terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Aborto: raciocinando com a cabeça deles. Ainda assim a Igreja tem razão

Henrique Faria

A discussão sobre a moral, a ética e a legalidade do procedimento abortivo levado a efeito no caso da menina de Alagoinhas-PE é muito mais profunda que a exposição irresponsável da mídia nacional, em flagrante insuflamento da opinião pública contra a moral católica. As grandes redes de TV, jornais e revistas, todos dirigidos e pensados por gente muito mais interessada nos lucros das suas audiências e veiculações, totalmente desprovida da ética que recomendaria cautela e responsabilidade na forma como divulgar tal notícia, não perderiam nunca esta oportunidade de promover uma onda de revolta contra a Igreja Católica. A eles não interessa o debate coisa nenhuma. Eles gostam é do foguetório.
Há vários aspectos a serem considerados. E não seria possível em tão pouco espaço defender com argumentos jurídicos, embasados pela própria legislação brasileira, a posição do arcebispo de Olinda-Recife, dom José Cardoso Sobrinho, o personagem mais combatido nesse episódio. Nem o estuprador mereceu tamanha indignação.
É crime, sim, perante a lei
E como há muitos católicos revoltados com a excomunhão do médico que interrompeu a gestação dos dois embriões, bradando em coro com a mídia imoral a favor desse procedimento cirúrgico, acho interessante enfocar alguns aspectos sobre a questão, lembrando sempre que a minha reflexão não se esgota nesta página de jornal.
Primeiro, há que se considerar o seguinte: em nenhum código de leis brasileiro está escrito que o aborto é permitido em caso de estupro. O Código Penal Brasileiro, que deu guarida ao procedimento abortivo, não é um código de direitos. É um código de crimes. Ali estão elencados os procedimentos criminosos e as penas a que estão sujeitos. O artigo 128, I e II do Código Penal não diz que o aborto neste caso “não constitui crime”, mas que “não se pune” o aborto nessas circunstâncias. Ou seja: o aborto necessário (provocar o aborto se não há outro meio de salvar a vida da gestante) e o aborto ético ou humanitário (se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, do seu representante legal), como a doutrina chama estes tipos de procedimento, é crime (Art. 126 que diz que é crime “Provocar Aborto com o consentimento da gestante”.). E quem o pratica, ainda que não seja punido, pela proteção do art. 128, é criminoso.
Só se conhece um criminoso
Por outro lado, veja bem. A prática do aborto ético ou humanitário não depende da condenação do estuprador. Claro. Se tivesse que esperar a sentença, a criança já teria nascido e, conforme o caso, já capaz de cantar o Hino Nacional, ou de fazer contas com regras de três. Mas, se não houve sentença e não transcorreu o trânsito em julgado (impossibilidade de recursos), como se pode afirmar que houve um crime e um criminoso?
Eu sei que você vai rebater que o que está em questão não é a figura do estuprador, mas do estupro. Correto. Houve uma criança, menor de 14 anos, que engravidou. A violência se presume, conforme reza o art. 224 “a” do CP. Portanto, houve o estupro. Mas o estuprador não se conhece, ainda, perante a lei. No caso da menina de Alagoinhas-PE existe um indiciado. Mas ainda não existe um culpado. Então, ainda não é o momento de se execrar o padrasto. Alguém se lembra da Escola Base, em que os mesmos meios de comunicação, que hoje se fingem de indignados com o caso de Alagoinhas-PE, destruiram pela irresponsabilidade da veiculação equivocada a vida de uma família inteira inocente? Além do mais, não é papel do cidadão execrar qualquer criminoso. Isso é prerrogativa do Poder Judiciário. Considerando friamente, em todo esse imbroglio só existe um criminoso conhecido: o médico que procedeu à cirurgia abortiva, que também é visto com compaixão pela bondade divina.
Raciocinando com a lei
Por outro lado, a posição da Igreja em defesa da vida infelizmente não tem o alcance civil. Na área civil a Igreja se limita a exercer o seu jus sperneandi em favor daqueles que estão com a vida em risco. Aliás, diga-se de passagem, muitos padres e bispos brasileiros, na época da repressão militar, colocaram suas cabeças a prêmio para defender muitos desses homens que nos meios de comunicação de hoje a criticam pela sua posição desfavorável ao aborto. Gente importante que hoje ocupa cargos de projeção no governo, ou que ocuparam – inclusive mulheres – , pegaram em armas, assaltaram, sequestraram, estupraram também. E, no momento em que se contorciam nos pau-de-araras dos órgãos de repressão, era de padres, bispos e leigos autenticamente católicos que vinham as ações concretas em defesa da sua dignidade e da sua vida. Muitos deles se esconderam em catedrais, conventos, colégios, casas paroquiais.
E, raciocinando com a cabeça deles – eles que se julgam racionais e acima de qualquer recaída emocional –, por que a Igreja não teria que defender também a vida de dois seres humanos em seu estágio de abrigo no ventre da mãe? Ora... É a Constituição da República Federativa do Brasil que lhes assegura “a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança...” (Constituição Federal, art. 5o.), porque é também a lei brasileira que diz que “a personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida, mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro” (CC art. 2o.). Ou seja, o direito à vida alcança os nascituros, isto é, aqueles que estão por nascer. Eles têm direitos. Mas não têm como se defender. E, à pergunta de qualquer um deles sobre “o que a Igreja tem a ver com isso?”, eu continuo raciocinando com a cabeça deles, respondendo que a Igreja, no Brasil, constitui uma pessoa jurídica, com CNPJ devidamente cadastrado.
A defesa da mamãe
Bem... E a menininha de nove anos que estava esperando os bebês?
Ninguém pode negar que era flagrante o seu risco. A incidência de mortes em grávidas adolescentes é um fator a ser considerado. E eu já cheguei a afirmar aqui nesta mesma página a inconveniência de uma gravidez precoce. Mas não aventei a hipótese do aborto diante das estatísticas que apontam o perigo.
O caso da nossa pernambucaninha era um fato consumado. Ela estava ao alcance da defesa. O seu próprio corpinho dava sinal de defesa. Era visível seu estado de perigo, de risco. Mas todo mundo via. De alguma forma ela se defendia. Chamava a atenção. E buscava, por si própria, pela sua situação externa o socorro que precisava. E, ainda que não querendo ser simplista, se o seu organismo conseguiu conceber e segurar o bebê, havia sinais evidentes de que seu risco era menor do que o dos embriões. Há incontáveis relatos na medicina de casos como esse, que meninas grávidas deram à luz bebês saudáveis e elas próprias sobreviveram ao parto. A medicina de hoje teria ainda muito mais recursos para acompanhar a gravidez da garotinha pernambucana e de proceder ao seu parto com sucesso, do que tinham crianças em igual situação que tiveram sucesso no nascimento dos seus bebês muitos anos atrás.
A excomunhão
Há ainda a celeuma da excomunhão (E eu tenho pouco espaço para discorrer). Ainda que, como disse alguns parágrafos atrás, tenhamos um criminoso conhecido, não temos um pecador constatado. Ninguém, nem o papa, pode afirmar que o médico seja um pecador a ser excomungado. A excomunhão, nesse caso, é automática. Mas atinge a pessoa que pratica o aborto, dependendo da sua liberdade de consciência e da sua consciência de gravidade do ato. Somente Deus sabe se ele faz parte ou não da comunhão eclesial. Não foi o arcebisbo de Olinda-Recife que excomungou o tal médico que, aliás, deu várias entrevistas afirmando a sua posição de católico praticante. E a mídia caiu de paus e pedras em cima de dom José, acusando-o, entre outras coisas, de “arcebispo cruel”. É verdade que no calor da emoção, oprimido pela sanha sensacionalista da imprensa, ele possa ter se expressado mal.
É da nossa índole católica – “veja como eles se amam” – prestar nossa total solidariedade a dom José, à garotinha de Alagoinhas-PE e à sua família. E, mais do que isso, lamentar profundamente o desfecho criminoso desta história, lembrando que a pressa, a mesma com que se “solucionou” o problema da pernambucaninha, é má conselheira. E que temos o dever de gritar contra qualquer outro ato desta natureza.
Desculpe-me o leitor se deixei a teologia de lado para raciocinar com a cabeça de quem finge que não acredita em Deus.

