia e inveja.

CUMPLICIDADE, O NOVO NOME DA GOVERNABILIDADE

Henrique Faria

Recorro ao jornalista José Nêumanne, editorialista de O Estado de S. Paulo, para titular estas considerações, pinçando de um dos seus textos o que achei extremamente pertinente para definir a calmaria com que transita um governo há nove anos chafurdado na lama da corrupção. Só isso – cumplicidade – explica, mesmo, como pode um barco desgovernado deslizar como em mar de calmaria, com o povo oferecendo aos seus comandantes recordes de aprovação e popularidade. Ainda que a oposição dê seus berros de vez em quando, trata-se de jogo de cena, pois entre os partidos que não levaram as três últimas eleições presidenciais há muito barbudo enrustido, levando o “seu” por fora para dar suporte à farsa que constitui a governabilidade do Brasil.
O quase analfabeto Luiz Inácio é a prova viva e insofismável de que não é na intelectualidade, necessariamente, que a inteligência transita com mais desenvoltura. Intuitivo, joga com a ignorância popular; oportunista, não perde o cavalo selado. Não deixa para amanhã, nem para os outros o que pode fazer hoje e por si próprio, acreditando que está acima do bem e do mal. É violento nas suas decisões e, como um trator, passa impávido sobre amigos e inimigos. Amigos, se os têm, não os têm na política. Inimigos, sazonais. Quem o viu execrar, em outros tempos, Sarney, Renan, Collor e Quércia (Deus o tenha!), o vê hoje de braços dados, como que com três soldados que o protegem de governistas e oposição. Dos amigos a proteção tem prazo de validade, mas como qualquer mercadinho chumbrega de periferia, troca o selo sem o menor constrangimento, como fez com Palocci, guindado ao segundo cargo do governo Dilma, depois de defenestrado do seu próprio staff por corrupção. Erigiu um arco de apoio para o governo que exerceu e o que agora patrocina, onde, angelicamente, convivem deuses e demônios, como os seus aliados do PCdoB, PDT, PMDB, PP, PR, e outras agremiações que loteiam a Esplanada dos Ministérios.
Não chamem isso de coalizão. Pela profusão de bandidos, chamem de quadrilha, mas se quiserem ser, no mínimo, politicamente corretos, chamem essa corja de cúmplices; afinal, nem todos são bandidos operantes, alguns são meros copartícipes da bandalheira, o que não lhes exclui a tarja da cumplicidade.
As negociatas entre os partidos e a presidente (Presidenta, como ela prefere) saíram da clandestinidade e os seus lacaios não sentem o menor constrangimento em público, desde negociar um emprego de R$ 800 reais mensais a um cabo eleitoral no sertão das Alagoas até apadrinhar um empresário da construção civil numa licitação com bolas cantadas para rasgar uma estrada onde o judas-perdeu-a-bota.
Se você quer saber o lado perverso do que mantém a estabilidade política do nosso governo, está aí: a cultura da cumplicidade, que constitui, hoje, o novo nome da governabilidade.
Você acha isso saudável? Isso não é democracia, mas a ditadura do conchavismo (Nada a ver com o pretenso ditador da Venezuela...)

sábado, 24 de setembro de 2011

Considerações de um míope de fé

Henrique Faria

Eu me preocupo em não me fazer entender em tão exíguo espaço do jornal. No entanto, me arrisco a convidar você, leitor, a refletir comigo e, se puder, complementar, consigo mesmo ou através do próprio jornal, no que eu possa estar incompleto, ou me corrigir no que estiver incorreto. Que o faça sem cerimônia.
Não podemos estar de olho na realidade sem estarmos de olho em Jesus. A recíproca é verdadeira. Como n’O Lábaro já existe muita gente de olho em Jesus, eu me permito olhar a realidade sem perdê-lo de vista. Vou me ater a apenas quatro passagens do evangelho onde entendo que Jesus me inspira para o que eu quero afirmar. Não se trata de interpretação do texto evangélico. Que fique claro.
A primeira delas vem do capítulo 2, versículos 13 a 17 do evangelho de João. Não vou me perder em divagações teológicas, mas apenas lembrá-lo de que um dia Jesus perdeu a paciência. Em Mateus, no versículo 15 do capítulo 7, Jesus fala dos lobos vorazes que se vestem com peles de ovelhas. Eu sei que em ambas as passagens é preciso que se veja o texto no seu contexto. Mas, mesmo diante de um contexto diferente, não podemos negar que Jesus foi muitas vezes muito duro, às vezes irônico, mas sempre se mostrando homem, com a sua paciência se esgotando ou com a sua credibilidade na bondade natural do ser humano balançando diante de pessoas que não merecem o nosso crédito.
Ao ouvir de certos corações bondosos uma alusão à virtude inquestionável da solidariedade apregoada no capítulo 25 de Mateus (versículos 35 e 36), chamando uma corja de vagabundos de “nossos irmãozinhos da rua”, eu me questiono se Jesus está mesmo encarnado nessa gente que não quer nada com a dureza, gente que tem família, tem casa, alguns até aposentadoria como um negro – ou se você preferir, afro-descendente – forte que pede esmola na porta de uma das nossas igrejas... Ou se Jesus está mesmo naquela senhora promíscua, que dorme pelas marquises do centro da cidade, sempre com parceiros diferentes, sem a menor compostura, fazendo as suas necessidades fisiológicas sem o menor constrangimento em frente aos estabelecimentos comerciais, fazendo turismo “na roça”, como ela diz, para visitar seus parentes, de vez em quando...
Eu me pergunto se Jesus está mesmo nessa quadrilha de desocupados que nos achacam no centro da cidade com a desculpa esfarrapada e o gentil oferecimento de tomar conta do seu carro por uns míseros minutos quando você vai entrar na farmácia...
Sinto muito, caro leitor, mas eu não estou afirmando que ele não está. O que eu quero dizer é que eu, míope de fé, não consigo enxergar mais do que uma embaçada e indecifrável imagem do que pode ser a sua passagem pelo centro da cidade. Não sei não... Mas, aqui com meus botões, eu acredito que se fosse ele mesmo, perderia a paciência e meteria o relho nessa cambada que se fantasia de Jesus, com aquela falinha mansa nos chamando de “doutor”, escondendo lobos em pele de ovelha.
Não vamos generalizar, evidentemente, mas a polícia teria condições de separar o joio do trigo, se é que você quer dar um tom evangélico a essa mazela social.

domingo, 21 de agosto de 2011

Estelionato bíblico. Considerações sobre o nome de Jacó

Henrique Faria

Conta a Bíblia que Isaac, filho de Abrão, casou-se com uma mulher estéril, chamada Rebeca. Tanto pediu a Deus que a mulher pudesse gerar um filho seu, que, atendido, foi agraciado com dois meninos de uma vez. Os dois já não se entendiam na barriga da mãe, tirando dela um desabafo, como conta o Livro Sagrado:
– Se é assim, o que adianta viver?
Em suas orações Deus lhe segredou que aqueles dois briguentinhos seriam os fundadores de duas novas nações que não se entenderiam, e que o bebê mais novo – aquele que nascesse depois – subjugaria a nação representada pelo irmão mais velho, fazendo dela sua escrava. Está lá... Na Bíblia!
– Duas nações trazes no ventre, dois povos dividir-se-ão de tuas entranhas. Um povo prevalecerá sobre o outro e o mais velho servirá ao mais novo – disse o Senhor. (Gen. 25, 23).

Precursor da Lei de Gerson

Há uma outra passagem interessante, na história desses dois meninos gêmeos. O que nascera primeiro, ruivinho, já era peludinho nos seus primeiros dias, “como um manto de pele”. Seu nome: Esaú. O segundo nasceu logo em seguida, ainda segurando o calcanhar do primeiro. Ou seja, já nasceu pegando no pé de alguém. Seu nome: Jacó. Não sou eu que estou inventando esta história. Está na Bíblia, nos versículos 24 a 26 do capítulo 25 do Livro do Gênesis.
Naquele tempo, os filhos primogênitos tinham, por direito, alguns privilégios e prevalência sobre os mais novos. Esaú era um tipão mais arrojado, hábil caçador, um homem rude. E, além da preferência por direito, era mais querido pelo seu pai Isaac. Jacó, no entanto, era mais delicado, pacífico, e tinha a preferência da mãe que o paparicava mais do que ao filho mais velho. É possível que ele tenha se acostumado mal e se tornado mais jeitoso, mais “esperto” do que Esaú. Naquele tempo ainda não havia a “Lei de Gerson” e é possível que ele tenha sido o precursor do gersonismo, o exercício do “levar vantagem a qualquer custo”.

Estelionato bíblico

Certa vez, ele – Jacó – havia preparado um ensopado muito cheiroso, cujos eflúvios atingiram o irmão Esaú que chegava muito cansado, do campo. A boca do peludo encheu-se de água. E, dirigindo-se ao irmão mais novo, pediu:
– Dá-me de comer desse negócio vermelho, pois estou exausto.
Conta a Bíblia que Jacó, esperto, viu nesse desejo de Esaú a oportunidade de negociar com ele algumas vantagens que só a ele eram atribuídas. Então propôs que o irmão mais velho lhe vendesse os direito de primogenitura ao custo daquela sopa deliciosa. Esaú era parrudão, rude, meio ignorantão, e não lhe importava muito seus direitos de primogênito. Além do mais, o cansaço e a fome falaram mais alto. Assim, selaram o negócio sob o juramento de Esaú que passava ao irmão mais novo seus direitos de primogenia. E tomou a sopa de lentilhas gostosamente. Eu imagino que nem tenha sido o Jacó que preparou a sopa. Pra mim foi Rebeca que, protegendo o filho mais novo, o ajudou a aplicar o 171 em Esaú. Mas a Bíblia diz que foi Jacó. Então, o que vale é o que a Bíblia diz.
Jacó lhe deu um balão que viria constituir uma história até hoje contada pelo povo do Deus de Abraão e de Jacó – quando deveria ser de Esaú.

