sábado, 28 de agosto de 2010

Convento Nossa Senhora da Conceição (séc. XVI) Itanhaém-SP, 21.08.2010
Um dedinho de prosa com Totó Mendes. Itanhaém-SP, 21.08.2010
Itanhaém-SP, 21.08.2010

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Praia das Palmeiras. Caraguatatuba, 20.08.2010
Em frente ao Convento São Francisco. São Sebastião-SP, 20.08.2010

Considerações sobre o nosso Hino Nacional

A proximidade com a Semana da Pátria nos reserva algumas reflexões sobre o nosso belíssimo Hino Nacional que, sem qualquer corujice, podemos atestar como um dos mais bonitos de todas as nações. A emoção de ouvi-lo fora do nosso país é de uma força imensurável, assim como ouvi-lo em solenidades muito especiais que acontecem em nossa vida como, por exemplo, em formaturas, premiações... Ainda que venha sendo banalizado por ser executado em partidas de futebol sem a menor importância cívica, o nosso Hino ainda nos causa arrepios e um nozinho na garganta.

No entanto, se a verve poética de Duque Estrada nos legou tão exuberantes imagens de uma nova nação nascida sob o signo de um sol de liberdade em raios fúlgidos, o grito de Dom Pedro I, que nos deu a independência, não conseguiu, ainda, livrar-nos dos perigos da morte como nação próspera, justa, solidária, igualitária. O nosso primeiro imperador colocou como opção de garantia da igualdade a independência ou a morte. Entretanto, passados quase 190 anos do grito do Ipiranga, ainda não conseguimos o penhor dessa igualdade decantada pelo poeta, e o nosso peito continua desafiando a própria morte, representada pela extrema distância entre os filhos desta mãe gentil, que vai da riqueza imensurável de uns poucos à miséria degradante de uma multidão de excluídos que ainda não conseguem ver poesia na imagem do cruzeiro que resplandece sobre suas cabeças sem teto.

Mas nós – nós todos: os locupletados pela extorsão, os caminhantes da prosperidade, a classe média extorquida pela crueldade da gula fiscal, os pobres que o Presidente afirma terem saído da linha da miséria, e os miseráveis que não frequentam as curvas de evolução das pesquisas oficiais – todos nós ainda conseguimos encher o peito para cantar o nosso Hino e nos indignarmos com o pouco caso de um jogador mexicano que fazia ostensiva e provocantemente o seu alongamento durante a execução da nossa música maior.

Assim, não nos cabe qualquer menção pejorativa à poesia maravilhosa de Duque Estrada, mas, pelo contrário, cabe-nos servir de suas palavras para um reflexão sincera de quem vive ainda um sonho intenso de liberdade e independência, mantendo aceso aquele raio vívido de amor e de esperança que à terra ainda desce em dias de tamanhas desigualdades, sinais de morte que a nossa independência não conseguiu afastar.

Mas nós, gigantes pela nossa própria natureza, impávido colosso, somos fortes na esperança que ainda espelha a grandeza que haveremos de conquistar. Não para uma nação virtual e simbólica que ilustra os nossos livros de civismo. Mas representada no lar de cada brasileiro, onde a mãe gentil tenha comida para pôr à mesa, tenha condições para dar uma educação de qualidade para seus filhos, saúde para que eles tenham força para sustentar a clava forte que os sustentará diante da morte, tranqüilidade e paz social que os permita andar na rua como se caminhassem pelos risonhos, lindos campos, onde têm mais flores, ou pelos bosques onde a vida tem mais amores.