Um Natal sem poesia

Henrique Faria

Eu gostaria de escrever alguma coisa sobre o Natal que não fosse poesia. Eu até me dou ao luxo de alguns surtos poéticos de vez em quando, mas a coisa anda tão brava, que fazer poesia hoje, mais do que antes, beira a alienação. Ainda que o céu esteja cheio de alienados, prefiro ficar por aqui ainda por uns bons tempos, cumprindo o meu papel de chato por querer botar tristeza onde tudo é felicidade, mas que Deus entende – espero – que é com a melhor das intenções.
Exalto tanto a pobreza que parece que eu gostaria que o mundo fosse pobre só de “raiva” por eu não ser rico. Mas, meu Deus do céu... Por que Jesus teria que nascer na penúria em que nasceu? Mas nem uma casa para Maria dá-lo à luz... Nem uma pensão... Um hotel? Por que o seu cobertorzinho tinha que ser o bafo dos animais, seu bercinho um forro de palhas? As suas primeiras visitas um bando de pés-rapados, pastores que cuidavam de ovelhas durante a noite para que ladrões não as levassem? Aí, você me diria: “Ora, foi para ser solidário com a humanidade.” Eu lhe volto a pergunta: “Mas ele não poderia ter sido solidário com a gente na riqueza? Todo mundo rico, já pensou? E Jesus poderia ter nascido numa maternidade digna das mulheres dos campos de Alphaville ou da colina do Morumbi.
E pensar que era para ser assim... O que Deus fez no homem de mais bonito – e mais temerário – foi a sua liberdade, com todas as variantes que poderiam levá-lo à vida ou à morte. Pois bem. Jesus foi vítima da liberdade do homem, que Deus não criou como se fosse um fantoche seu. E o homem, ainda no seu estado original, preferiu usar a liberdade para afrontar o inafrontável. Escolheu ser deus – assim mesmo, com “d” minúsculo – ainda que isso lhe custasse as benesses do paraíso. Daí para a frente, quis sempre levar vantagem em tudo e sobre todos, alguns especializando-se em ser ladrões, alguns em exterminadores do próprio semelhante que lhes constituíssem óbice de suas espertezas.
A pobreza de Jesus vem daí. E a pobreza de todas as crianças que não têm uma maternidade de primeiro mundo para nascer vem também, porque, pode crer, leitor, para cada criança que nasce na miséria, existe pelo menos um adulto ladrão que lhe roubou o direito de ser rico, como o homem que Deus criou em seu formato original. Então, não acho que a pobreza de Jesus tenha sido um exemplo. Exemplo foi a coragem de Maria que, como tantas mulheres dos nossos dias, aceitou a sua concepção e o nascimento do seu filho, independente das condições em que o poria no mundo. Foi o desvelo de José que, com certeza, bateu em dezenas de portas com a sua menina barrigudinha, já nas horas de ter o neném, sem que tivesse acolhida. E eu o imagino dizendo à Maria: “Se ajeita aqui, meu amor, que vai passar... Vai dar tudo certo! Coragem! Eu estou aqui com você! Você vai ver: vai ser um meninão lindo. Você vai ver!” A pobrezinha já não tinha sorriso pra sorrir, mas não deixou de esboçar um riso doce para o marido, como que dissesse: “Ainda bem que você está aqui comigo...”
A pobreza não é indecente. É até poética... Indecentes são suas origens. E alguém consegue fazer poesia com opressão, dominação, exploração, roubo, exterminação, falta de escrúpulos? Não acredito que Jesus tenha nascido pobre para nos mostrar isso. Mas mostrou.

Natal: o milagre

Henrique Faria

De hoje para amanhã nasce um dia mágico, encantador, poético no mais tradicional jargão da sociedade de consumo, da mídia que se assanha pelos resultados do seu faturamento, do mercado que contabiliza lucros estratosféricos de uma matemática em que 30% de um produto que custa 100 são 300. Daqui a poucos minutos o comércio se abre aos retardatários, aos desprevenidos e esquecidos, aos agradecidos de última hora que precisam retribuir um presentinho ganho no dia anterior. Os calçadões ficam intransitáveis, a massa consumista se espremendo entre sacolas, sacolinhas e sacolões; artistas de rua tentam seu 13º nas mais fantásticas representações de estátuas vivas; os marreteiros, driblando a fiscalização, oferecem seus produtos de qualidade duvidosa, e no camelódromo camelôs disputam a carteira do passante, quase honestamente, diga-se de passagem, com as últimas novidades da China atravessadas no Paraguai. No mercadão, donas de casa disputam pêssegos, uvas, abacaxis, melancias e melões, frutas bonitas que compõem a ceia de Natal. Brinquedos, roupas – muitas roupas! – lembrancinhas, panetones, frutas do inverno europeu para o nosso calor de 30 graus. Nos shoppings centers... Ah... nos shoppings centers, loucura total! Agora chamados de catedrais do consumo, os shoppings fazem o frisson da classe média. E tome cartão de crédito! Os que ainda têm crédito aproveitam as bancadas frigoríficas dos supermercados para escolher suas aves natalinas, devidamente congeladas há pelo menos seis meses, quando não desde o Natal do ano passado. Ali o espaço é mais democrático: os menos afortunados compram seus franguinhos, os mais ou menos o seu frangão (uma espécie de miniatura de peru que surgiu de uns anos para cá), os melhorzinhos, o seu peru, devidamente espetado com um termômetro que para não passar do ponto de assadura. E os ricos? Bem... os ricos não freqüentam supermercados e têm quem o faça por eles, mas apenas para o trivial, porque a ceia dos ricos varia muito: de um cruzeiro pelo nordeste, a festas fechadas de fina freqüência, eles não sabem o que é disputar a tapa uma fila de caixa ou um tour pelos calçadões.

Este é o encanto, a magia e a poesia do natal com “n” minúsculo. Porque, no Natal de verdade, não existe magia nem encanto: existe o milagre! E é o milagre que nos leva à Missa do Galo (que agora dorme com as galinhas) e já não se realiza mais à meia-noite. Nem por isso é menos Natal.

Mas ainda resta a poesia.

O nascimento de Jesus foi o momento poético supremo da história da humanidade. O milagre poético. A poesia que atingiu a excelência não alcançada pelo mais inspirado dos homens poetas. Deus é o poeta supremo que fez da vida a sua obra-prima, e de tão bonita que Ele achou, Ele mesmo quis fazer-se gente, nascer humilde e escondido, pobre, de uma mulher comum, uma menina aparentemente como as outras, como convém a todo enredo de poesia. A pobreza é poética. E por que a riqueza não rende tanta inspiração? É... Já reparou? A riqueza rende conforto, bem-estar, consumo, prazer, mas não rende poesia.

A poesia do Natal está no sentimento de fraternidade, de solidariedade, de partilha e de amor. Está na esperança de dias melhores. Na fé de que Deus está conosco na figura do Emanuel nascido em Belém. A pobreza fala mais perto ao coração. E é assim que vemos nesta época tanta gente – a maioria pobre – se preocupando com os mais pobres ainda, levando-lhes um pouco de alegria e da poesia do Natal.

A liturgia poética da Missa de Natal nos convida muito mais do que chorar ao cantar Noite Feliz, a fazer sorrir muita gente que não tem noites nem dias felizes. A levar a comunhão verdadeira àqueles com quem a sociedade não quer comungar. O milagre de Belém, que é a nossa comunhão de Natal, precisa acontecer em nossas famílias, em nossas comunidades, em nossas periferias, favelas e roças, fazendo nascer Jesus a todo dia. Não querendo transformar nossos pobres em ricos – afinal, foi Jesus mesmo quem disse que “pobres sempre tereis” – mas fazê-los sentir poesia na pobreza, minimizar-lhes a tristeza que se acentua no Natal, proporcionar-lhes alegria e esperança, não só no contato direto com eles, mas na nossa postura de cidadãos que precisam trabalhar com responsabilidade na transformação da sua situação de excluídos para a de cidadãos de primeira classe que têm direito às mesmas oportunidades de escolha, à mesma justiça que trata todos iguais, à mesma paz que lhes tranqüilize as famílias.

O milagre do Natal acontece todos os dias. Mas nós ficamos estatelados com a magia e o encantamento que a um simples toque de varinha nos faz voltar à realidade. É uma felicidade efêmera. O milagre, não! O milagre é duradouro.
Mas Jesus não faz milagres nem poesia sozinho. É preciso o nosso concurso. Nós precisamos ser os versos do seu texto, a inspiração do seu contexto, e pegarmos na mão de quem precisa, ajudando-o a escrever a sua história, inspirada na história do menino de Belém. Nós somos os instrumentos do milagre. E para cada pessoa que passar pela nossa vida carregando uma dor, uma tristeza, um sufoco, um desalento, precisamos escrever, com Jesus, uma poesia que retrate o milagre da sua transformação, de uma nova vida, um novo Natal que perdure para sempre.

Feliz Natal, queridos ouvintes! Que o Natal deixe de ser magia, mas não deixe de ser poesia. E que deixe de ser encanto para ser milagre!