Outro balão memorável

Outro balão memorável foi pelo final da vida do velho Isaac. O velho pai, cego, chamou Esaú e lhe pediu que fosse ao mato caçar um bicho qualquer para lhe preparar um assado bem gostoso.
– Prepara-me um assado saboroso, como sabes que gosto, e traze-o para eu comer e assim te dar a bênção antes de morrer.”
Só que... Bem... Os dois não estavam sozinhos. A velhinha Rebeca, meio que como quem não quer nada, ouviu a conversa dos dois. E foi só Esaú ajeitar suas coisas e sair que ela chamou Jacó, seu xodozinho, e lhe contou o que tinha ouvido.
(Repito: não sou eu que estou inventando esta história. Está na Bíblia, no capítulo 27 do Livro do Gênesis).
Rebeca mandou que Jacó fosse ali mesmo, ao lado da casa, pegasse dois cabritos dos muitos que criavam no quintal, que ela mesma faria um assado do jeito que o velho gostava. Esaú, coitado... Se mandou pro mato.
– Tu o levarás a teu pai para ele comer e dar-te a bênção antes da morte.
Jacó, apesar de esperto, não tinha a rapidez do raciocínio da mãe. Você se lembra que eu disse que Isaac estava cego. E Jacó sabia que o pai iria passar a mão pelo seu corpo para sentir a pele peluda de Esaú.
– Mas meu irmão é homem peludo e minha pele é lisa! Se meu pai me tocar, ele vai me julgar impostor e atrairei sobre mim a maldição em vez da bênção.”
Mas mulher você sabe, né? Enquanto o homem está indo com a farinha, ela está de volta com o pão assado.
– Caia sobre mim tua maldição, meu filho, mas obedece-me. Anda e traze-os para mim.
Bem... Vamos encurtar a história. Com a pele dos cabritos, Rebeca cobriu os braços e parte do tórax de Jacó, sob as melhores vestes de Esaú usurpadas pelo estelionatário.
Isaac ficou meio surpreso com a rapidez da caça, é verdade. E também estranhou a voz do moço, achando que era a voz de Jacó. Mas, apalpando os braços do filho embrulhão, notou que eram peludos – ora... os pelos dos cabritos – como os braços de Esaú. E tem mais: sentiu nas vestes de Jacó o cheiro do filho mais velho. Tadinho... Ceguinho de tudo, acabou abençoando ao filho errado.
Nem preciso contar que Esaú chegou depois com a caça e percebeu que levou o maior chapéu do irmão enganador, ficando sem a bênção especial do seu pai.
Se você quiser saber o que aconteceu depois, leia a Bíblia. Está no Livro do Gênesis, do finalzinho do capítulo 27 e do 28 em diante. Tem muita história pela frente.

O nome de Jacó

Deus sabe o que faz e a quem escolhe. Mas o nome de Jacó está vinculado à idéia de “enganador, mentiroso, trapaceiro”. Isto não é verdade, no que toca à etimologia da palavra.
Yaakov é um nome muito honrado. Quer dizer “suplantador” e deriva de uma outra palavra que em hebraico quer dizer “calcanhar” (akêb). Isso lembra que já na barriga de Rebeca o calcanhar de Jacó devia esticar-se todo para cutucar o irmão. Isso a Bíblia não fala, mas que ele saiu de lá segurando no calcanhar do irmãozinho que havia posto a carinha pra fora, primeiro, está escrito!
É com o calcanhar que a gente esmaga os insetos indesejáveis, que a gente demonstra poder, que a gente subjuga. A gente calca. Pisa. Suplanta. Yaakov, como “suplantador” traz a idéia de vencer o adversário, levar vantagem sobre, ser superior, exceder, sobrelevar.

Por que “enganador”?

A ligação do nome de Jacó à mentira e à trapaça é aventada pelo próprio irmão quando se sentiu lesado pela perda da bênção:
– É com razão que se chama Jacó, pois com esta já são duas vezes que me suplantou: primeiro tirou-me a primogenitura e agora subtraiu-me a bênção. (Gen. 27, 36)
Aqui a palavra Jacó está ligada à raiz “akob”, com o sentido de enganar.
Seja como for, Jacó, de bem com Deus, acabou por trocar o seu nome para Israel. Meno male...
Mas se a moda pega... Tem muito Jacó que iria se tornar rapidinho Israel...

sábado, 6 de agosto de 2011

Na ilha do Planalto

Henrique Faria

A presidente Dilma Rousseff, me parece, é uma pessoa bem intencionada. Tem um histórico de luta diferente do seu padrinho político. Além de ter sofrido na pele – na pele mesmo! – as sevícias da tirania de um governo totalitário que, com certeza jamais quer enfrentar de novo, as suas incursões políticas na história da república recente são voltadas mais para a gestão administrativa. Tendo circulado nas instâncias municipal, estadual e federal sempre exercendo cargos de gerenciamento, compõe um perfil de competência aliado à de honestidade – e longe de mim qualquer preconceito em relação à integridade masculina – e à condição de ser mulher. Ou seja: a possibilidade de ter vergonha na cara é muito maior.
Já o patrocinador da sua candidatura à presidência da república tem um currículo totalmente diferente. Apesar de ter tomado café de canequinha nos porões do DOPS na década de 1970 por alguns dias, não tem uma história como tem a sua afilhada. Afora o tempo em que vendeu banana no Pernambuco, vindo para São Paulo trabalhou muito pouco e se infiltrou nas mordomias do sindicato desde muito cedo. Enfrentou barras pesadíssimas, reconheço. Tem o mérito de alçar a sua classe de trabalhadores metalúrgicos a uma casta privilegiada dentro da massa trabalhadora nacional. Mas parou por aí. Foi um grande sindicalista. E, como tal, um grande articulador, um negociador respeitado, com o mérito de ser um grande jogador de... conversa fora, o que ele mais sabe fazer. Apesar de ter legado ao país a eleição de uma mulher para presidente, não consegue desgrudar a sua sombra do palácio do Planalto.
Lula deixou para Dilma um staff viciado em todos os níveis do poder. Não se pode fugir da realidade: os partidos que dão sustentação ao governo estão instalados nos ministérios, em seus órgãos e agências controladoras estratégicos, para se locupletarem. Para satisfazerem os interesses pessoais dos políticos e de seus apaniguados. Não que os partidos de oposição, com destaque ao PSDB, estejam imunes aos privilégios concedidos pelo poder. Eles também levam a sua cota. Aliás, interessante notar que o governo do PT sofreu muito mais denúncias de corrupção e assistiu a muitos e mais tonitruantes escândalos do que o governo FHC bancado pelos tucanos. Não porque seja mais corrupto, mas porque (o PT) tem uma oposição muito mais competente. No governo FHC a oposição era pífia, bravateira. Já o governo PT enfrenta uma oposição que conhece o caminho das pedras. Por terem sido tão corruptos quanto, os homens da oposição sabem em que curvas conseguem surpreender seus adversários. Portanto, sobram demônios em Brasília.
Nesse inferno de hipocrisia Dilma circula, já sem desenvoltura, ilhada pelo dever de lealdade ao homem que a ascendeu ao terceiro andar do Planalto e amargurada em sua própria consciência que a fez intervir, em oito meses, em quatro ministérios diferentes, ruminando ainda a traição de Antonio Palocci, o descarte de Alfredo Nascimento, o descaramento de Nelson Jobim e...( aguarde um novo escândalo no Ministério da Agricultura, cuja bola já foi cantada pela revista Veja em sua edição de 3.8.2011).
Acredito que ainda não possa acontecer nos primeiros quatro anos de seu governo, mas se ela optar por mais quatro, na segunda quadra ela dá uma porrada na mesa e diz: “Aqui quem manda sou eu!” e quem sabe possa resgatar o ideário ético que fez o povo acreditar, em 2002, que a nossa hora havia chegado.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O Deus que eu vejo humilhado

Henrique Faria

Eu gostaria de conversar com você, leitor, coisas mais positivas, mais bonitas, discorrer como o monsenhor Jacó, em suas homilias pasteurizadas, sobre a maravilha da Trindade, a exaltação à divindade, onde ele próprio se acha a figura de Deus exaltado; com aquela mesma candura com que ele se dirige aos seus fiéis fazendo tipo de padre terno (parecido com presidente de partido em programas de horário político gratuito... Eles não são fofos?); dizer da harmonia dos coros de querubins – se é que são os querubins que cantam no paraíso – ou a graça dos serafins em suas tocatas, tirando das cítaras um som encantador. Eu queria, como ele, falar com tanta propriedade sobre a Virgem Maria, fazendo você entender porque ela é o vaso insigne de devoção, casa de ouro, mãe intemerata... Você sabe o que é intemerata? Pergunte ao monsenhor Jacó. Ele deve saber.
Mas acontece que eu vivo, como você, no mundo dos homens, onde a presença de Deus é encarnada de fato. Então, quando eu vejo um irmão sendo humilhado, eu vejo Deus humilhado. Eu vejo Deus se levantando às duas da manhã para disputar um lugar na fila do hospital, para ver se consegue uma senha para seu exame, no único dia do mês em que o SUS leiloa a chance de você ser atendido no mês seguinte. Quando Deus chega na porta do Regional a fila já está grande. E o dia nem nasceu ainda, são apenas 2h30 da manhã. Às 7 Ele tem uma surpresa: a senha acabou. E Ele vai ter que voltar – então ainda mais cedo – daí a um mês para ver se consegue uma senha para daqui a dois meses. Resultado: quando Ele conseguir uma ultrassonografia dos rins, Seus sacrossantos órgãos estarão oito ou dez meses mais comprometidos. E tome dor por esse tempo todo.
Eu vejo Deus humilhado quando ele anda a pé 12 quilômetros para chegar a sua escola – isso aqui, no Vale do Paraíba, uma das regiões mais prósperas do Brasil –, mais para filar a merenda do que propriamente para aprender, mesmo sabendo seus pais que a gororoba não é lá essas coisas. E O vejo humilhado também quando constata que somente a perspectiva da Copa do Mundo e das Olimpíadas é que fizeram o governo botar os bandidos pra correr, depois de Ele ter assistido à morte por balas perdidas de tantos irmãozinhos Seus. Eu O vejo humilhado também na sua busca por um emprego melhor, ou na busca do Seu primeiro emprego, sujeitando-se a salário vil, oprimido pelo capitalismo selvagem que só se volta para o lucro, achando que empregado é despesa e não investimento. Eu vejo Deus humilhado, quando após trinta e cinco anos de trabalho a Previdência lhe reserva uma esmola que mal dá para os remédios. Eu vejo Deus humilhado quando Ele já não tem nem força mais para pedir e se prostra em nossas calçadas, sujo, doente, desprezado, sem amparo da sociedade. Eu O vejo humilhado, nascendo a cada dia em nossas maternidades, sem assistência. Enfim... Para cada Deus exaltado neste mundo, eu vejo pelo menos cem humilhados.
E pego a bíblia da nossa sociedade – que aqui chamam de Constituição Federal – que Lhe garante os seus direitos sociais, no seu capítulo II, versículo 6º sexto,e vejo como Ele é discriminado. Descartado como gente.
Eu, que não sei o que é mãe intemerata, acompanho o monsenhor Jacó no que ele ainda tem de residual sensatez, para pedir à Mãe de Misericórdia, que olhe por seu filho com mais atenção do que olha para o monsenhor, já que Ele não tem sido visto nem pelo Poder, nem pela nossa sociedade como o único detentor dos direitos e garantias fundamentais apregoadas pela nossa constituição, e prometo a ela que da próxima vez eu vou pensar melhor antes de votar nessa raça da lacaios que está por aí. E peço a ela, como Sede da Sabedoria, que ilumine cada vez mais o monsenhor nas suas homilias, para que faça seus fiéis enxergarem um pouco mais além da sombra das cavernas.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