Estamos, de novo, às margens do Ipiranga, agora representadas pelas nossas seções eleitorais onde o grito de independência se dá num apertar de botões de uma maquininha de votar. É uma oportunidade de honrar o nosso lábaro que se ostenta estrelado, símbolo de um amor eterno que nos faz sentir, cada vez mais que, entre outras mil, a nossa pátria é a mais amada, idolatrada, a nossa mãe gentil que ama seus filhos sem discriminação. A espada de Dom Pedro, agitada para o alto é hoje o nosso dedo indicador brandindo no pequeno teclado os sonhos que sonhamos de um país realmente independente e justo, do qual possamos nos orgulhar não só nas vitórias do futebol, mas na paz social que, com certeza, não exclui a pobreza, mas permite ao pobre viver com dignidade, com a esperança de prosperidade que hoje lhe é negada, com oportunidades iguais para todos de subirem, aos poucos, os degraus de sua condição social.

Pense nisso! Especialmente ao escolher os nomes para o Congresso Nacional – Câmara Federal e Senado – pois são eles que, numa democracia verdadeira, podem traçar os caminhos do progresso para todos os que ouviram o grito do Ipiranga e esperam até hoje que, diante da nossa glória no passado, a paz não venha somente no futuro, como aludiu o poeta, mas encha hoje os nossos lares de esperança.

sábado, 14 de agosto de 2010

Os palavrões da Dercy

Henrique Faria
A parábola contada por Lucas no terceiro domingo deste mês (22.09.2010) parece meio estranha. O administrador infiel se viu em apuros porque o patrão pegou as suas falcatruas e fatalmente o demitiria do emprego. O que ele fez? Chamou aqueles que deviam ao patrão – cuja dívida era ele quem administrava –, abriu mão dos seus lucros, diminuiu o débito de cada um e todos ficaram satisfeitos. Inclusive o patrão que viu na esperteza do seu administrador uma saída que não o deixou a ver navios. Evidentemente que aquilo que os devedores tiveram de desconto seria exatamente o que o administrador iria embolsar.
Então, não é que Jesus aprove o que fez o espertalhão. Mas ele reconhece que quem está mais envolvido com o dinheiro – os “filhos deste século”, como ele diz – é gente mais esperta e não deixa de servir de exemplo aos “filhos da luz”. A esperteza do mal deve ter uma contrapartida tão eficiente como ela por parte da esperteza do bem. Por isso, o cristão tem que ser esperto. Ficar encastelado nos cenáculos da vida nem sempre é a melhor maneira de se encarar o mal. Cristãos ensimesmados não têm uma visão mais ampla do pecado, que reduzem a algumas manifestações de inveja, soberba, ira, luxúria.
O pecado tem outros nomes. Certa vez, num programa de televisão, o apresentador Silvio Santos perguntou à comediante Dercy Gonçalves se ela não se envergonhava dos palavrões que dizia – ela, que era uma mulher já idosa, e que deveria servir de exemplo às gerações mais novas. Bem... Se Jesus elogiou a esperteza do administrador infiel, acho que eu também posso elogiar a resposta da Dercy, independente da sua figura polêmica. Dercy esbugalhou aqueles olhos nonagenários, chispando fogo em direção ao apresentador. Eu não vou dizer aqui o palavrão que ela disse, explicando que aquilo não era pornográfico e que palavrão era “fome”, “violência”, “injustiça”, “analfabetismo”, “corrupção”. Estava errada a atriz?
Na parábola de Lucas a que nos referimos, Jesus chama de “riquezas injustas” o pouco ou muito que acumulamos ou a riqueza que amealhamos nem sempre da maneira mais justa. Aqui, vale lembrar que a valoração da nossa riqueza é muito relativa. Para um cristão que vive com três ou quatro salários mínimos, um carro popular – quitado, às vezes, a duras penas em um carnê que mais parece uma bíblia... – é um grande tesouro. Não é só rico que é rico. O pobre também tem suas riquezas. E vamos e venhamos: os “pecados” da Dercy não são exclusividade dos magnatas da indústria, ou dos grandes “fazendeiros” do agro-negócio, ou dos escroques das bolsas de valores, ou ainda, dos maus políticos que se apropriam da riqueza que é para ser nossa. Se a fome, a violência, a injustiça, o analfabetismo e a corrupção nascem do egoísmo desses ricos, encontram, no entanto, um terreno fértil entre nós que vivemos lamentando a nossa condição de oprimidos, diferentes do administrador infiel que se apressou em negociar com os devedores, ou igual a Dercy, que foi rápida na resposta, ou seja, foi esperta em declinar uma relação de pecados que normalmente nos passa despercebida. Por que não (?) ... sermos espertos como eles?