Vergonha de Taubaté

Henrique Faria

Pode até nos parecer uma reflexão inútil o que nos propomos a conversar nesta manhã de sexta feira. Mas não é. No fundo, podemos encontrar causas e consequências que determinam nossa realidade nem sempre tão agradável.
Vamos falar de evolução, mas no seu sentido mais rasteiro. Nada de elucubrações filosóficas para concluirmos que ainda vivemos tempos jurássicos em determinadas áreas da sociedade, especialmente nas mais próximas de nós.
Não se concebe – pelo menos na cabeça de pessoas que têm seus neurônios um pouquinho mais acionados – que diante de tanta informação, tanta visibilidade de uma sociedade moderna na nossa mídia, especialmente na TV que nos mostra um estilo de vida mais adequado ao terceiro milênio, que existam pessoas – infelizmente, uma grande maioria – que não evoluem, trazem ainda resquícios do homem das cavernas, ou, na melhor das hipóteses, o estigma do jeca no seu comportamento urbano. Em todas as áreas. Até na Igreja.
Não bastassem os trecheiros, andantes, vagabundos – no seu sentido original, “aquele que vaga por aí” – há pessoas bem escoladas,” descoladas”, gente que já tem uma certa bagagem de informações sobre comportamento e civilidade, que concorrem para fazer da nossa cidade, infelizmente, uma das que oferecem a mais negativa imagem, especialmente no item higiene urbana, não só considerando a nossa região, mas numa abrangência geográfica muito maior.
A situação da praça Dom Epaminondas, o marco-zero da cidade, seu centro histórico e referência religiosa, comercial e econômica, é emblemática. Por ela se retrata a índole do povo taubateano. Evidente, caro ouvinte, que estamos falando pela média, e, com certeza, você não participa desta estatística. Quando nos propomos a fazer uma crítica social nós buscamos o atacado, não o varejo. A grande massa. E, se citamos a nossa praça central em nossa crítica, é mais pela sua condição de centro nervoso da nossa cidade, do que pelo aspecto pontual.
Mas quem circula por aquele logradouro durante o dia, se for taubateano na razão e no sentimento, sente um pouquinho de vergonha. Se for de fora, faz inevitáveis comparações com a sua própria cidade, relegando a nossa a um plano inferior. Com exceção da catedral, que nos remete à cultura e à história, e de um prédio ou outro, com mais aspecto de modernidade, convenhamos, a nossa praça central só não é mais feia que o mercadão, na zona central da cidade. A ocupação por barraquinhas de lata, ao melhor estilo das antigas quermesses de roça; aquela muvuca toda em que camelôs alardeiam os mais recentes lançamentos da pirataria nacional; os pombos imundos, portadores de piolhos prejudiciais à saúde e os cães sarnentos abandonados por seus donos; aquela rodela onde se armou um circo pretensamente moderno mas que se tornou abrigo para desocupados e ocupados em observar alvos de um possível ataque à bolsa ou à carteira do passante distraído; aquelas lojas misturando seu som estridente ao som do serviço de alto falante que paga seus impostos para transmitir sua publicidade e suas músicas; isso para não falar de gente feia que não hesita em jogar papel, goma de mascar, copinho de sorvete, guardanapo de lanche, panfleto de propaganda e outras tranqueiras no chão, como se estivessem no quintal da casa deles. Pior ainda: aquelas que fazem das paredes da catedral o remanso para a satisfação de suas necessidades fisiológicas menores, em plena luz do dia, porque, à noite... Ah... À noite... A praça se torna motel, zona de prostituição para homens mulheres, jovens e velhos, qualquer que seja a sua opção sexual; ou latrina para aqueles que perambulam pela madrugada. Não raro, em grupos de jovens que saem das baladas, meninas levantam suas saias ou vestidos e ali mesmo, na frente dos seus amigos, fazem o seu reconfortante xixi. A praça é uma colcha de retalhos de várias poluições: poluição sonora, poluição visual, poluição higiênica e o pior: poluição social.
E, infelizmente, o aspecto visual da Dom Epaminondas leva os pedestres a se sentirem desmotivados a mantê-la mais bonita e mais limpa. Ah... “Fala sério”, como dizem os jovens... Nem na época de Natal ela fica um pouco mais bonita. A maquiagem natalina pela qual ela passa no começo de dezembro só não fica mais feia por falta de espaço. Deus do céu! Será que alguém acha bonita a decoração de Natal da nossa praça central? Decoração? São cordões de luzes esticados a esmo, sem estética, insuficientes para ocupar toda a área da praça , colocados por pessoas simples, sem acompanhamento de profissionais, de qualquer jeito, sem senso estético e sem um projeto, rudimentar que seja, de decoração. Os enfeites natalinos da praça Dom Epaminondas são o retrato da nossa cidade, do nosso povo e da nossa administração. Aqui tudo é pequeno. Miúdo. Chinfrim. E, se ninguém fala nada, vai continuar sempre assim.
Você, caro rádio-ouvinte, que não faz parte dessa estatística desalentadora, pode estar nos perguntando, como aventamos no começo de nosso editorial, porque empregamos tanto tempo para uma reflexão neste sentido. Para nós, que somos uma emissora católica, onde entra Deus nesta história?
Ora, Deus é a beleza por excelência. E o feio não revela a presença de Deus. Brinadeitas à parte, parece que Deus fica fechado na catedral e não tem coragem de botar os pés pra fora. Note bem: quando falamos em feio, falamos de postura, não de estética, porque, a beleza sob o aspecto estético é relativa: o que para alguns pode ser feito, para outros pode ser bonito. E a feiúra que vemos em nossa praça extrapola o estético e representa a nossa postura, a estatura da nossa cidadania.
O quê fazer? Sabemos que conscientizar esse povo de que é feio tudo isso a que nos referimos é uma luta para ser travada por décadas, porque teremos que evoluir a nossa cultura. A medida urgente é abarrotar o gabinete do prefeito, que sempre demonstra boa vontade em solucionar os problemas da cidade, de reclamações e sugestões para uma fiscalização por 24 horas, mais eficiente, e que a própria administração pública dê exemplo de que somos um povo decente e educado.

Em defesa dos ateus: mais uma bobagem do Ministério Público

Henrique Faria

Pouco mais de uma semana atrás a mídia deu enfoque a uma suposta transgressão por parte do jornalista e apresentador José Luiz Datena que ao se referir a possíveis causas de determinada situação criminosa, fez duras críticas a determinados bandidos alegando que só poderiam ser ateus para terem cometidos certos crimes que cometeram. O Ministério Público Federal, certamente infestado de promotores que, provavelmente, também não acreditam em Deus, imediatamente ajuizou uma ação civil pública para pedir a retratação do jornalista, exigindo o dobro do tempo em que ele martelou sobre as malvadezas dos ateus para que os pobrezinhos, a minoria das minorias, pudessem ver a sua ideologia respeitada.

A classe atéia se assanhou toda e quem não sabia que existiam associações estruturadas, clubes, sites, enfim, que os ateus formam uma classe organizada, ficou sabendo. Ora... Sentir-se ofendido como minoria excluída passou a ser também dor de uma classe tão insignificante que, na verdade, ateu que é ateu nem dá bola pra torcida.

Ainda que não acreditemos na possibilidade de, pelo menos no último suspiro, o homem que se diz ateu conseguir manter a ideologia – ou... a falta dela – essas pessoas são mesmo uma minoria. E entendemos que o repórter, ao dizer “ateus” quis dizer “pessoas sem Deus”. Isso porque existem ateus que estão cheios de Deus, e crentes que não levam Deus no coração.

Não haveria tanta necessidade de a classe ateia se subverter desse jeito, já que, com certeza, a referência do apresentador não se dirigiu a eles. O que vem acontecendo no mundo inteiro, não só no Brasil, no Rio, ou nas favelas cariocas, é o ateísmo relativista, ou a ditadura do relativismo que não leva mais em conta a presença de Deus e das suas leis na sociedade. Deus é uma realidade social! E nós, que dizemos acreditar nele, fazemos muitas vezes como os ateus que relativizam a sua importância, reduzindo-o a um prisioneiro do sacramento, do sinal, do símbolo. Agimos como se Deus não conseguisse se libertar da hóstia consagrada e tomar conta da nossa vida que não se resume à liturgia dominical, às devoções pífias que não nos transformam e, quando muito, nos lançam nos braços de um Deus ainda crucificado, com o qual somos incapazes de ressuscitar.

Nós que acreditamos em Deus, com todas as evidências da sua presença na história e da sua existência na eternidade – antes e depois dos tempos – não conseguimos entender como uma pessoa não percebe a existência de uma inteligência suprema que criou o material. Nem achamos que os ateus devam acreditar no espiritual, no transcendente. Basta olhar o universo: é matéria. E como matéria foi criado. Não há como a matéria ter surgido do nada por sua própria força. Uma inteligência superior criou a perfeição do universo, mantendo planetas girando em perfeição matemática por milhares de milênios, até onde o nosso entendimento alcança. Basta olhar o ciclo da vida: é material. É impossível que tenha surgido do nada, por sua própria força, um gameta que desse origem à vida animal, seja do homem ou dos irracionais. Uma inteligência superior deve ter criado a perfeição da evolução uterina dos animais que, ao término de um período de amadurecimento, ganham a luz.