SANTO CALOTE

Henrique Faria

Leio n’O Lábaro de julho de 2011, a “prestação de contas” da diocese de Taubaté sobre a coleta da Campanha da Fraternidade. Prestação de contas é uma atitude sempre saudável.
Para o leitor menos avisado, a Coleta da Campanha da Fraternidade é o produto arrecadado nas sacolinhas de todas as missas celebradas no país inteiro em um dos domingos da quaresma. Do total, 60% são destinados à diocese arrecadadora.
As prestações das contas da Igreja, em particular as das dioceses, só não são mais saudáveis por um pequeno detalhe: ainda que haja boa vontade dos nossos bispos em abrir os cofres ao público no momento da entrada de dinheiro, os fiéis não conseguem colocar a cabeça lá dentro e não têm o mesmo acesso no momento em que o dinheiro sai. No meu tempo, prestação de contas era isto: receita menos despesa (ou entrada menos saída) = saldo. Acho isto elementar.
Vamos continuar com a Coleta da Campanha da Fraternidade. Retidos os 60% da arrecadação na diocese arrecadadora, outros 30% devem ser remetidos para a CNBB, órgão centralizador (mas não administrativo) da Igreja Católica no Brasil. Outros 10% vão para a mesma CNBB em suas instâncias regionais (grupos de estados). Folheio o Texto-Base da Campanha da Fraternidade de 2011 e me surpreendo... Ah! Você não sabe o que é o Texto-Base? É um livro que traz todo o conteúdo da Campanha, em todos os seus aspectos: históricos, teológicos, pastorais, administrativos, tudo muito bem feito, que serve de orientação para todas as dioceses do Brasil para o desenvolvimento da Campanha. Bem... Vamos voltar ao Texto-Base que folheei. Me surpreendo (desculpe a colocação do pronome, mas a orientadora do novo Lábaro – agora com a “cara da diocese de Taubaté” – diz que pode...). Me surpreendo com algumas folhas finais que trazem a “prestação de contas” daqueles 30% que são enviados pelas dioceses à CNBB (só entrada, lógico) e vejo que várias dioceses há muitos anos não remetem à Conferência Nacional dos Bispos o quinhão que lhe cabe. Ou seja, se você pensa que é só você que dá seus chapéus nos cartões de crédito de vez em quando, há muitos batinados que constituem um verdadeiro batalhão de caloteiros, ou melhor, em se tratando de bispos, uma falange de pagadores nem tão anjos assim. Veja se a sua diocese está no rol do SPC da CNBB.
Isto me fez lembrar de uma história que ouvi contar, de um certo monsenhor Jacó, quando um rabino lhe perguntou:
- Caríssimo monsenhor, qual é o destino que o senhor dá ao dízimo?
Ele respondeu:
- Bem... Uma parte é minha por direito. A outra é de Deus. Eu coloco todo o dinheiro numa peneira, jogo tudo para o alto, e o que Deus não pegar... É meu!

É bonito ser feio?

Henrique Faria

Nem sempre a feiúra está na raiz do preconceito. Há quem lide com ela com muita desenvoltura, com simpatia até, às vezes até com certo orgulho, como se ser feio fosse a coisa mais bonita do mundo. Então, por exemplo, não é a feiúra e o ridículo a que se submetem os gays em grandes passeatas, que alimentam o que elas chamam de preconceito sobre a sua liberdade de optar pelo seu direcionamento sexual (como se homem e mulher, cada qual pela sua natureza, já não fossem direcionados a serem machos e fêmeas respectivamente). Mas, enfim, não é dos gays que eu quero falar.
A feiúra tem o seu lado bonito nas conversas em nossos barzinhos, quando juízes, promotores, engenheiros, advogados, médicos, bem sucedidos executivos de nossas emergentes empresas de componentes de aviação, ou até alguns padrecos que se arriscam às tentações etílicas, sentados gostosamente em varandas pelos passeios de nossa cidade, quando se ouvem pérolas do mais requintado português, coisa parecida com “Ferida! Cê me troca déi real?”. “Ferida”, o dono do bar, nem bem acaba de ouvir o pedido, quando o engenheirozinho se dirige ao promotor: “Dexa, dotor, aqui é nói! Ferida! Manda mai dua. Ah! Manda 1 chopps e 1 pastéis tamém!”. “Ferida”, conhecido pela elegância e fino trato, responde: “É doi palito!”
A fina flor da sociedade se impõe à catarse, deixa emergir o monstro da ignorância, o mazzaropi que existe em cada um, num louvor eloqüente à caipirice, como se ser caipira fosse a mais lídima expressão da nossa cultura, colocando abaixo seus diplomas universitários, suas pós, seus mestrados e doutorados. Infelizmente, esses são nossos formadores de opinião. Resultado: dá no que dá.
Você de Taubaté, que já passou dos 60, me diga uma coisa: dos últimos cinqüenta anos para cá nós tivemos um candidato que fosse, a prefeito municipal, que não fosse caipira? Eu falo em candidato, não falo de eleito... Você já parou pra pensar no perfil dos prefeitos de São José Campos, cidade que já superou em muitos anos o estigma que a colocava como a cidade onde os passarinhos tossiam em vez de piar, e outros atributos que, se eu citar, posso ser enquadrado por xenofobia (longe de mim isso...)? Lá eles deixaram de votar nos amigos de boteco, nos demagogos e populistas há muito tempo. (É bem verdade que o meteórico progresso de São José deveu-se aos anos de intervenção federal, quando, por ser cidade estratégica de segurança nacional, eram nomeados pelo Poder. Sorte deles). O povo aprendeu o que é bom. E foi sempre sabendo escolher gente de visão, empresários bem situados que acham que o bonito é ser bonito, não falam “déi real”, “doi palito”, “aqui é nói”, que teriam vergonha de instalar em praça pública um monumento ao 14 Bis nas dimensões que os nossos feios instalaram aqui, na praça Dr. Monteiro.
Os gays que me perdoem – algumas até são bonitinhas – bem como os freqüentadores dos nossos barzinhos da moda, mas feio é feio e até a relatividade da feiúra é relativa. E, pelo andar da carruagem, vamos continuar ainda por quatro ou oito anos, sendo a capital da feiúra.
Longe de mim qualquer preconceito contra essa caipirada que está babando sobre a cadeira do Peixoto, mas você acha, mesmo, bonito ser feio?

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Lembranças Paralelas

Henrique Faria

Era lá pelo comecinho dos anos 60. Bem no começo, no primeiro fevereiro da década. Uma viagem que me parecia não ter volta – coisa de criança que não imagina que o tempo é um sopro da vida, tão curto que é. A Luz fervia locomotivas e vagões e me parece que não dava espaço para as locomotivas que ferviam de verdade na caldeira das Maria-Fumaças da Sorocabana apitando nos embarques e desembarques da Júlio Prestes, ali pertinho.
Não sei porquê, mas eu tinha comigo que havia uma certa prevalência da Paulista sobre a Sorocabana, talvez pelas bitolas que ambas trilhavam em Piracicaba. A Paulista, bitola larga; a Sorocabana, estreita. E mais: na Paulicéia piracicabana as duas se cruzavam, separadas por uma ponte em que a Paulista passava sobre as paralelas reduzidas da Sorocabana, coitada, que aos meus olhos dos dez anos estava sempre por baixo. Mais por baixo ainda porque eu não era seu passageiro, mas viajava com meu pai pela Paulista até me parece que Jundiaí, de onde baldeávamos para o ramal de Piracicaba.
Bons anos aqueles. A mãe, coitada, chorava desde a véspera, e na madrugada do dia da partida, levantava-se ainda mais cedo – coisa de quatro da manhã – para fazer o chá quentinho que evitava o desastre do regurgito provocado pela náusea rodoviária que causava o maior incômodo aos passageiros da Pássaro Marrom, na viagem que antecedia o embarque da Luz. No trem, não! Eu não sentia nada... Interessante... E olha que a viagem de trem era muito mais sacolejante que a de ônibus. Talvez por serem mais arejados os vagões da Paulista... Os ônibus eram acanhados e havia ainda aquele péssimo costume de passageiros fumarem durante a viagem. Uma tortura para quem não tinha o estômago mais resistente, como eu. Para mim, a partida era um começo. Para a mãe, me parecia que era o fim. Um ano sem poder ver o filho...
Era uma viagem gostosa por entre paisagens diferentes das que eu via no Vale. E havia também as mais prosaicas situações como a daquele homem-cavalo que freqüentava a linha, assustando passageiros desavisados que ainda não o conheciam. O homem era arreado, selado, e ostentava um enorme rabo de cavalo – de cavalo mesmo! – que se pendurava, não sei como, em sua derriére, na altura da cintura. Apesar da sela bem amarrada nas costas, não andava de quatro, não. Era de pé mesmo, circulando por entre os vagões com sua hipomania. Eu o vi por duas vezes em minhas viagens. Nunca soube nada que o homem-cavalo tivesse feito de maldade para quem quer que fosse. Cheguei a vê-lo como sensação numa matéria das Notícias Populares, com uma foto enorme que tomava pelo menos ¼ da capa do jornal.
Até mesmo os bancos duros de madeira da segunda classe competiam em conforto e bem-estar com os estofados macios dos Scanias ou Mercedes que faziam a linha rodoviária pelas mesmas paisagens. A grande diferença a favor dos trens – fosse na Paulista, na Sorocabana ou na Central – era a sensação de liberdade, de se estar voando, muito mais próximo da natureza pelo bafejar do vento que invadia as enormes janelas basculantes, arejando os vagões, escancaradas, num ambiente que hoje chamaríamos de clean, uma sensação gostosa de paz que aproximava os passageiros que se desconheciam como numa travessia bem-aventurada pelos campos, serras e rios além-Campínas.
Não que não tivesse havido alguns episódios obscuros pelas paralelas da Paulista... Mas eu prefiro me lembrar da minha infância na Luz, onde se iniciavam as minhas paralelas, que eu só queria mesmo que se encontrassem no infinito.
Mas, eu cresci. E vi as paralelas se perderem no finito, dando espaço às grandes rodovias que já não tinham a mesma poesia das minhas viagens pela Paulista, que se perdem em enormes rotatórias, entrelaçando destinos que já não têm mais a sensação segura de se saber onde chegar.
Eu fico aqui, lembrando do homem-cavalo e da criança que fui, tendo a Paulista e a Sorocabana como panos de fundo dos mais empolgantes momentos do teatro da minha vida. E as paralelas, que você pode entender como meras representações geométricas, para mim significam uma lembrança que só se apagará no infinito.
(Henrique Faria é jornalista e advogado)