Minha novela das nove

Henrique Faria
E já que falamos em Dercy – Deus a tenha... – dia desses, conversando com uma pessoa extremamente preconceituosa, fui questionado sobre o meu gosto por telenovelas. A pessoa, que me tem como um intelectual – que não sou e que tenho minhas reservas por quem é – ficou assombrada pelo meu gosto duvidoso, como se eu estivesse muito abaixo do seu nível cultural por assistir a novelas, enquanto ele – um católico até razoavelmente exemplar – lê bastante, especialmente os romances de mistério e suspense como os de Stieg Larsson, Dan Brown, John Sack, Richard D. Weber – todos no topo dos mais vendidos –, esculhambando a literatura de Paulo Coelho, Içami Tiba, Willian P. Young, Augusto Cury, entre outros e... (pasme!) o nosso querido padre Fabio de Melo. Eu leio quase todos os livros que o meu amigo lê, ou seja, tenho o meu gosto literário meio parecido com o dele, e, além disso, gosto muito de romances com fundo político, ou biografia de grandes personagens do meu tempo com análises aprofundadas da conjuntura em que viveram, não costumo ler obras de elucubrações filosóficas ou auto-ajuda, mas reconheço o seu valor. Não existe gente mais chata do que aquele que se acha intelectual, que lê alguma coisinha tão comercial como os livros de Paulo Coelho, mas com embalagem de literatura de fino gosto, quando, na verdade, também não acrescenta nada à sua vida, não o faz pensar, questionar, ter vontade de mudar a si mesmo e a sociedade. O que você apreendeu de O Código da Vinci? Anjos e Demônios? Nada! Mas não se pode negar que um livro de Içami Tiba ou Augusto Cury nos faça pensar... Você tropeça em gente que leu alguma obra de Fábio de Melo e deixou de ser o mesmo. Pra melhor, evidente! Então por que eu não posso ver telenovela?
Uma telenovela é um romance filmado, adequado, na maioria das vezes, à nossa realidade, enfocando temas pertinentes ao nosso dia-a-dia, como o aborto, a pedofilia, as drogas, a canalhice, a corrupção e, por que não, o amor? Mas tem uma linguagem pouco cristã, é verdade, já que os seus diretores e autores têm seu mundinho limitado às areias do Leblon ou aos barzinhos da Vila Madalena, se achando os donos da verdade quando defendem práticas imorais, especialmente no que dizem respeito ao sexo. Cabe a nós selecionarmos o que presta e o que não presta e tirarmos proveito do que é bom. O que não se pode é prejudicar o encontro da família, em torno de uma mesa de jantar, submetendo-se ao clarão TV, seja ele mostrando as novelas das seis, sete ou nove, ou a carinha de pidão de um evangelizador católico anunciando que a sua rede de TV ainda não conseguiu emparelhar o azul e o vermelho. A televisão não presta neste sentido: como desagregadora da família, da mesma forma que um pai se afasta dos filhos ou os filhos se afastam do pai e da mãe, frissurados em frente ao computador, ou lendo seu jornal.
Por outro lado, há que se impor horários e programas para os filhos. Uma criança ou adolescente não deve mesmo assistir às telenovelas. E devem ir cedo para a cama, ter seu computador na sala, na frente de todo mundo e não no seu quarto onde pode se fechar e navegar à vontade. Agora... eu... Bem... Enquanto minhas netas não estão em casa, mereço relaxar um pouco e ver o lado medíocre da vida na novela das nove.