A classe dos ateus é minoria, mas é estridente. Eles estão plantados nos postos estratégicos da mídia, da intelectualidade, da cultura, do show-business, a maioria sentindo-se filósofos, donos e tiranos da verdade, menosprezando as pessoas que têm ideologia religiosa, o que eles não têm . O grande problema dessa classe que se diz atéia é que a sua moral também é relativa. Por cultura ou por conveniência.

Acontece que a moral religiosa que eles abominam é determinante no comportamento da sociedade, como um fator agregador da família, do respeito entre os semelhantes, a honestidade, a solidariedade entre as pessoas, a justiça, a paz. A moral religiosa é diferente da moral da lei. Ela nasce da fé. A moral da lei nasce da disciplina. E se a disciplina configurasse a sociedade a uma cultura de estabilidade familiar, respeito entre os semelhantes, honestidade, solidariedade e justiça, os homens não teriam a paz tão ameaçada, aviltada, corrompida. Se a moral da lei fosse eficaz, esses bandidos não circulariam por entre as ruas de nossas cidades e os becos de nossas favelas com tanta desenvoltura, espalhando o terror, a destruição e a morte; nossos presídios não estariam abarrotados e as nossas estatísticas não seriam tão escandalosas no que se refere à criminalidade.

Então... É possível que a referência de José Luiz Datena tenha sido a “pessoas sem Deus”, ou, numa linguagem mais laica, “sem moral religiosa”. Ou você acha que uma pessoa com Deus no coração agride o semelhante, trafica, assalta, mata, estupra, corrompe, sequestra?

A discussão que o Ministério Público Federal levanta ao querer defender a minoria dos ateus não faz o menor sentido a não ser o de estar perdendo tempo e criando factóides para os spots da mídia e deixando de se preocupar com temas muito mais importantes.

Reflexões sobre a ocupação do Complexo do Alemão

Henrique Faria

A situação de guerra em que se encontram os morros cariocas nos levam a algumas considerações pontuais. Seria muita pretensão e talvez até mesmo temerário querer esgotar em um espaço de tempo tão limitado uma análise mais profunda levando em conta as condicionantes antropológicas, sócio-culturais, econômicas e políticas que determinam o caos em que se encontra a mais bonita cidade do Brasil. Portanto, nos limitamos a uma reflexão fechada em determinados pontos que achamos serem importantes.

O Rio de Janeiro já se encontra há mais de 30 anos covardemente entregue ao domínio do tráfico. Menos pela incapacidade e poder de enfrentamento, mais pela violência não só das armas dos traficantes, mas da corrupção política, policial e da própria comunidade que se alinha à bandidagem em troca de favores e proteção. Os papéis se inverteram nas favelas cariocas. As pessoas honestas são reféns e, não raro, vítimas inocentes de uma guerra que não provocaram. Os bandidos circulam livremente de armas em punho – armas pesadas e de grande poder de fogo – no comércio de drogas a céu aberto, na libidinagem dos bailes funks, nos arrastões em grandes avenidas, túneis e praias da cidade. O país assiste, inerte, pelos telejornais, as cenas que há menos de duas décadas só se viam em filmes de Hollywood. Não parecem ser verdade. Beiram o surrealismo fantástico. E aos poucos a opinião pública vai se aculturando com a violência carioca, deixando-se introjetar na cultura do crime, da violência e da morte, como se fossem parte da paisagem do Rio de Janeiro. Os tiroteios que se veem nas favelas do Rio tornaram-se cenas banais que já não chegam a sensibilizar a grande massa de povo. O telespectador assiste com a mesma indiferença a guerra no morro e os traillers dos filmes policiais – com explosões de carros voando pelos ares – que a TV anuncia para a noite do domingo. Bem... Pelo menos de uma semana passada para trás.

Hoje, configurada a guerra, em seu sentido amplo, filosófico e estratégico dos três lados – governo, traficantes e o lado podre da falsa repressão – com os bandidos do tráfico acuados no Complexo do Alemão e os bandidos da Banda Podre da política e da polícia ainda circulando impávidos pelo teatro da guerra, parece que reina relativa tranqüilidade entre as comunidades dos morros cariocas.
Coincidência ou não, a expectativa das Olimpíadas para 2012 e a final da Copa do Mundo para 2014, juntamente com a repercussão do filme Tropa de Elite 2, concorre, quer queiram ou não para uma ação decidida dos governos estadual e federal na ocupação do Complexo do Alemão, com um plano que deu resultado e demonstrou que é possível enfrentar a bandidagem. Foram necessárias milhares de mortes, famílias desfeitas, jovens desfigurados pelo vício, crianças aliciadas pelo tráfico, meninas empurradas para a prostituição, durante pelo menos trinta anos, para o governo tomar uma atitude concreta. Nem se trata de uma atitude corajosa, porque é dever do estado dar proteção aos cidadãos.

Guerra é guerra. Abominando os excessos, evidentemente, temos que admitir que a ocupação do território do tráfico não deve ser feita com gentilezas. Se preciso for, até a morte é permitida, cuja justificativa encontramos até mesmo no pensamento teológico de São Tomás de Aquino. E, aqui entre nós, somos tentados a pensar que só matando é que se resolve a situação. Ou, melhor ainda, a admitir que “sem sangue não há redenção”. Não acreditamos que com negociações se consiga estabelecer a paz na cidade do Rio de Janeiro. Já se sabe que uma trégua, sim, é possível comercializar com os traficantes, como o governo carioca conseguiu por ocasião dos Jogos Panamericanos. Mas é uma solução paliativa. Agora é enfrentar o tráfico de igual para igual, até na violência. Aliás, o poderio bélico do estado é infinitamente superior às armas desses bandidos, e o serviço de inteligência tanto das forças armadas quanto das polícias civil e militar dão de dez a zero nesses traficantes com neurônios de ameba, que só venceram até agora pela força, pela violência, pela corrupção ativa, pelo achaque, pela extorsão e, principalmente, pela covardia do estado que até então os deixara agir com ações pífias de combate.

No cerne de tudo isso está a falta de educação do povo carioca, não no sentido pejorativo que acostumamos empregar o termo, mas na carência de uma educação básica de qualidade nas escolas, que ensine ao alunos desde pequenininhos a gostarem de coisas mais nobres, que não se limitam ao samba malandro, ao funk depravado, à violência no esporte, à cultura do gersonismo, impregnada na cultura carioca em que todos querem levar vantagem; à cultura da malandragem segundo a qual desde criança já se tem um balanço no corpo, típico da nata da pilantragem. Escola de tempo integral. Ensino de música clássica. Prática de esportes competitivos. Ensino do xadrez. Ensino de boas maneiras. E... principalmente, o ensino de Deus.

Uma família que tem mais intimidade com Deus não se desintegra tão facilmente e não expõe seus filhos ao mundo-cão dos traficantes. Mas... Como falar isso para essa gente em meio a esses tiroteios, invasões de suas privacidades para se encontrar drogas e bandidos? Infelizmente essa guerra tem que continuar até que caia o último arsenal, o último depósito de drogas, o último traficante, seja na cadeia – de preferência – seja da maneira que for. Guerra é guerra. E, no caso do Rio de Janeiro, não nos parece ser possível a libertação sem que ela aconteça. Por enquanto, as forças armadas e as polícias do Rio estão fazendo uma guerra de inteligência, que é muito mais próxima da linguagem de Deus.

Mas a linguagem de Deus – mesmo – está numa ação social determinada por parte do governo. O estado, dando dignidade aos cidadãos está falando a língua de Deus. Praticando a justiça tributária, dividindo a renda com equidade e as oportunidades com igualdade, está falando a língua de Deus. Promovendo uma política sustentável de meio-ambiente, infraestrutura sanitária, atendimento digno nos postos de saúde e hospitais, colocando os jovens na universidade, dando condições de o cidadão descansar um pouco e se dar ao luxo de um lazer de vez em quando, está falando a língua de Deus. Um povo educado, saudável, seguro, de bem com a vida apesar da exigüidade dos seus recursos financeiros, é um povo feliz. Meio caminho andado para ser um povo de Deus. Quem sabe essa guerra acabe logo e Deus volte a fazer do Rio a Cidade Maravilhosa de sempre....

Pavimentando a estrada para o Reino

Henrique Faria

A celebração da Festa de Cristo Rei no próximo domingo reveste-se de um significado muito especial não só para a Igreja, mas para todo o mundo. É interessante notar um pequeno detalhe que nos escapa quase sempre à reflexão quando somos chamados a nos lembrar do reinado de Jesus.