sábado, 25 de junho de 2011

O sonho do batráquio

Henrique Faria

Me engana que eu gosto... A mídia nacional, especialmente as grandes redes de televisão, veiculam propagandas espetaculares, muito bem feitas, sobre a maravilha que constitui este país pós-batráquio barbudo. Os manipuladores da opinião nacional, bem assessorados por competentes agencias de publicidade, distantes dos princípios éticos que nortearam a criação do partido que hoje está no poder, reinventaram o Brasil como um país do “faz-de-conta”.
Quem vê o sapo coaxando na lama que se tornou o governo que antecedeu à dilminha-paz-e-amor, imagina uma Suiça de dimensões continentais abaixo da linha do Equador.
As escolas, nos mais distantes rincões, servem verdadeiros banquetes em suas merendas, ensinam o que garante uma vaga às mais cobiçadas universidades europeias ou norteamericanas; aos menos aquinhoados, o Pro-Uni faz o seu papel de não deixar nenhum jovem sem universidade; o ensino fundamental abriga crianças em suas carteiras azuis, todas lindas em salas limpinhas onde alunos bem penteados, meninas bem vestidas e professoras que se recusam a disputar as passarelas do mundo fashion, apesar de tão bonitas, para ensinar o beabá; os adolescentes do ensino médio vivem momentos de euforia e não controlam a ansiedade de poderem chegar ao terceiro grau com a garantia de se colocarem, logo no primeiro emprego, em funções com salários que somente serão superados pelos dos jogadores de futebol. Que coisa maravilhosa!
Nossas estradas são verdadeiros tapetes das mil-e-uma-noites, onde carretas enormes, que mais e parecem trens, planam ao lado de carrões dotados dos mais modernos itens de segurança e conforto, como se fizessem o trajeto Dubai-Riyad nos tempos do Ali Babá.
O sonho do batráquio estende seus eflúvios pelos nossos hospitais, onde há sempre um especialista esperando ansioso que o procure um doente – coisa rara de se ver nesse país – sem que precise esperar por filas que já fazem parte do folclore, dos lendários tempos em que para se conseguir um exame dos pulmões, uma endoscopia, uma reles ultrasonografia do abdômen você precisava esperar o dia certo do mês – um dia só nas calendas do hospital público – para disputar com dezenas de outros pacientes o privilégio de conseguir uma senha para um das seis vagas disponíveis para os exames do mês seguinte. No sonho que o sapo sonha não há pacientes baleados dando entrada no pronto-socorro, porque a violência foi banida desse país; entra um ou outro com gastrite, crise renal, apendicite e até um pré-coma-alcoólico – que, afinal, na Suiça meridional todos os males estão desaparecendo, mas não se conseguem banir os exageros etílicos, já que isso não faz parte dos sonhos do batráquio.
Eu poderia falar muito mais, como, por exemplo, do clima de mosteiro que se instalou nos morros cariocas, ou do hare em que transformaram os bairros mais violentos de Salvador...
Sonhe você seus próprios sonhos, que eu vou amargando a minha realidade, vendo adolescentes desistindo dos estudos no terceiro grau para trabalharem em empregos que não são exatamente os dos seus sonhos; empurrando as minhas crises de vesícula aguardando a minha cirurgia com previsão de seis meses após o diagnóstico; desviando de buracos por nossas estradas e cambaleando pelas nossas ruas, num balé patético que me faz desviar de balas perdidas, de buracos nas calçadas ou de montes de cocô fedorento deixados de lembrança por moradores de rua que a cada dia inflacionam as nossas estatísticas como chagas sociais que não param de crescer.
Sonhe você o sonho do batráquio, que eu já quase não consigo sonhar nem mesmo os sonhos de Platão.

sábado, 4 de junho de 2011

Algo de podre no Reino de São Francisco das Chagas

Henrique Faria

Não sei não... Posso estar enganado... Mas a gente vai pinçando aqui, pinçando ali algumas atitudes, comentários, coisas que vão para as ondas do rádio ou para as lajotas marmorizadas dos presbitérios, ditas em homilias ou nos intermináveis momentos de avisos após a comunhão, que me cheiram que há algo de podre no reino de São Francisco das Chagas... Parece... sei não... Mas para eu colocar isso aqui, saiba o leitor que estou fazendo um esforço enorme para não acreditar, embora tenha fundados motivos para desconfiar. Coisa feia... Uma pena que não possa citar nomes, mas, pelo menos os católicos mais assíduos às celebrações, sabem muito bem separar o joio do trigo.
Já não é mais tão velada uma insurreição que vem sendo orquestrada, ainda em “adagio”, buscando abafar o crescimento de certos movimentos dentro da Igreja, que atraiam grande público, ávido de cura, conforto, libertação. Alguns padres, que falam a língua do povo, têm profunda empatia com os fiéis, carreiam multidões para as suas celebrações justamente porque fazem de suas homilias uma verdadeira teologia de libertação – não necessariamente “da” Libertação – vêm sendo sistematicamente podados em suas celebrações – não pelo bispo, diga-se de passagem – em sua caminhada pastoral, em sua vida pessoal e em sua – pasme! – comunhão eclesial.
Quem conhece nossa Igreja de perto conhece também inúmeros casos de banimentos de sacerdotes que começam a incomodar a mesmice “pastoral” que fala mais do sexo dos anjos do que da realidade que vivemos. Muito pior do que isso é o constrangimento a que esses padres são submetidos, sabe por quê? Por causa da concorrência. E por causa da concorrência outros investem pesado no marketing religioso, explorando a boa fé e a ignorância do povo com celebrações às quais inventam nomes bem apelativos, no melhor estilo pentecostalista dos picaretas da fé.
Os protestantes norte-americanos – não as Igrejas (com “I” maiúsculo) protestantes tradicionais, como a Batista, a Luterana, a Presbiteriana, a Metodista e outras – fizeram escola entre nós. E hoje nós temos aí uma infinidade de seitas “caça-níqueis” explorando o povo sofrido que busca alívio para seus males, pagando, às vezes, um alto preço pela sua ingenuidade. Pior: esse movimento estendeu suas teias para o interior da Igreja Católica.
É por essa mentalidade monetarista implantada pelos marqueteiros da fé que também nós, católicos, assistimos, ainda que em câmera lenta, uma luta entre ministros que deveriam ser mais irmãos. Enquanto a banda podre se embate pelas suas coletas, ofertas, favores e doações – às vezes consideráveis! – a banda boa se cala em nome da unidade do clero. Uma pena...

A união homoafetiva: um fenômeno social ou um pecado inatural?

Henrique Faria

Não é fácil elaborar uma reflexão a respeito de qualquer aspecto do homossexualismo sem o risco de cair na rede da discriminação, mesmo que a idéia a ser apresentada seja favorável à prática milenar das relações de afeto entre duas pessoas do mesmo sexo.
Ninguém – ninguém! – é juiz de ninguém para condenar ou para dar sustentação moral ao homossexualismo, seja ele entre dois homens ou duas mulheres. Isso sem contar que muitos – mas muitos mesmo... – dos que fazem coro aos homofóbicos não saem do armário por falta de coragem, ou por conveniências sociais ou religiosas que os mantêm igualmente pendentes ao que a sociedade machista determina como práticas “suspeitas” estranhas ao comportamento masculino ou feminino considerado “natural”. Até na intimidade de casais ditos heterossexuais há uma enciclopédia de relatos pouco recomendáveis à masculinidade ou à feminilidade convencional dos pares. Por isso, a decisão exarada pela mais alta corte judiciária do país a respeito das decorrências jurídicas de uma união homossexual não constitui um julgamento, mas uma regulamentação.
A declaração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) a respeito da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) quanto à união entre pessoas do mesmo sexo carece de alguma emenda. Trata-se de uma declaração equilibrada, respeitosa, desapaixonada. No entanto, acredito haver entre suas linhas um equívoco quando o seu enfoque se baseia na imoralidade do relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo, enquanto “família”. O texto não é discriminatório enquanto entende que “As pessoas que sentem atração sexual exclusiva ou predominante pelo mesmo sexo são merecedoras de respeito e consideração. Repudiamos todo tipo de discriminação e violência que fere sua dignidade de pessoa humana (cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 2357-2358).”
A decisão do STF não contempla a união dos casais gays com o status de “família”, apesar de lhes assegurar direitos que protegem a entidade familiar. Os bispos brasileiros sabem perfeitamente o que constitui uma família, que não é o mero ajuntamento de um homem, uma mulher e uma porção de bacurizinhos. Assim, a união de casais do mesmo sexo também não têm a espiritualidade do que constitui uma família de fato – uma (...) “instituição (...) (que) corresponde ao desígnio de Deus (...) tão fundamental para a pessoa que o Senhor elevou o Matrimônio à dignidade de Sacramento” – já que a de direito é coisa dos homens. O que é “família” para a moral religiosa não é o necessariamente para a lei. E, perante a lei, a união estável de casais do mesmo sexo – uma realidade consumada, irreversível – tem que ser amparada como um fenômeno social e não discriminada como um pecado inatural.

O castigo vem a cavalo

Henrique Faria

O caos que tomou conta da política em Taubaté, sinceramente, não era previsível. Ainda que se soubesse das limitações do prefeito reeleito em 2010, bem como da influência questionável da primeira dama nos negócios administrativos do município, não se esperava chegar a tanto. Não me arrisco a condenar o Peixotinho pelas falcatruas alardeadas pela imprensa, pelos grupos de oposição e pelo Ministério Público por dois motivos basilares: primeiro pela raiz do atual prefeito; ele vem de uma família política tradicional da cidade, impoluta, considerando, principalmente, seu pai, Moacyr de Alvarenga Peixoto, que deixou um legado de honradez não somente político, mas, de cidadania, de família. Custa acreditar que o filho do seo Moacyr, irmão do Moacirzinho – uma das pessoas mais íntegras que conheci na minha vida e do qual tenho o privilégio de desfrutar da amizade –, tivesse coragem de meter os pés pelas mãos no trato com o dinheiro público. O segundo motivo é por não acreditar que ele tenha competência e desenvoltura para criar uma situação de extrema pressão sobre ele sem que, depois de vários processos, idas e vindas à justiça local e aos tribunais pertinentes, consiga safar-se de condenação em última instância, como vem acontecendo. “O homem tem corpo fechado”, dizem alguns daqueles que assistem de maneira isenta ao “imbroglio” em que a cidade se meteu. Eu não acredito em “corpo fechado”. Acredito na justiça, ainda que tenha minhas reservas quanto a alguns de seus operadores.
Mas o fato está aí, cercado de factoides, é verdade. E quem o elegeu, principalmente entre o eleitorado assentado sobre o funcionalismo municipal, induzido pela campanha popularesca que prometia os mais prosaicos favores – como por exemplo, a instalação de barraquinhas de quinquilharias no centro da cidade – percebe, agora, que a procissão da rua do Café, que ainda hoje se alinha em frente à casa do prefeito a mendigar favorecimentos e privilégios, não se justificou frente ao custo-benefício de uma administração estabanada que, na melhor das hipóteses, confirma a limitação do nosso alcaide.
Ele já era limitado por ocasião da eleição. O menos indicado para gerir a cidade entre os três candidatos que se postaram nas primeiras colocações. Agora Inês é morta, meu caro! A ignorância, apesar de não ser defeito, produz também os seus castigos. E quando vejo aqueles bravos professores se esperneando na praça Dom Epaminondas por reajuste salarial a que fazem justiça, sinto dizer-lhes que, infelizmente, o castigo veio a cavalo. Troteando de São Bento até aqui.

Chique é ser litúrgico

Henrique Faria

Já perdeu um pouco a atualidade, mas ainda vale recordar como uma referência para a minha reflexão. Estou falando do casamento do príncipe Willian com Kate Middleton. Talvez não tenha tido o brilho das bodas de Charles e Diana, mais pelo carisma de Lady Di do que pela elegância em si da cerimônia. O casamento do príncipe, acontecido do último dia 29 de abril, foi o que de mais glamoroso aconteceu na nobreza do Reino Unido nos últimos trinta anos.
A cerimônia religiosa me chamou à atenção pela elegante simplicidade traduzida na decoração da nave central da Abadia de Westmisnter e, principalmente no desenrolar da celebração, com a participação rigorosamente litúrgica da congregação anglicana, mantendo uma postura reverente durante as orações, cantando quando era o momento de cantar junto com o coral, quando se pôde ver o superstar Elton John com o libreto na mão participando do coro da assembléia como qualquer simples mortal. Uma cerimônia séria. Litúrgica.
Bem... Você poderia dizer: “Ora, mas era o casamento do príncipe!”. Eu lhe diria que era a celebração de um matrimônio de um casal que se ama – é evidente o afeto que Willian e Kate nos transmitiram – que se reduziram a duas pessoas comuns quando se trata de postar-se diante de Deus para receber a sua bênção. Aquele momento sagrado não faz distinção de classes por posição econômica ou social. A seriedade conduzida pelo presidente da celebração, pelos noivos e pela congregação na Abadia de Westminster foi um exemplo de que, afinal, chique é ser litúrgico.
Diferente das nossas celebrações de casamento, quando se dispõe de uma parafernália distribuída entre a aparelhagem de som, os cantores e a decoração rebuscada de lençóis estendidos apartando o povão da passarela, colunas luminosas em fibra de vidro, arcos floridos à prova de qualquer saliência supracefálica dos noivos, e o pior: uma cantora se estrebuchando em inglês, aos berros que pateticamente tentam imitar Whitney Houston em seu antológico “The Bodyguard”. Convenhamos que é o suprassumo do brega, terrivelmente agravado com a execução de “Bridge over troubled wather”, seja no original ou na versão lacrimosa que os jovens dos anos 70 adotaram por hino de amor desmedido. Teatro puro em que nem Deus, nem os noivos são os personagens centrais.
Se você quer ser chique, é melhor repensar as suas referências.

sábado, 9 de abril de 2011

SOMOS RESPONSÁVEIS PELOS NOSSOS DEMÔNIOS

Henrique Faria

Quando a humanidade pensa que já viu tudo o que mais poderia torná-la indigna da sua natureza, somos surpreendidos por fatos como o que aconteceu na escola Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, no último dia 7 de abril.

O homem se supera sempre. Na conquista do que parece impossível ou na realização do inverossímil, aquilo que não parece verdade, seja na semelhança que o coloca próximo da divindade, seja no que há de mais sórdido que o assemelha ao mais terrível dos demônios.

O fato como o da chacina do Realengo, que ceifou a vida de doze inocentes crianças, extrapolou os limites da natureza humana. Não se pode chamar o louco do Realengo nem mesmo de animal. Afinal, a violência perpetrada pelos seres irracionais são produtos do seu instinto de defesa ou de sobrevivência. O animal irracional cumpre um script traçado pelo Criador. Já o homem, que tem o seu destino a ser cumprido pela sua liberdade, foge, por determinação própria, daquilo a que se propõe a sua natureza, vista não somente pelo seu aspecto espiritual, mas também pelo físico e biológico, de ser imagem e semelhança daquele que o criou. O homem escolhe entre ser um Jesus Cristo, um Francisco de Assis, um Mahatma Ghandi, uma Madre Tereza de Calcutá, uma Irmã Dulce ou Zilda Arns, ou, na outra extremidade da grandeza, qualquer um daqueles – dos quais nem vale a pena citar os nomes – que transgrediram todos os códigos de conduta humanitária para se igualarem a Satanás.

Para quem não acredita em demônios, o crime da escola Tasso da Silveira talvez seja um forte argumento de que eles existam sim. Para quem acredita, é preciso acreditar além: ele mora ao nosso lado. E se veste das mais variadas indumentárias, é esperto na sua camuflagem e não é nada difícil que se esconda sob cândidas figuras de aparente ilibação. Pode aparentar-se de mulher bonita, criança inocente, às vezes até mesmo de batinas que julgamos serem vestes de anjos. E se você espera encontrar no demônio aquela figura horrorosa de um bicho estranho avermelhado, com chifres e asas de morcego, não vai encontrá-lo nunca, o que torna mais difícil a crença na sua existência e no seu poder. Deus é maior, nós cremos. E a vitória final será dele, nós cremos também. Mas, infelizmente, na guerra que se trava pela história da humanidade, o diabo vence muitas batalhas. Porque tem o nosso concurso. Porque o homem atende a apelos que fogem à sua natureza de seres bons que deveriam dar o tom da paz permanente, da justiça presente, do amor universal.

Falar em demônios numa hora dessas? Não deveríamos estar aqui lamentando a ignomínia do monstro carioca, nos solidarizando com as famílias atingidas, com as crianças sobreviventes traumatizadas pelo resto da vida? E estamos! Mas achamos que é preciso lembrar a humanidade de que o mal caminha par-e-passo com o bem, e que o homem, com o seu poder de escolha, pode interpretar uma história de anjos ou demônios, dependendo da intensidade com que se aceita ser racional ou do orgulho de estar acima do bem e do mal.

O que gostaríamos de lembrar aos nossos internautas é que, muitas vezes, criamos os nossos demônios a pão-de-ló, quando ignoramos os nossos filhos nas suas carências, no seu enclausuramento frente ao computador, na sua capacidade de desenvolver o instinto irracional da violência através dos jogos interativos com que os presenteamos, onde a guerra e a morte povoam suas cabecinhas de supostos heróis; quando nos ausentamos da sua vidinha escolar, sem mesmo dar-lhe o mínimo de atenção porque estamos cansados, trabalhamos o dia inteiro – pais e mães – e porque achamos que educação é função da escola, criando-os apenas como bichinhos de estimação; quando tratamos a nossa relação como problemas apenas nosso, nos esquecendo de que eles são peças do nosso casamento, que pais e filhos formam um corpo só e que uma separação conjugal tem que ser muito bem administrada para que eles não se sintam amputados do corpo familiar.

Pode reparar, prezado leitor: na história dos grandes monstros da humanidade há sempre o trauma perpassando pela sua infância ou adolescência. Por isso, quando um doido entra numa escola atirando e escolhendo suas vítimas,possa estar certo de que ele foi criado, ou na família, ou na sociedade, cabendo sempre a outras pessoas a culpa pela sua história de vida, que nem sempre são os pais – evidentemente – mas que no seu princípio contou com um empurrãozinho do homem para o seu inferno.

Há muito que se possa extrair da chacina do Realengo. Nossas considerações são pontuais porque acreditamos que nada mais evidente do que a participação, nesse episódio, do demônio que nós mesmos estamos criando nas mais diferentes expressões da modernidade, que incluem a desagregação da família, a liberalidade dos costumes, a falta de respeito pelos mais velhos, a falta de sensibilidade pela dor alheia, a permissividade, a imoralidade latente em todas as suas formas, da pornografia à corrupção política; o relativismo que já é cultura e que faz cultural o que há apenas dez ou vinte anos era imoral; a cultura do gersonismo de se querer levar vantagem em tudo; o comodismo, e tantos outros aspectos da vida moderna que cultivamos em nossa casa que concorrem para a liberação dos demônios que insistem em dividir em nós o espaço que é, originalmente, destinado aos anjos.

Mas, acima de tudo, o que mais concorre para que esse mundo se transforme num inferno, é a ausência de Deus, que também se manifesta em nosso coração nas nossas mais prosaicas atitudes. Nós, que fomos concebidos para a felicidade do paraíso, somos os únicos responsáveis, quando e porque queremos, pelos nossos próprios infernos.

JOSÉ ALENCAR, EXEMPLO DE VIDA, DE HOMEM, DE CIDADÃO

Henrique Faria

A morte do ex-vice presidente José Alencar deixa para o Brasil um legado de coragem, consciência da pequenez humana diante da doença e da morte, fé na providência e nos desígnios divinos, mas acima de tudo deixa uma herança de honestidade de quem viveu de acordo com a ética e a moral que determinam a passagem dos grandes homens por este mundo.

Além da vitoriosa carreira profissional e empresarial, conseguida não sem muitos sacrifícios, José Alencar é o exemplo emblemático de que política também se faz com seriedade, ao contrário do que a corrente majoritária do pensamento popular afirma ao conceituar política como atividade dos embrulhões, dos espertalhões, dos safados e corruptos, dos cara-de-paus.

Ele mostrou que não é bem assim. A sua aceitação para dividir com Luiz Inácio a chapa vencedora das eleições de 2002 surpreendeu a esquerda e a direita. Mas não surpreendeu os observadores mais atentos da política nacional que sabiam que se a esquerda não fizesse uma composição com pelo menos uma ala da direita o partido concorrente estava fadado a amargar a sua quarta derrota nas eleições presidenciais. A esquerda deu um golpe de mestre. E venceu as duas últimas eleições mantendo na vice-presidência um empresário bem sucedido, rico, representante da classe patronal, que foi o fiel da balança nas relações políticas dos dois mandatos de Luiz Inácio.

Seria leviano afirmar que sem José Alencar Luiz Inácio não venceria as eleições. Venceria sim. Pelo menos a primeira – cuja governabilidade foi colocada em dúvida pelos analistas e cientistas políticos, céticos de que no seu primeiro mandato Luiz Inácio chegasse aos seis meses de governo – era tida como garantida em decorrência das costuras feitas pelo seu partido que deixou a burrice de lado para formar alianças que foram determinantes na vitória.

Quanto à segunda eleição, tinha a vitória assegurada pelo desempenho de Luiz Inácio no primeiro mandato, surpreendendo os céticos com a desenvoltura com que circulou entre a direita e a esquerda, ainda que o seu governo tenha sido abalado por incontáveis escândalos promovidos por seus pares, pelos quais passou incólume.

José Alencar tem muito a ver com a governabilidade do governo Luiz Inácio. Foi um vice atuante, corajoso, de posições próprias, não correndo atrás segurando o rabo do cavalo do poder. Tinha personalidade para chegar à mídia e questionar certas posições do presidente ou dos seus auxiliares mais diretos como o presidente do Banco Central, da Petrobrás, do BDNS, sem que suas palavras gerassem crise ou ferissem susceptibilidades. Luiz Inácio, conhecido rolo compressor que passa por cima de quem não comunga com suas idéias –verdade seja dita – vergou-se em humildade diante do seu vice, que tinha como pai e mentor. Ele sabia que o sectarismo proletário não vingaria seu governo e por isso, tendo um interlocutor patronal da estirpe de José Alencar, conseguiu não só dar governabilidade a seus dois mandatos, mas também dar lições da verdadeira política que somente se faz com o diálogo, a prudência, a tolerância e que é possível fazê-la com honestidade.