Primeiro, pela decepção dos judeus com o seu Messias, que estava ali naquela cruz, humilhado como qualquer bandido, a ponto de lhe colocarem uma inscrição no madeiro, “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”. Deboche! Sarcasmo! A cruz é que o “tal rei” merecia pela sua “sandice“ de se arvorar em rei. Para aquela gente que se divertia com a condenação daquele homem a quem, mesmo sabendo que não era um criminoso, era uma festa ver crucificado aquele louco que lhes frustrara as expectativas de uma libertação do jugo romano. Não existia o ódio popular naquele momento. Era “apenas” o deboche levado às últimas consequências.

Por um outro lado, havia dois outros crucificados ao lado de Jesus. Um, que não obstante a sua condição de extrema dor e humilhação, fazia coro com a multidão, desafiando a realeza de Jesus e o seu poder, instigando-o a se mostrar poderoso e se salvar a si mesmo e a eles dois. Outro, que creu, e apelou a Jesus para que dele se lembrasse quando estivesse no Paraíso. Não consta que Jesus tivesse dado alguma resposta ao primeiro. Mas ao segundo, prometeu para aquele dia mesmo a salvação.

Jesus já havia dito a Pilatos que o seu reino não é deste mundo. A sua condenação, entre outros motivos, não foi determinada pelas acusações que lhe eram atribuídas. O governador sabia que ele era inocente. No entanto, atendendo a apelos meramente políticos, querendo manter as boas relações entre o Império e seus súdito judeus, Pilatos acovardou-se. Não reconheceu juridicamente a inocência do acusado, embora a tenha defendido de fato, e, o pior: alinhou-se ao descrédito daquela gente que não aceitou o reinado de Jesus como um reinado que não é deste mundo.

Jesus falou à exaustão o que seria o reino de Deus, o reino dos céus. Passou toda a sua vida pública explicando isso ao povo, demonstrando seu poder ao conferir milagres, curando, ressuscitando, multiplicando pães e peixes, acalmando tempestades, andando sobre as águas, transformando água em vinho, enfim, realizando maravilhas concretas que por si só deveriam ter feito crer aquele povo duro, teimoso. Jesus não se contentou em ficar filosofando sobre as belezas e as delícias do reino dos céus. Ele deu provas concretas do seu poder para que aquele povo visse quem realmente ele era e que o que pregava tinha o lastro de verdade manifestado em suas obras.

Mas o povo não entendeu. E não entende até hoje. E até hoje debocha da sua loucura de querer que o homem siga na contramão do que caminha a humanidade, que busca na realeza do prazer, do poder opressor e egocêntrico, da cultura da concentração da riqueza em vez da multiplicação dos bens e das oportunidades, que instala aqui mesmo a terra da bem-aventurança, como se o reino da felicidade se extinguisse no seu último suspiro e num punhado de terra que lhe cobre a carcaça já inerte.

Ainda hoje, todos nós contribuímos para instalar na nossa própria cruz uma placa que satiriza o reinado de Jesus. Ao enfrentarmos a dor e o sofrimento, fazemos, às vezes, coro ao deboche popular, tentando negociar com Jesus, instigando-o a, se tiver poder de verdade, arrancar do nosso peito aquela dor, ou da nossa carne aquele sofrimento. E não fazemos como o bom ladrão que, sem vociferar contra a sua dor, acredita no reinado de Jesus e simplesmente lhe pede que se lembre dele quando estiver no Paraíso.

Está na hora de deixarmos de lado aquelas fantasias de ver um Jesus coroado, sentado sobre as nuvens, incensado por anjinhos louros e morenos, ladeado por outros que dedilham cítaras e tocam trompetes, para identificarmos em nosso dia a dia o reino de Jesus que, mesmo não sendo deste mundo, tem inicio aqui e aqui começa a ser construído. Os sinais do seu reino são muito claros e possíveis de ser identificados até mesmo entre os bons ladrões que nos rodeiam, gente que não obstante a loucura da multidão que debocha de Jesus a todo momento, faz a sua parte não só de crer num reino de felicidade, que não é deste mundo, mas de acreditar que é aqui e agora que temos de pavimentar essa estrada real com as bases da justiça, da igualdade, da partilha, da solidariedade, do amor e da paz.

Assim é possível reverter o deboche secular, que extrapolou os limites da Judéia, para inscrevermos na cruz de Jesus, que agora tomamos por nossa cruz, uma nova mensagem: Jesus Cristo, Rei do Universo!

Que Deus abençoe a nova Presidente (e não leve em conta que...)

Henrique Faria

Acho que representa muito pouco para a consciência do cidadão brasileiro, especialmente para os nossos leitores, ficar martelando sempre a mesma coisa, espezinhando a classe política que detém o poder em nosso país. Mas eu não me sentiria tranqüilo sem comentar sobre o estelionato eleitoral que elegeu a primeira mulher presidente do Brasil.
Fazendo pose de santa, dias antes das eleições do segundo turno, Dilma Rousseff foi ao Santuário Nacional de Aparecida, onde não conseguiu representar o que, para ela, era um mera encenação teatral e que, para nós, chamamos de liturgia. Dizendo-se devota de Nossa Senhora Aparecida – acho que aqui no Brasil, porque se fosse em Portugal seria Nossa Senhora de Fátima que, para ela são duas “santas” distintas – bem... dizendo-se devota de Nossa Senhora Aparecida, afirmou nunca ter ido à capital mariana do Brasil. Ao lado do então eleito deputado federal, Gabriel Chalita, que frustrou a expectativa e a esperança dos mais de 560 mil paulistas que acreditaram num candidato ainda não inoculado pelo vírus do fisiologismo – Dilma Rousseff não sabia fazer o sinal da cruz e nem o momento de fazê-lo na celebração. Católica desde pequenininha, e tão católica quanto o dom Carmo torce para o Grêmio, em seu primeiro discurso oficial como presidente eleita disse 1.090 palavras sem que em nenhum momento pronunciasse o nome de Deus. Mas nem para dizer “se deus quiser”, como dizia FHC confessadamente ateu, não se prestou.
Bom... Nós não precisamos necessariamente de um presidente católico. (E, para falar a verdade, existem católicos na política só fazem a gente passar vergonha... ). Ser ateu não é defeito; acho que é ignorância. E Deus gosta dos ignorantes. Se a nova presidente for só ignorante, tudo bem. Vai exigir um esforço maior do Espírito Santo – claro! – mas ele, com certeza iluminará os seus caminhos. O problema é se ela rezar na cartilha fascista do seu partido.
Há alguns “defeitos” que admiro na nova presidente. O principal deles é o ser “sargentona”. Alguns anos atrás, num artigo singelo escrito para o “Coração de Estudante” (jornal dirigido aos adolescentes do segundo grau, na década de 1980), em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, minha filha Aline, então com catorze anos, concluía assim: “... e se o Brasil ainda não deu certo, é porque ainda não foi governado por uma mulher.” Sábias palavras. E eu assino embaixo. Pois eu vibraria vendo a “sargentona” Dilma Rousseff dando um murro na mesa e dizendo para os escroques petistas: “Chega de brincadeira! Aqui quem manda sou eu!”. Eu juro que vou me arrepender por não ter votado nela, da mesma forma que me arrependi por ter votado no Lula em 2002.
É... porque um dia após as eleições, seu criador já vinha dizendo: “Eu gostaria muito que Guido Mantega e Henrique Meirelles fossem mantidos no próximo governo...”. Poucos dias depois, com toda a candura que lhe é peculiar, Lula volta a sugerir: “Paulo Bernardo e Nelson Jobim ainda têm muito a contribuir com o Brasil”, aventando a possibilidade de mais esses dois nomes serem reempossados no ministério da nova presidente.
Particularmente, acho quatro bons nomes e o presidente Lula deve a eles – todos remanescentes da política do governo de FHC – os 82% do seu índice de popularidade. O problema é a carinha do Luiz Inácio, com aquele sorriso cheio de barba. Fascismo puro. Ele, que, hipocritamente cedeu às tentações de um terceiro mandato, quer manter o seu fantasma no poder. Seja na pele da Dilma, do Palocci, do Zé, ou seja na de quem for.
O que todos nós temos que fazer é torcer para que Deus não leve em conta que ela não sabe fazer o Sinal da Cruz, e lhe derrame muitas bênçãos, como a tem abençoado há muito tempo, porque... para um “poste” ser eleito presidente da república, só por Deus...

Que Dilma abrace as ideias que inspiraram a Proclamação da República

Henrique Faria

A celebração da Proclamação da República do Brasil, que comemoramos na próxima segunda feira, reveste-se de significado especial neste ano. Passados 121 anos daquela tarde do dia 15 de novembro do final do século 19, em que pesem algumas especulações sobre os motivos que redundaram no golpe militar que pôs fim à monarquia, as ideias basilares em que assentam o nosso conceito de república continuam vivas.