Há quem se surpreenda com a permanência de José Alencar no seu primeiro mandato, diante das vergonhosas transações que emporcalharam o governo Luiz Inácio. Graças a Deus ele resistiu. Porque, não fosse assim, talvez a história brasileira dos últimos oito anos tivesse tomado rumos diferentes, retrocesso no estado de direito. Não que tenha sido ele quem segurou a onda. Mas com certeza foi a sua aura.

José Alencar acreditava na vida. E foi assim também nos seus mandatos. O homem que nós vimos pela televisão rindo da sua doença, sereno diante da morte previsível, era o mesmo homem que se sentava ao lado do presidente dando-lhe segurança e confiabilidade. Este é o segredo dos grandes políticos. Ou melhor: dos grandes homens que são políticos: a sensibilidade e a ternura do vovô, a experiência do pai que, com certeza, deve ter puxado muitas vezes a orelha do presidente; a grandeza de se sentir pequeno diante do mistério da vida, que ele tanto amava, mas que tinha consciência de não lhe pertencer, como não pertencia ao seu presidente o poder que o povo lhe delegara.

domingo, 20 de março de 2011

Internet: uma bomba em nossa casa

Henrique Faria

O mundo vem dando saltos em progressão geométrica no que tange ao progresso tecnológico. As coisas acontecem muito rápido quanto rápido elas se tornam obsoletas. E entre os grandes fatos do mundo da tecnologia, a Internet surge como, talvez, a mais poderosa arma cultural da história da humanidade.
Em muitos poucos anos, desde que foi lançada – aqui no Brasil, em meados dos anos 90 – ela ganhou tamanha importância que vem mudando o comportamento das pessoas de maneira tão rápida, criando uma nova cultura – a cultura cibernética – que deixa o homem pequenininho diante da aldeia global.
As previsões de grandes cientistas, antropólogos, sociólogos e estudiosos do comportamento humano feitas há pouco menos de trinta anos foram superadas em pelo menos dez vezes mais o tempo em que eles se adiantaram, ou que... achavam que estavam avançando. Previsões para 100 anos, aconteceram em menos de 20. Estamos diante do imponderável, do imprevisível, quando o tempo já adquire ares de eternidade, ou seja, o tempo não existe.
Diante de um quadro como esse, assistimos a fatos há pouco tempo inimagináveis, como por exemplo, o já ocorrido há quase dez anos, o ataque às torres gêmeas de Nova Iorque, fruto da ousadia do homem, que só víamos em filmes de ficção.
Pensar numa avalanche como se viu com a tsumani arrastando tudo, implacável, no Japão, só mesmo em filmes de grandes catástrofes, concebidos pela loucura de um Spielberg, que nem ele mesmo acreditava que pudesse vir acontecer. Cenas de fim de mundo. Não se imaginava, pouco tempo atrás, uma capital como Tóquio se escondendo da radiação nuclear, com toda a sua população ameaçada de morte, promovendo um êxodo urbano sem precedentes.
E, se não conseguimos, na década de 40, saber a verdade dos fatos que se desenrolavam pela Segunda Guerra Mundial, hoje estamos no palco da história. Somos expectadores privilegiados instalados no epicentro dos mais importantes fatos que pipocam por todos os quadrantes do planeta e que nos dão a impressão de que nem serão história, tão rápida a sua evolução. As coisas acontecem sem tempo de assimilação histórica, sem tempo de maturação e aprendizado.
A Internet nos coloca nessa situação. Através dela ditadores são depostos, como o foram Bem Ali, da Tunísia e Mubarak, do Egito, que não resistiram ao tsunami cibernético das redes sociais que mexeram com os brios dos povos daqueles países, colocando-os nas ruas a pedir democracia. Através dela estamos assistindo a grande potência japonesa – um dos países mais ricos do planeta – de joelhos perante a humanidade, tão vulnerável quando os mais atrasados países sulafricanos a mendigarem uns míseros bolinhos de arroz que lhes sobraram para matar a fome. Através dela vemos que no Japão também existe zona pobre, o “Jequitinhonha” de lá. As feridas nipônicas estão expostas ao mundo inteiro, ainda que telefones, rádios e televisão estivessem funcionando de maneira precária, em grande parte do país nem mesmo funcionando.Graças à Internet. E foi graças a ela que brasileiros conseguiram contatos com parentes que tentam a sorte no país do sol nascente.
O que nós temos a ver com isso?
Temos que... Veja bem: lembra-se daquela campanha de desarmamento ocorrida alguns anos atrás, que movimentou milhões de brasileiros a entregarem suas armas domésticas, numa tentativa de mitigar a violência entre os cidadão comuns que não têm vocação para a bandidagem, mas que, diante da facilidade do manuseio de uma arma podem escorregar e dividir uma cela com profissionais do crime?
Pois bem. Hoje estamos muito mais armados. Dentro de nossa casa uma bomba poderosa, que tanto pode abrir espaços para o conhecimento quanto para a nossa involução cultural, a desagregação da família, o incentivo à preguiça escolar, já que, se o adolescente tem uma fantástica ferramenta de pesquisas, tem também os seus trabalhos escolares prontos a dois cliques do mouse.
É evidente que a evolução tecnológica implementada pela Internet tem que ser bem vinda, aplaudida. Mas deve ser vista também como um perigoso passaporte para o delito, que pode começar em casa, e cedo, já pelas crianças de seis ou sete anos que lidam com a blogosfera com muito mais desenvoltura do que os adultos. Os adolescentes, se quiserem, dão um verdadeiro baile nos seus pais, usando a Net para o que bem lhes convir.
Como a tecnologia, o comportamento também dá saltos enormes, às vezes inatingíveis para os mais velhos que pararam no tempo e não procuraram acompanhar mais de perto a evolução da juventude. E a Internet vem contribuindo de maneira determinante no comportamento social. Ela é invasiva, ousada, agressiva, amoral. E o nosso comportamento vai assimilando a sua amoralidade, não só pelo que de ruim ela nos proporciona, mas até pelo que de bom podemos conseguir com ela, porém, sabe-se lá a que custo.
Fica o nosso recado, lembrando ao querido e à querida ouvinte , que se a Internet desfraldou o véu do orgulho japonês ou colocou no chão ídolos como Bem Ali e Mubarak – e vai colocar também Kadafi – ela pode também desfigurar nossa família, se não tomarmos cuidado para que ela nos traga apenas o bem, a cultura, o conhecimento, sem nos deixar fora do tempo e da história com a velocidade com que ela nos devora.

CF 2011: A Igreja com os pés na terra

Henrique Faria

Para aqueles que concentram seu olhar crítico à Igreja Católica taxando-a como fora da realidade ao propor a salvação aos homens e a conquista do Reino dos Céus, como se isso fosse uma fantasia milenar, a Campanha da Fraternidade deste vem mostrar que a Igreja Católica pode ter os olhos no céu, mas tem os pés na terra. E bem fincados.

Quando algumas pessoas – que não são poucas – ouvem a Igreja falar em fraternidade, imaginam a utopia do inatingível, como se fraternidade fosse um sonho e não uma realidade que permeia toda a vida do homem.

Teologias à parte, o ser humano vive em comunidade. E a sua tendência natural, pelo menos naqueles que não têm desvios morais que os tornam seres descolados da sua espécie, bem... a sua tendência natural é viver como irmãos. O homem é naturalmente bom, solidário, fraterno. E os desvios que os fazem lobos de si mesmos não fazem parte da sua natureza.

Dentro deste contexto é que a Igreja, como uma instituição fundada por Jesus Cristo dois mil anos atrás – por ser divina é a única instituição humana com tanto tempo de vida e de história – se coloca a serviço da pessoa humana promovendo fraternidade, corrigindo os desvios de rota na caminhada do homem para a eternidade. Quem pode negar – tenha ou não tenha religião – que o homem é um caminhante da eternidade?

A Igreja Católica, no Brasil, aproveitando um período de quarenta dias em que sugere ao povo uma parada para pensar, coloca no ar, nos templos e nos lares uma campanha que, nada mais nada menos, é uma campanha para se promover o bem-estar entre as pessoas, consolidar a sua capacidade de serem irmãos, no mínimo pela espécie a que pertencem.

Ela não situa o homem num espaço virtual a que poderíamos chamar de céu, longe da realidade do que efetivamente vivemos. Ela fala com o homem como um elemento da natureza, ser vivente num espaço físico que tem tudo a ver com a sua vida, o seu dia a dia, a sua saúde, a sua segurança, a sua cultura, as suas tradições, buscando sustentabilidade no seu desenvolvimento.

A Igreja entende que o desenvolvimento da espécie humana deve procurar satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades, possibilitando que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra e preservando as espécies e os habitats naturais. Diga-se de passagem que este é o conceito de desenvolvimento sustentável abraçado pela cultura laica.

Pois bem. Para a Igreja, desenvolvimento sustentável é uma expressão de fraternidade. E neste ano, durante a Quaresma, tempo em que a Igreja convida as pessoas à conversão, ela dá várias pistas para reflexão, para promover a fraternidade e a vida no planeta. A Campanha da Fraternidade deste ano traz um tema cientificamente trabalhado – ou seja, vendo o homem como homem e não como anjo – propondo que todas as pessoas de boa vontade olhem para a natureza e percebam como as mãos humanas estão contribuindo para o fenômeno do aquecimento global – trata-se de um enfoque pontual – e as mudanças climáticas, com sérias ameaças para a vida em geral, e a vida humana em especial, sobretudo para os mais pobres e vulneráveis.

Impossível enquadrarmos em tão pouco espaço de tempo a riqueza da Campanha da Fraternidade deste ano. Mas vai aqui o nosso apelo a que você procure se inteirar da Campanha como um agente da sustentabilidade ambiental que pensa não somente em si mesmo, mas no seu irmão que está sofrendo as conseqüências do descaso humano com a natureza por meio de doenças, acidentes climáticos, fome.

A Campanha propõe ações concretas, algumas mais elaboradas, que devam ser implementadas pelo poder público, e algumas mais simples que cada um de nós pode implementar em gestos aparentemente prosaicos, como
- o descanso semanal, o conhecimento do próprio consumo ecológico – como e em que quantidade estamos contribuindo para o aquecimento global –
- a tomada de consciência da importância de nos livrarmos das famigeradas sacolas plásticas;
- o consumo local, a horta caseira ou comunitária, economizando dinheiro e combustível do transporte;
- a diminuição da temperatura de geladeiras, ar condicionados e estufas no inverno e aumentando no verão;
- o uso mais racional dos eletrodomésticos; o costume de desligar aparelhos – especialmente os dotados de stand by;
- o uso de painéis solares; preferir os carros a etanol ou gás;
- comer mais frutas e verduras, já que carnes de ovinos e bovinos são responsáveis por 18% das emissões mundiais de gás carbônico;
- uso de fraldas ecocompatíveis: a biodegradação das fraldas tradicionais leva 500 anos; economizando papel, já que com o consumo menor de papel,menor - o desmatamento; escovando os dentes com a torneira fechada;
- usando lâmpadas econômicas que consomem cinco vezes menos;
- banhos rápidos; enfim uma série de medidas domésticas que podem contribuir sensivelmente com a diminuição do aquecimento global, sem que precisemos cerrar fileiras entre os ecocontestadores que, vira e mexe, estão arrumando confusões por aí.