Em primeiro lugar, a ideia de um território federativo, ou seja os estados não são independentes em última instância, devem ser regidos pelas mesmas leis e submetidos ao mesmo governante; em segundo lugar, a ideia de se levar em conta o bem comum e a prevalência da lei e da Constituição sobre os interesses individuais; e em terceiro lugar, a ideia de que o governo seja eleito pelo povo e tenha caráter transitório.

As eleições deste ano trazem à nossa reflexão alguns pontos fundamentais para que se avalie a nossa vocação republicana. Independente da figura da nova presidente eleita no último dia 31 de outubro, com a escolha de apenas pouco mais da metade do eleitorado brasileiro – ou seja, seu nome não foi um consenso nacional – nós temos aí uma nova governante que deverá dirigir os rumos do país a partir do próximo dia 1º de janeiro.

Este é um primeiro fato alvissareiro: foi exercida a democracia plena, quando ganhou a maioria técnica do povo brasileiro. Outro fato a ser levado em conta é a lisura do pleito: o Brasil se alinha entre as nações com o sistema eleitoral mais desenvolvido e mais seguro, até que se prove o contrário. A ratificação do resultado pela ordem e disciplina com que as forças adversárias receberam a eleição da nova presidente, sem as badernas e os conflitos urbanos, comuns nessas ocasiões em países tidos como bem mais evoluídos que o nosso, deve ser creditada também na coluna dos bons motivos que nos fazem acreditar no Brasil.

Mas, é voz corrente entre vencedores e vencidos que a república brasileira ganha um alento maior por ter elegido uma mulher para o seu primeiro mandatário.
Ainda que recaiam sobre Dilma Rousseff alguns senões sobre sua postura moral frente a algumas questões contundentes que atentam contra a vida, todos nós – os que votamos e os que não votamos nela – preferimos acreditar nas suas afirmações de campanha prometendo governar o Brasil dentro dos princípios da ética e da moralidade. Sobre sua pessoa recai também a fama de autoritária e intransigente. É possível que estas duas adjetivações possam ser canalizadas para uma administração ética, de poucos conchavos, poucos negócios, e os que tiverem que ser entabulados sejam dentro da lisura e da honestidade dos princípios que ela prometeu defender. Sem qualquer conotação discriminatória e preconceituosa, ouve-se com muita frequência o povo comum dizer que a mulher tem uma blindagem mais segura contra a desonestidade do que o homem. Sendo assim, vamos acreditar que, pelo menos em se tratando da nossa nova presidente, seja verdade essa premissa que, aliada à sua autoridade e intransigência os homens (e mulheres) corruptos, imorais e inescrupulosos,que circulam pelos corredores do Planalto, pensem duas vezes em tentar cooptar o novo governo à sua rede de prostituição política em detrimento dos interesses do povo brasileiro.

As ideias básicas que inspiraram a proclamação da república sejam também fonte de inspiração para os próximos quatro anos, fazendo de nossa república federativa uma grande família onde todos os estados tenham as mesmas oportunidades de progresso, sejam acolhidos pela mesma mãe e dela recebam o mesmo carinho e a mesma atenção; onde a Constituição federal seja respeitada, principalmente como uma Carta da qual defluem a soberania do nosso país, a cidadania de que são portadores todos os brasileiros, o respeito à dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, o pluralismo político, e principalmente a prevalência da lei sobre os interesses individuais; e que o caráter transitório conferido ao governo pelo conceito republicano não seja afrontado pela máscara do continuísmo, legando à nova presidente as mazelas do governo que se encerra, mas tão somente as suas conquistas sociais e econômicas, porque, pela sua atuação no campo político, na política fiscal e previdenciária, na gestão de uma política sustentável para o meio ambiente e principalmente no que se refere à ética e à moral, o governo agonizante ainda ficou muito a dever ao povo brasileiro.

Que Deus abençoe a nova presidente, ainda que Ele não tenha sido lembrado nas 1.090 palavras do seu primeiro discurso oficial após a sua eleição, e que ele faça latentes no coração de Dilma Rousseff as primícias de um coração de mãe, que, quem sabe, por ser mulher tenha mais sensibilidade com o sofrimento do povo brasileiro, com a igualdade com que deve ser tratado – assim como filhos iguais pela mesma mãe – com a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, princípios básicos que inspiraram a proclamação da nossa república.

Deus salve a República!

O meu jeito de ver o Coração de Jesus

Henrique Faria

A Igreja dedica, todos os meses, a primeira sexta-feira ao Sagrado Coração de Jesus. Trata-se de uma devoção antiga, que remonta aos primeiros séculos da Igreja, reacendida na Idade Média, tornada festa pública em 1670 por São João Eudes, e definitivamente popularizada por Santa Margarida Maria Alacoque a partir de 1673, quando foi dado o grande impulso na formação de uma equipe com o objetivo de tornar mais conhecida: o Apostolado da Oração. A partir daí surgiram várias congregações religiosas que tinham por carisma principal o culto ao Sagrado Coração de Jesus. O que realmente representa esta devoção?

Há uma tendência moderna que paira sobre a Igreja, em atribuir a uma devoção qualquer a pecha de devocionalismo vazio na contramão de uma fé comprometida e engajada, como se diz na linguagem de hoje para definir a fé não simplesmente como um ato de acreditar em Deus e em suas verdades, mas como um compromisso de vida em viver intensamente as verdades de Deus no nosso dia a dia e não em meros arrebatamentos, que nem sempre têm origem no nosso coração.

No entanto, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus não é uma devoção qualquer. É muito mais do que uma simples manifestação devocionalista. É o nosso contato com a humanidade de Deus que se revela bom, justo, solidário, misericordioso, compassivo na pessoa de seu filho Jesus. E entendamos Jesus aqui como um homem, uma pessoa histórica, que viveu concretamente, que teve tristezas, alegrias, coragem e medo, fome, sede, cansaço, que se sentiu decepcionado com seus amigos e que se sentiu feliz no meio deles – às vezes até dividindo com eles o prazer de um bom copo de vinho – que se sentiu traído, como nós nos sentimos em todos esses fenômenos que nos fazem seres humanos. Jesus foi gente como a gente. E é no seu coração que Deus – um ser transcendente que poderia se constituir em um mito inatingível e inexplicável, se por sua infinita bondade não se encarnasse e não descesse até nós no tempo e no espaço – nos comunica a sua atenção de pai para conosco. De pai mesmo, que quer o nosso crescimento saudável, o nosso progresso, a nossa segurança, o nosso bem-estar, o nosso bom relacionamento com nossos irmãos, a nossa mesa farta, o nosso sono tranqüilo, a realização dos nossos sonhos, o reconhecimento do nosso valor e a justiça dos nossos atos. O Coração de Jesus é o sacramento do amor de Deus para com as suas criaturas mais queridas.

Diante dessa realidade – vamos aplicar aqui a redundância: “realidade real” e não uma “realidade virtual” – não há porque nos enveredarmos por elucubrações teológicas para explicar a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. A presença do Coração de Jesus em nossa vida é palpável, visível, por isso “sacramento”. Não é um encantamento como em grande parte de nossas poesias e hinos atribuímos a sua presença no meio de nós. Ela é a concretização do amor de Deus na nossa vida – concretização mesmo, que não se limita ao desconhecimento do abstrato. O Coração de Jesus é especialmente o dom do amor divino. E é do dom do amor, com que Deus se humaniza em nós, que decorrem todos os outros dons com que nos divinizamos nele: a fraternidade, a justiça, a misericórdia, a partilha.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus não se explica. Se vive. Se encarna. Por isso, pouco representa para Deus o hábito de comungarmos nove primeiras sextas feiras seguidas, ou de assistirmos à missa nas primeira sextas feiras do mês, ou de empunharmos o estandarte do Apostolado da Oração ou de fazermos de colar aquela fita vermelha e branca, se não conseguimos enxergar o Pai no Coração dilacerado de Jesus, que é também, às vezes, o nosso coração dilacerado, ou um coração cheio de amor que não deixamos transbordar como transbordou o sangue de Jesus. Ser devoto do Coração de Jesus é nos aproximarmos da divindade da mesma forma com que Deus, nele, se encarnou na nossa humanidade. Aproximarmos da divindade do Pai é, pelo menos, correspondermos ao seu projeto original que nos construiu à sua imagem e semelhança. É buscarmos no Coração de Jesus – a ponte entre o Deus, que achamos inatingível, e nós – os dons com que ele nos contempla, aproximado-nos da sua imagem e semelhança: o dom da santidade, que nos faz bons, corretos, generosos, caridosos, amorosos no aqui e agora, na nossa família, na nossa comunidade, no exercício da nossa cidadania, no estender a mão a quem está caído, no oferecer o pão a quem tem fome, a roupa aos mal vestidos, no esforço sobre-humano pela cura de quem está doente – sim, porque nós temos o poder de curar – na paciência com quem achamos inconveniente, na compaixão pelos que não conseguem se levantar, no dividir a alegria com quem faz sucesso, enfim, no nos colocarmos no lugar do outro como Deus se colocou no Coração de Jesus.