Existem também as ações concretas que a Igreja propõem para o poder público. Aí também entra você com a sua participação, sabendo escolher seus governantes comprometidos com a fraternidade vista sob o aspecto ambiental.

Participe da Campanha da Fraternidade, um momento rico para aprimorar seus conhecimentos e se conscientizar do dever de fazer acontecer uma vida melhor para o planeta e, em primeira instância para o seu irmão. E uma bela oportunidade para você entender definitivamente que a Igreja não fala somente de anjos e arcanjos.

terça-feira, 8 de março de 2011

Os culpados somos nós

Henrique Faria

Há poucas possibilidades de se reverterem certas situações a curto prazo. Nós lutamos contra uma cultura arraigada, de descaso para com o que possa acontecer a outras pessoas, a partir das nossas atitudes.
As últimas notícias sobre violência, ou sobre desastres de natureza climática, disseminação de doenças como a dengue, a AIDS e até a tuberculose que já estava praticamente banida, enfim, de fatos e situações que conturbam o sossego da nossa sociedade, têm sempre a sua raiz no comportamento das pessoas. Tudo porque temos uma tendência de nos fecharmos em nossos quadrados, pouco nos importando com o que possa estar acontecendo no quadrado do próximo. Aliás, os outros nem sempre são tão próximos assim.
Temos também uma tendência a atribuir ao poder público a responsabilidade pelo que de ruim acontece à sociedade, quando sabemos que, no fundo, não há governo que consiga lutar contra essa cultura autista e egocêntrica.
Procure andar pela cidade, com calma, com paciência, e principalmente com espírito observador, e você verá o homem lobo de si mesmo em plena atividade.A cada passo você verá uma atitude de desrespeito por parte de pedestres contra pedestres, ciclistas contra pedestres, motoqueiros contra pedestres e contra ciclistas, motoristas contra pedestres, contra ciclistas e contra motoqueiros, enfim, as pessoas se comendo num trânsito maluco que agrava a sua violência quando sob um calor de 40 graus.
Ou, então, procure “entrar” – aqui falamos entre aspas – na intimidade das famílias para ver onde nasce essa cultura, passada de pais para filhos, confortavelmente instalados sem seu sofás. Dificilmente você vai flagar um jovem lendo um livro bom, ou os adultos conversando com tranqüilidade assuntos que possam versar desde o comportamento familiar até as vicissitudes que deseducam nossos filhos. Na maioria dos lares estarão todos sentados com os olhos na TV e, se for depois das 10 da noite, milhões de famílias brasileiras estarão discutindo nos intervalos a performance dos atores que compõem a maior estupidez da televisão brasileira, esse tal de BBB.
Procure dar um passeio por avenidas – geralmente esburacadas – de nossos bairros e vai ver em suas margens, principalmente quando essas margens são terrenos baldios e abertos, e você verá sempre uma pessoa com seu carro despejando sacos de lixo nesses locais públicos, quando não nos córregos que riscam a cidade com a sua poluição causada não só pela falta de infraestrutura de saneamento básico, mas principalmente pela ação violenta dos próprios moradores que depois os culpam pelas enchentes.
Procure dar uma espiadinha por cima do muro de certas casas – mas tome cuidado! Você pode passar como suspeito de um possível assalto – para você ver quanto foco de doença você vai ver ali, além do criadouro do aedes aegypt, condições para a disseminação de outras doenças. Quantos imóveis desocupados, abandonados que se prestam a esse trabalho de contribuir para o desassossego da sociedade com a proliferação de doenças.
Você não vai conseguir, mas se for possível, procure entrar nas cozinhas de alguns dos nossos restaurantes – até dos mais bem conceituados... – , nos salões de algumas de nossas padarias, na intimidade de algumas de nossas lanchonetes, e você pode acabar anoréxico por não querer mais comer nada que venha dessas fontes, onde você encontra insetos dos mais asquerosos, sujeira, coliformes fecais, elementos que concorrem para a sua mesa, seu café da manhã, seu lanche, seu almoço ou jantar.
É o poder público que tem culpa por isso tudo? Talvez tenha parte, pela educação ineficiente, que por séculos não consegue formar uma cultura de gente civilizada. Mas os principais culpados somos nós. É verdade que o poder público não nos dá condições dignas de moradia, obrigando os menos favorecidos a pendurar suas casas em morros e favelas, aceitando o risco de uma hora para outra despencarem lá de cima como tem acontecido. Mas o homem desafia a natureza e a lei da física. O resultado é o que se vê. O mesmo se pode falar do desmatamento ciliar nas encostas dos rios para a ocupação desordenada de casas e barracos que poderão ser engolidos pela fúria das águas.
Com certeza também não é o poder público que tem culpa pelas poças que se espalham pelos nossos jardins e quintais, pelos terrenos baldios e pelas nossas lajes, que favorecem a criação do mosquitinho sem vergonha que está dominando a nossa sociedade.
E não é também do poder público a culpa pelas nossas crianças e adolescentes ficarem grudados na TV ou na internet vendo o que não presta para moldar o seu caráter à imagem e semelhança dos mais pérfido bandidos que nos assustam; ou pelas nossas jovens que não têm hora para chegar em casa e quando chegam, alteradas pela droga e pelo álcool, encontram os pais dormindo o sono dos anjos; ou pelos jovens que nem chegam.
Enquanto não criarmos uma cultura de responsabilidade social, o mal cresce e não temos condições de enfrentá-lo. Mas serão precisas atitudes radicais, tanto da parte do poder público com fiscalização e penalização sobre atitudes anti-sociais, quanto das famílias, que precisam se reinventar, criar um novo modelo de comportamento social de pais e filhos.

Picuinhas de província

Henrique Faria

Quando lemos alguns jornais ou acessamos alguns sites ou blogs com notícias e comentários políticos das cidades da nossa região – quase todas, talvez com exceção de São José dos Campos, que já se pode considerar uma cidade grande – nos deparamos com o provincianismo da classe política e, na esteira do comportamento dos homens que se dizem políticos, da mídia local também, mais explicitamente dos pequenos jornais – ou melhor, dos jornais menores, porque todos são pequenos – que se debatem em picuinhas para contentar meia dúzia de leitores.
Uma boa parte das pessoas que se servem da nossa mídia para comentar política local, seja jornal, rádio, televisão ou internet, se não são velhos jornalistas ressentidos, são jovens inoculados pelo vírus da mediocridade, tanto pelo despreparo, quanto pela falta de bagagem, ou até mesmo pelos vícios adquiridos daqueles que entra ano sai ano, entra eleição sai eleição, são sempre os mesmos recalcados, que perderam uma fase – entre aspas – “boa” em que tiravam algum proveito das suas opções políticas e das posições que assumiam de público.
Durante o período de poder de alguns caciques políticos, que tinham nas mãos os instrumentos de manipulação dos formadores de opinião postados na imprensa, alguns jornalistas fizeram a festa. Não com dinheiro, evidentemente, porque a grande maioria dos nossos políticos sempre foram pobres, com raríssimas exceções, mas com algum prestígio, emprego, cargos públicos e, principalmente, tapinhas nas costas. Havia ainda as famosas “bocas livres” que eram a alegria dos cupinchas, e que ensejaram a célebre frase de Robson Monteiro, de que “a imprensa daqui é movida a rango”. Coisas de província.
Essa cultura, no entanto, foi interrompida, mas não extirpada, de um modo pontual com a ascensão de um político fora dos padrões provincianos da época, e também pelo declínio da força política do mais poderoso cacique da região. Não entramos aqui no mérito das duas lideranças, duas excelentes pessoas, cada qual com seu estilo.
Entretanto, se a liderança que declinou do seu status de dono do pedaço político local não formou outras novas lideranças de expressão à sua imagem e semelhança, a liderança que ascendeu – estamos falando especificamente de Taubaté – também não o fez; pelo contrário, cultivou o descarte dos jovens políticos promissores que inclusive o ajudaram a ascender à mais alta plataforma da preferência política do povo da cidade.
Essas duas lideranças – as duas agora em estratégico recolhimento – ainda provocam acirradas opiniões entre os comentaristas políticos, execrando o primeiro quem defende o segundo e exorcizando o segundo quem se alinha com o primeiro. Ambas provocam histéricos ressentimentos entre os jornalistas – especialmente os mais velhos.
Se observarmos a história política das cidades da região, vamos ver os mesmos vícios em cada uma delas, e a mesma sonolência no desenvolvimento, algumas mais outras menos, mas quase todas andando a passos de tartaruga, amargando sempre uma escolha mal feita, tão logo cheguem os seis primeiros meses de gestão. Em todas elas um vício é comum. E é possível que a abstinência desse vício seja o nó de górdio para livrá-las do encanto a que foram submetidas, amargando, se não o atraso, a enorme dificuldade que têm em se desenvolver.
Neste sentido achamos que a mídia exerce um papel fundamental. Se os formadores de opinião não se envolvessem em política partidária ou mesmo em relacionamentos estreitos e interesseiros com as nossas melhores lideranças políticas, e se postassem como observadores isentos e honestos – aplaudindo o que se deve aplaudir mesmo que seja de um político desafeto, ou criticando o que se deve criticar mesmo que seja de um político amigo – pelo menos não alimentariam a fogueira das picuinhas e poderiam deixar os homens que fazem políticas mais à vontade para fazer política de verdade.
E política de verdade não se faz com ressentimentos, com vingança, com represálias. A verdadeira política se faz com diálogo, com composição, ainda que as partes envolvidas necessariamente não se morram de amores. Na província não acontece isso. Em política não se diz “pão pão, queijo queijo”. Em política se faz um sanduíche com ingredientes que aparentemente não combinam entre si. E se faz um sanduíche de pão e queijo, melhor. Também não se faz política colocando a vaidade pessoal acima do interesse comum, ou mesmo partidário. É outro vício que faz provinciana a política de uma cidade grande, que a torna medíocre e que impede o seu desenvolvimento.
Nós temos excelentes quadros políticos. Excelentes lideranças que, infelizmente estão adoecidas pelo mal do ressentimento e pelo mal da vaidade. Ninguém cede. E aí acontece o que acontece na maioria das cidades, onde duas ou três boas lideranças racham entre si a metade do filão e acabam deixando a outra metade inteira para um medíocre.
Os tempos são outros. Já não cabem mais essas picuinhas na mídia que ninguém leva a sério, mas que acabam alimentando o ressentimento ou a vaidade de quem poderia estar dando a mão àquele que lhe fizeram desafeto, já que o bom político não gosta de se desentender com ninguém.

É carnaval: licença para anarquizar

Henrique Faria

Não quero ser desmancha-prazeres, nem o chato que vê defeito em tudo, muito menos moralista. Mas aqui entre nós – muito aqui entre nós, não espalha não! – essa euforia toda que o brasileiro tem por carnaval me cheira primitivismo, ou na melhor das hipóteses, subdesenvolvimento. Não pela festa em si, que é maravilhosa, democrática. Nem mesmo pela nudez que – me perdoem os hipócritas que gostam, mas escondem – não deixa de ser uma expressão do belo, afinal, criado por Deus em sua versão do homem original. Deus criou o homem e a mulher nus e viu que era bom: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). Então, que fique bem claro que as minhas considerações não têm nada de moralista.
O que me incomoda é esse frisson que muita gente tem, que come, bebe e dorme carnaval. Aliás, o mesmo se aplica ao fanatismo pelo futebol, que revela cada tremendo cavalão chorando desbragadamente pela derrota do seu time – os mesmos homens que têm vergonha de empunhar uma flor, levá-la para casa e dá-la à sua mulher. No carnaval também acontece isso. Naquele monótono falsobordon de se repetir a mesma cantilena por minutos intermináveis – Bateria... dez!, Harmonia...9! Evolução...9 e 75! e assim por diante... – quanto lutador de Jiu-Jitsu a gente vê se derretendo em lágrimas pelos 0,25 pontos de diferença entre a sua escola e a que levou o primeiro lugar, chorando feito uma criança, fazendo beicinho e enxugando as lágrimas com aquelas mãos enormes que se me acertarem... só o pó! O corpo de jurados trata aquilo com tanta seriedade que parece que não há coisa mais séria para ser julgada no Brasil.
Tudo bem se essa festa toda fosse apenas no tríduo que precede a quaresma. Mas a folia mesmo, a zoeira, o barulho se arrastam por três meses antes e uns dez dias depois que a tia Teresinha já recebeu as suas cinzas e está se recolhendo para uma quarentena de reflexão. Não que eu queira fazer essa ligação entre a farra e a religião. Longe de mim me arvorar em paladino do recolhimento quaresmal, ainda que tenha a minha opinião externada no artigo acima. Mas... Só por Deus e em nome do bom senso que aconselha a não enfrentar essa gente que promove o carnaval, que a gente tem que engolir que uma “escola de samba” (quá! quá! quá!) faça seus ensaios em uma quadra colada com o muro de quintal de uma residência onde mora uma velhinha doente, ou um senhor perturbado a quem o barulho constitui uma tortura medieval, ou o cidadão comum – que até gosta de carnaval – mas que levanta cedo e precisa dormir tranqüilo para agüentar o baque na caldeira da fábrica, o mau humor do chefe no escritório, ou a grossura do patrão narigudo no balcão da loja de tecidos. Tudo isso, às vezes, por uma apresentação patética na avenida, que inspira mais dó do que entusiasmo.
Tudo o que eu quero dizer é que o carnaval é a festa do desrespeito – para alguns que não são poucos – e que em nome de uma alegria artificial e passageira, há muita gente que se animaliza e perde a compostura.

Quarenta dias não são nada...

Henrique Faria

Não vou falar sobre a teologia quaresmal porque não é minha praia. Há gente muito mais habilitada que o pode fazer em meu lugar. O espaço está aberto. Mas não há como não referir ao tempo que antecede a Páscoa – o tempo civil mesmo, os quarenta dias antes de que você queira comprar aquele ovo de páscoa enorme para dar à namorada, ou ver chegar em casa as crianças com bigodes riscados e orelhas enormes de cartolina, depois de uma dia de aula, ou dar de cabeçada nos corredores dos supermercados abarrotados dos preciosos ovos pendurados. (Demorei tanto para escrever o aposto, que perdi o fôlego da frase que comecei...) – Bem... Como ia dizendo, não há como não referir ao tempo que antecede a Páscoa como o tempo do deserto.
Nós vivemos dias de intensa agitação, preocupações, contas para pagar, o salário que termina quando o mês apenas começou, estresse, irritação, trânsito caótico, falta de respeito nas mais prosaicas manifestações de sociabilidade, sem contar problemas com filho adolescente, com o pai prepotente, a mulher falante, o marido faltante, a casa que está para cair. É preciso dar uma parada! Rever a vida. Fazer ressuscitar aquela emoção de ter visto o filho nascer, o pai levá-lo de cavalinho, a mulher contando seu dia da faculdade no começo de namoro, a presença do marido no começo de casados, os sonhos de construir um lar enquanto se desenhavam os projetos de uma casa nova...
O deserto é um convite à purificação. À reflexão. À mudança. O deserto que você encontra no seu próprio coração, ou na razão que lhe aconselha dar essa parada, pode ser palmilhado por esses quarenta dias, onde você vai valorizar o oásis, aquela água fresca a lhe descer pela garganta. Jesus chama essa “água fresca” de “água viva”, mas eu não sei se você quer ouvir falar de Jesus agora. Você está com tanta pressa, que nem sei se você já pegou o rumo do deserto. Mas pegue! Vamos em frente!
Você precisa criar seu deserto e lhe dar um ambiente de despojamento, próprio para que você recrie seus valores, repagine sua vida, ressuscite dessa tumba em que se transformou seu coração e renasça um homem novo, uma mulher repaginada, uma outra pessoa que você esqueceu no salão ou na avenida quando foi deixando cair a fantasia, ou mesmo nesses rebanhões que o excitaram na procura do deserto.
Não que não lhe venham aturdir as tentações de poder, prepotência e de prazer durante a quarentena. Até Jesus passou por isso... (Ops! Falei em Jesus de novo e não sei se você está querendo ouvir.) Mas você há de reconhecer, comigo, de que ele só fala de coisa boa. E é de coisa boa que você está precisando ouvir. Quem sabe, não?, não seja a voz dele que você está precisando ouvir. No deserto é mais fácil... E quando você achar que ouviu a voz do coração, pode crer, é ele que está falando em você.
Experimente! Afinal, quarenta dias pra ressuscitar não é nada para quem levou duzentos e setenta pra nascer...

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Desrespeito Público e Social

Henrique Faria

A notícia de uma senhora que foi atropelada por um motoqueiro no centro de Taubaté, enquanto atravessava a faixa de pedestre com o sinal favorável a ela, apesar de ter pesado enormemente sobre a sua família, causado muita dor entre filhos, netos, parentes e amigos pelo seu desfecho fatal, infelizmente é mais um dos fatos corriqueiros que acontecem todos os dias – ainda que possam nem sempre redundar em morte – em nosso trânsito.
Sem que queiramos criticar a quase maioria dos motociclistas que usam de seus veículos para o desempenho de suas profissões, não há como nos furtar do comentário de que há poucos profissionais dessa área com responsabilidade no trânsito, que não desafiem o perigo para si, para os pedestres e para os outros motoristas. Mototaxistas e motoentregadores, são em sua grande maioria abusados, atentando contra as suas vidas e as vidas dos outros. Em nome da pressa fazem barbaridades.
Mas não é exatamente sobre eles que vamos falar. Vamos generalizar os nossos comentários para a falta de respeito que animaliza as pessoas, que às vezes provocam retaliações com violência, tornando as pessoas irracionais, às vezes, em suas reações. E desta vez falamos do respeito público, social, deixando as inúmeras formas de desrespeito pessoal para uma outra ocasião. Há todo tipo de falta de respeito público. Desde o atirar de um chiclete mascado na calçada para que outro pise sobre ele, até a satisfação de necessidades fisiológicas de maior ou de menor intensidade em áreas públicas e abertas, quando não em frente a residências ou estabelecimentos comerciais. A falta de respeito público se manifesta também pelo ciclista que, tendo a largura toda do leito carroçável de uma avenida, circula desafiador pelas calçadas, às vezes obrigando o pedestre a se desviar para que ele passe soberano. O que não dizer, então, da omissão do poder público que emite o “habite-se” a residências que constroem rampas nas calçadas para a entrada do seu veículo, quando qualquer desnível deveria ser construído do portão da sua residência para dentro. Há ruas, em Taubaté – e são muitas – em que o pedestre não pode transitar de tanto desnível entre as calçadas de uma residência e outra. São comuns desníveis de até 50 centímetros entre uma propriedade e outra, que impossibilita o trânsito das pessoas que estão a pé. Isso é falta de respeito público. Quem construiu só pensou em si, e o órgão público que deveria fiscalizar também desrespeita porque não leva o problema em consideração.
Nossas ruas são concebidas para o trânsito de veículos. Não há preocupação com os pedestres. Ou então para os freqüentadores contumazes de alguns bares do centro da cidade, que têm total precedência na ocupação da calçada. Em Taubaté, a prefeitura municipal teve o desplante de reduzir a largura de uma rua – quando que no mundo inteiro a tendência é de alargar as vias públicas – para favorecer um bar bem freqüentado, o que não causou a menor polêmica entre os formadores de opinião da cidade, grande parte deles freqüentadores do referido boteco. Falta de respeito público.
O motorista médio – há honrosas exceções – não respeita o pedestre na faixa de segurança, não tem a menor gentileza para com ele, sente-se dono da rua, o que parece que realmente é, graças à mentalidade moderna que coloca a máquina acima do homem. Sente-se ofendido quando o pedestre, no exercício do seu direito de atravessar na faixa em locais onde não há sinalização luminosa, e acelera seu possante no intuito de assustar aquele que o desafia em seu território. O motociclista vem como um louco e vendo o pedestre iniciando a travessia, mesmo estando a 50 metros de distância, acelera a máquina para colocar o infeliz em polvorosa com medo de um atropelamento. São assassinos em potencial.
Não temos ilusão de que a nossa cultura mude em pouco tempo. Ela só muda se mudar a educação. As pessoas precisam ser educadas, no dia a dia, com o poder público sendo responsável por essa missão. Mas enquanto o motorista e o motociclista não aprendem, é preciso fiscalização. E muita fiscalização. Não só no que diz respeito ao trânsito, mas nos calçadões, nas praças, de dia e de noite, para evitar os abusos perpetrados por essa gente sem educação. Aliás, a falta de educação, chega a ser, em nossa cidade, primitivismo. Procure passar por perto de bares bem freqüentados no centro da cidade, à noite, que você vai ver quanto primitivismo. Gente que pensa estar no mato, usando de paredes de residências, de estabelecimentos comerciais e de igrejas, para satisfazer às necessidades de desafogar suas bexigas, quando não o pior...
Deveria haver uma mentalidade de punição para essas pessoas e de denúncia por parte das outras que se sentirem desrespeitadas, seja no trânsito ou em outras áreas do convívio social. A pessoa humana é,em última instância, a atingida pela falta do respeito público e social.