Esta nossa preocupação de nos fazermos entender sem as firulas teológicas que explicam os mistérios do Coração de Jesus sem que nos expliquem de fato, são uma forma de mostrar concretamente que esta devoção nos leva a algo mais do que encantador: à realidade concreta da presença viva de Deus Pai entre nós, solidário conosco na humanidade de Jesus. A partir desta realidade – não se trata de uma idéia, mas de uma realidade – entendemos que não é tão inatingível assim a realização do sonho de Deus em nos fazer semelhantes à sua imagem.

Os santos que ignoramos

Henrique Faria

Duas datas envolventes iniciam o mês de novembro: a Festa de Todos os Santos e o Dia de Finados. Talvez por uma sequencia lógica devessem estar em dias trocados, tendo o dia dedicado à memória dos mortos precedendo da festa daqueles que gozam no céu a eterna bem aventurança. Mas no que se trata de eternidade não há lógica. A lógica organiza a razão e o que é eterno transcende o racional. Por isso vamos continuar assim: primeiro os santos, depois os simplesmente falecidos. Nós vamos, hoje, deixar a saudade de lado, para falar da alegria da morte: a passagem do estado natural em que vivemos para a vida transcendental. Vamos falar de todos os santos.
A Festa de Todos os Santos, que a Igreja celebra no primeiro domingo de novembro, é colocada no calendário litúrgico não para reunir os santos de nossa devoção num dia só. Os santos canonizados já têm o seu dia, festejados de janeiro a dezembro, todos eles com a memória incluída nos cultos diários, ainda que alguns se privilegiem de comemorações mais entusiasmadas, como é o caso de São Francisco, Santa Teresinha, São Benedito, São Pedro e São Paulo, Santa Rita de Cássia e muitos outros, alguns até com feriados municipais para alegria dos assalariados que gostam de uma paradinha no meio da rotina mensal do trabalho.
O dia de Todos os Santos é dedicado à memória daquelas pessoas que já se foram e que constituem exemplos de vida, de heroísmo, de dedicação ao próximo, à causa do evangelho. São santos anônimos que não receberam o status de canonizados, que não figuram entre os nomes do “Cânon” da Igreja. São os santos que conhecemos aqui na terra e que ignoramos como santos na eternidade. São pessoas que viveram aqui – algumas até mesmo sem se darem conta de que viviam uma vida evangélica – tendo o evangelho das bem aventuranças como o seu projeto de vida, ou a passagem de Mateus em seu capítulo 25 dos versículos 31 a 45, em que traz o resumo da salvação e a catequese da santidade, quando Jesus se coloca no lugar dos miseráveis e pequeninos para nos dar uma chance de lhe amenizar a fome, a sede, o frio, de cobrir-lhe a nudez, de lhe buscar a cura, e satisfazer a sua necessidade de uma visita.
São pessoas que andaram ao nosso lado, que fizeram da nossa vida o centro da importância da sua própria vida, ou foram aqueles que passaram ao nosso lado e não lhes demos importância porque, aqui na terra, eles não passavam de figurantes do nosso descaso. Quantas pessoas passaram pela nossa vida a quem nem imaginávamos estar preparada a glória da eterna bem aventurança. Esses santos foram as crianças, mártires da fome ou da desnutrição; os doentes a quem negamos o nosso sangue, que morreram porque não houve tempo de uma transfusão ou de um transplante por falta de compatibilidade; os jovens que esquecemos de abraçar, mas que procuraram, mesmo depois de alguns tropeços nesta vida, a superação e a reconquista da dignidade; as velhinhas que abandonamos nos asilos, mas que não largavam do seu tercinho, rezando pela salvação do mundo e, quem sabe, pela ventura de nos dar um abraço no céu para nos agradecer a oportunidade de tê-las abandonado nos braços de Deus; são os velhinhos chatos que se implicavam com as nossas bobagens da juventude e que diziam que um dia iríamos pagar por aquilo.
Entre os todos os santos que celebramos, estão a nossa mãe, que se anulou totalmente pela nossa vida, que nos permitiu nascer e que fez festa quando botamos a nossa carinha no mundo; o nosso pai, que se virou em cinco ou seis, trabalhando como um doido para nos dar a formação que temos hoje; são os dois juntos, abraçadinhos, rindo das nossas peripécias aqui nesta vida e da surpresa que vamos ter quando nos encontrarmos com eles; a nossa vovó, que foi mãe duas vezes, acabando de criar a nossa própria mãezinha que sempre lhe pedia socorro quando não se achava capaz de correr sozinha com as nossas necessidades de crianças doentes.
Entre os santos que celebramos, estão pessoas que nos causarão surpresa – algumas que diziam até que não acreditavam em Deus – que viveram, mesmo sem saber, o carisma das bem aventuranças, pobres de espírito porque viveram apenas em função dos outros, se dedicaram à causa da justiça e foram perseguidas; aquelas que, mesmo passando a vida chorando conseguiram sublimar as suas lágrimas; aquelas que fizeram da mansidão a sua marca indelével e da misericórdia, da compaixão, da generosidade, da partilha uma rotina em sua vida vislumbrando no próximo o centro da sua existência; aquelas das quais ríamos de sua ingenuidade, de sua pureza, de sua falta de maldade; aquelas que procuraram promover a paz.
Entre esses santos estão aquelas pessoas que deram de comer a quem tinha fome, de beber a quem tinha sede; que deram abrigo aos desamparados; que vestiram os descamisados; que se preocuparam com os doentes e os encarcerados, mesmo sem saber que na pessoa desses desvalidos estava o próprio Jesus que, talvez, tenham reconhecido apenas na eternidade.
Entre esses santos estão todas as pessoas de nossa convivência e de nossa história, que a Igreja não privilegiou com uma estátua nos altares. Mas, tenha absoluta certeza, eles estão de igual para igual com aqueles santos que veneramos hoje aqui na terra, para quem fazemos festa, pedimos proteção e intercessão. Eles são todos santos e ninguém é melhor do que ninguém na bem aventurança eterna.

Lições do Primeiro Turno

Henrique Faria

As lições do primeiro turno do pleito deste ano nos levam a várias considerações. Infelizmente, entre elas, às que nos remetem à pouca seriedade com que significativa parte dos eleitores clicaram o seu voto na urna eletrônica, contrariando o nosso sonho de mudança e de segurança política para os próximos quatro anos. Ou você acha mesmo que um milhão e trezentas e cinqüenta mil pessoas foram sérias ao eleger como o deputado federal mais votado do Brasil a figura de um palhaço, refletindo-se exatamente no espelho das urnas a sua cara de analfabetos políticos, burros e imbecis decantados por Brecht em seu mais famoso texto? É evidente que aqui não nos referimos à pessoa que existe por baixo daquela fantasia ridícula do palhaço Tiririca. O cearense Francisco Everardo de Oliveira e Silva deve ser uma pessoa pura, boa, inocente – um “inocente útil”, diga-se de passagem. Mas os seus eleitores não votaram na sua pessoa; elegeram, sim, a sua fantasia, o que, aliás, coloca até um ponto de interrogação na legitimidade do sufrágio do seu nome para ocupar a mais alta câmara da República Federativa do Brasil.

O eleitor paulista – só para dizer dos votos mais próximos de nós – deu quase quinhentos mil votos para uma figura que nem candidato era, corrupto, cínico, cara-de-pau, cuja candidatura há havia sigo impugnada pelas suas travessuras milionárias que o excluiu do rol dos portadores de ficha limpa! Só aí temos quase dois milhões de votos perdidos, numa escolha que poderia ter beneficiado gente mais séria, mais correta. Somem-se a eles outros tantos sufragados em favor de personagens ridículos, cujos nomes nem compensa declinar. Isso sem contar que os quinhentos e tantos mil votos que os católicos deram a um candidato a deputado federal, carinha bonita e fala mansa, cheio de ser carismático, intelectualzinho da nova geração metrossexual, foram para o lixo no dia seguinte às eleições, quando ele se alinhou à corrente abortista, contrariando os conselhos dos bispos brasileiros, especialmente do bispo da sua própria diocese, que em documento amplamente divulgado nas igrejas do país recomendam “encarecidamente a todos os cidadãos e cidadãs brasileiros e brasileiras, em consonância com o art. 5º da Constituição Federal, que defende a inviolabilidade da vida humana e, conforme o Pacto de S. José da Costa Rica, desde a concepção independentemente de suas convicções ideológicas ou religiosas, dêem seu voto somente a candidatos ou candidatas e partidos contrários à descriminalização do aborto.”
Traição do eleitor e traição do candidato. Do eleitor “burro e imbecil” – nas palavras de Brecht – e do candidato espertinho que, todos nós sabemos, tem sonhos mais altos, e que entende que se não se prostituir não chega lá.

No entanto, não foi somente o viés anti-cidadania que ajudou na costura do pensamento democrático no pleito em seu primeiro turno. Por pior que possa parecer, a propaganda eleitoral oficial tomou rumos diferentes da de outras campanhas eleitorais, nos parecendo mais amadurecida, deixando de lado factóides sensacionalistas como o foi, por exemplo, o escândalo que detonou a candidatura Lula em 1989 favorecendo Fernando Collor de Melo. Hoje, os escândalos são mais “civilizados” – e dizemos isso entre aspas – e não conseguem refletir com tanto peso na preferência dos eleitores, pelo menos como apontam as pesquisas de opinião. E este é o lado bom das reflexões deixadas pelo primeiro turno.

O crescimento do voto em favor de Marina Silva, que foi determinante para levar Dilma e Serra ao segundo turno, mostra um eleitorado mais centrado no equilíbrio da propaganda, não porque a candidata tenha sido melhor ou pior que os outros oito candidatos, mas porque o tom que se deu à apologia da sua candidatura teve o condão de parecer mais sincero, mais respeitoso, de ver no eleitor uma pessoa inteligente. Não queremos dizer aqui que o eleitor mais inteligente votou em Marina necessariamente. Absolutamente! Mas que a propaganda da candidata o entendeu como um alvo inteligente.

Seria muita pretensão de qualquer analista político determinar o grau de inteligência do eleitor pelo número de votos dos candidatos. Por outro lado, não achamos que a inteligência seja fator determinante na escolha de um representante em qualquer esfera dos dois poderes que ficam por conta da vontade do cidadão comum. Inteligente todo mundo é. O “burro” de que fala Brecht – aqui também colocamos o adjetivo entre aspas – e o analfabeto político que diz odiar política são também pessoas inteligentes, mas que se recusam a exercitar a sua inteligência em favor da própria família, da comunidade, da sua cidade, da sua nação.

Há outros elementos de muito mais preponderância que determinam a escolha dos nossos representantes políticos. Primeiro de todos, o interesse pelo pleito, que se revela na empolgação pelo voto, pelo direito de votar, de exercer cidadania. Quem deixa de votar para aproveitar um final de semana prolongado na praia ou no mato, não deixa de ser inteligente por isso, mas é omisso no exercício do seu dever de cidadão. Quem troca o voto por favores ou por promessas de favorecimento pessoal, não pensa como cidadão, mas nos seus próprios interesses que não têm a abrangência do interesse nacional. Quem vota sem conhecer a ficha do candidato, o seu passado e no que ele contribuiu para o bem-estar da nação, está votando no escuro. Quem insiste em manter no poder pessoas declaradamente corruptas e sem sensibilidade, como aconteceu nas eleições do primeiro turno quando verdadeiros bandidos foram guindados novamente ao cargo com que roubaram o nosso dinheiro, é eleitor que gosta de ser roubado.

Você que é inteligente, não deixe de votar com consciência. É da sua consciência cívica que podemos dar continuidade ao Brasil que aí está, ao país que pode melhorar, ao aprendizado levando em contas as nossas mazelas para pensar na conclusão de um projeto democrático por que tanto suspiramos na reconquista do nosso direito de votar com as Diretas-já.

O Dia do Professor

Henrique Faria

Hoje é um dia muito especial. Celebramos com muita alegria o Dia do Professor. Poucas homenagens, é verdade... Afinal, as escolas fazem seu feriado – neste ano um pouco mais prolongado – e a sociedade pouco se lembra desta data, a não ser pelo noticiário da TV, quando se faz alguma menção. Os alunos não se esquecem: graças aos seus mestres poderão safar-se da chatice das aulas de matemática ou de português, das fórmulas de física ou das histórias monótonas das ciências sociais, ainda que doa um pouquinho afastar-se da paquerinha, que podem custar uma eternidade esses três dias de distanciamento. É verdade que as redes sociais da Internet – para aqueles que têm seu próprio computador – diminuem a distância entre os coraçõezinhos quase apaixonados, que, com certeza, não encontrarão um tempinho para enviar um scrap ou e-email para o professor.

O mestre sabe muito bem disso. E, alguns deles tiram seu Dia para suas tarefas de casa – as mulheres para uma faxina mais acurada, os homens para uns remendos no telhado – sem o prazer de saborear a data com o reconhecimento, pelo menos nesse dia, da sua vocação missionária de burilar as mentes e moldar os corações na construção de uma pessoa mais rica intelectual e espiritualmente para servir a sociedade como cidadãos de brio e de amor ao seu país.

É possível que a professora, enquanto esfrega com mais força os azulejos na limpeza pesada, esteja se lembrando daquele aluno mal educado que a enfrenta invariavelmente quando ela precisa ser mais dura e lhe lembrar do seu lugar, jogando-lhe na cara frases como essa: “O que você ganha por mês, o meu pai ganha por semana!” – coisa que, com certeza, ele ouviu em sua casa. Aquilo lhe dá um aperto no coração e se angustia ainda mais quando se lembra que ao queixar-se da atitude do aluno, nem sempre tem a solidariedade da diretoria, mais preocupada com a receita que o mal educado produz do que com a dignidade da sua mestra. É possível também que o professor, no seu Dia festivo, enquanto faz seus consertos em casa para a mulher – é só no feriado que tem tempo para essas coisas... – meta o martelo no dedão e deixe escapar um palavrão, exatamente no momento em que se lembrava do deboche de uma aluna que lhe respondera à questão “Você já ouviu falar em Che Guevara?”, cinicamente: “Sei, não! Não é do meu tempo!”.
Interessante notar a diferença entre os professores de hoje e os de pelo menos cinqüenta anos atrás. Hoje eles são muito mais próximos dos alunos, diminuíram a distância cerimoniosa que havia entre si, mas são muito menos respeitados. As crianças – note bem: não é regra geral – têm os seus mestres como profissionais da educação, responsáveis pela educação que nem sempre recebem em casa, por diferentes motivos, especialmente em função da desagregação da família que, se não for pelo seu aspecto moral – em que a criança nem sempre conhece o próprio pai, ou se o conhece, consegue vê-lo apenas uma vez por mês – o é pelo seu aspecto físico, quando sua mãe fez a opção de “realizar-se profissionalmente” ou mesmo de ajudar o marido na renda da família, mantendo pouco contato com os filhos que quer ver sempre dormindo para lhe dar um pouco de sossego. Há ainda os alunos que percebem a burocracia que torna seus mestres seus empregados, obrigados a engolir seus sapos porque dependem do seu humor e paciência para garantir o emprego.

Os mestres de antigamente eram mais respeitados. Mas, cá entre nós, a cultura do magistério era também outra. No tempo em que não havia cantina nos colégios, nem a merenda providencial, a professora tinha que ter sensibilidade para perceber o aluno que não tinha o quê levar de lanche para dividir com ele a sua própria matula, geralmente mais saborosa e atraente que a das criançada.

Pode parecer que os mestres de antigamente fossem mais amorosos, afinal, eram uma extensão da família do aluno, e o aluno uma extensão da sua. As escolas públicas eram poucas e as particulares inacessíveis para a grande maioria da população. Os professores tinham, então, uma aura de sacerdotes; o magistério era um sacerdócio. Mas não porque os professores de ontem fossem diferentes dos professores de hoje. Se formos analisar friamente, a escolha pelo magistério hoje não é menos vocacional do que a de ontem, uma vez que os nossos jovens têm uma gama muito maior de opções profissionais por se decidirem e, se se decidem pela carreira de professor, na grande maioria das vezes, é porque querem fazer de sua profissão uma verdadeira missão. Antigamente, especialmente as mulheres, tinham muito menos escolhas, mas, por sua vez, tinham também muito menos necessidade de trabalhar fora e, se escolhiam ser professoras, é porque queriam se doar pela construção de uma cidadania sagrada no coração das crianças.

Todos os mestres – os de hoje e os de ontem, incluindo aqui homens e mulheres que se dedicam como verdadeiros missionários – são os objetos da nossa homenagem. Não importam os mal agradecidos – pais e alunos – que não os reconhecem como tal. Nos corações de crianças, adolescentes, jovens e adultos – esses já desfrutando dos ensinamentos dos seus mestres – lateja a sensibilidade de um carinho muito especial por aqueles que às vezes substituem as próprias famílias de seus alunos para lhes darem um sentido na vida, um norte e direção, que nem sempre recebem em casa.

Não importa que eles sejam remunerados e que sua atividade constitua uma profissão. Isso não lhes rouba a aura de sacerdotes e missionários na construção de um país decente, onde ainda haja pessoas, como são os seus alunos e ex-alunos, que dignifiquem a nossa nação.

Parabéns, mestres! Que este seu dia seja um dia de ação de graças a Deus por tê-los colocados em nossos caminhos e de reconhecimento pelo papel importante que vocês exerceram e exercem na formação dos cidadãos de verdade!