A visita do Patriarca Gregorios III à cidade de Taubaté-SP

Por Henrique Faria
Numa belíssima cerimônia acontecida na pequena capela de Santana, em Taubaté-SP, Sua Beatitude o Patriarca Gregorios III Lahan consagrou, na noite de 10 de agosto, o novo altar, onde serão celebradas as missas no rito greco-melquita.
A visita do patriarca constituiu um dos mais importantes eventos dos últimos meses, não só para a diocese, mas também para a cidade de Taubaté, já que ele é a maior autoridade da Igreja greco-melquita no mundo, que acolhe especialmente os católicos de origem sírio-libanesa, mas que, em Taubaté, reúne fiéis de todas as origens.
Acompanhado de dom Fares Maakaron, eparca (arcebispo) para a comunidade greco-melquita do Brasil, Gregorios III foi recepcionado, como visita de honra, pelo prefeito municipal, Roberto Peixoto e, na sua chegada à igreja de Santana, pelo bispo emérito de Taubaté, dom Antonio Affonso de Miranda, representando dom Carmo João Rhoden que, por compromissos anteriormente agendados, encontrava-se em viagem.
O povo o acompanhou, em caminhada pela rua Afonso Moreira, desde a residência do padre Dimitrios Bertani, até a igreja, no Largo de Santana. Muito aplaudido pelo povo que lotava a capela, Sua Beatitude iniciou seu compromisso com a consagração do pequeno altar, logo depois iniciando a celebração da Divina Liturgia – nome que os católicos greco-melquitas dão à Missa.
No presbitério, a diocese de Taubaté encontrava-se representada por dom Antonio Affonso, monsenhor Marco Eduardo Jacob Silva – que mostrou-se inteiramente familiarizado com a celebração diferente do rito latino – e pelo frei José Moacyr Cadenassi, capuchinho do convento Santa Clara. Gregorios III mostrou-se extremamente simpático, inclusive orientando dom Antonio no acompanhamento da liturgia através de um livro próprio para a ocasião, dirigindo a celebração algumas vezes em árabe, outras em francês, grego, italiano e português. Sua homilia foi simples, traduzida por dom Fares Maakaron, enfatizando onde realmente as pessoas devem encontrar a sua cruz, como carregá-la não só a sua própria, mas também a dos irmãos que passam por mais necessidades e carências.
No final da celebração, dom Antonio Affonso e o monsenhor Marco entregaram ao visitante duas placas comemorativas à data, uma pela diocese, outra pela paróquia da catedral, onde se localiza a igreja de Santana. Por sua vez, Gregorios III também ofereceu um presente a dom Carmo, através do bispo emérito.

O Patriarca Gregorios III

O patricarca Gregorios III Lahan, dirige a Igreja greco-melquita de duas bases no Oriente: da cidade de Damasco, na Síria e de Istambul, no Libado, que é a sede origem da igreja de Antioquia, patriarcado que ele preside, juntamente com o de Alexandria e Jerusalém.
O patriarcado greco-melquita de Antioquia e de todo o Oriente, Alexandria e Jerusalém existe desde 1724, data em que parte dos cristãos melquitas, que não tinham um status unilateral de comunhão com a Igreja Católica ou Ortodoxa, declarou comunhão visível com a Igreja Católica, constituindo, assim, a Igreja Católica, Apostólica, Greco-Melquita, sob o pontificado do papa.
Como o papa é tratado por Sua Santidade, o patriarca o é por Sua Beatitude. O nome de batismo de Sua Beatitude Gregorios III Lahan foi Loutfi Lahan, trocado por ele quando assumiu o patriarcado. Nasceu em Daraya, perto de Damasco, na Síria, em 1933. Entrou para o seminário com onze anos, em Shouf, no Líbano e, em 1959, foi ordenado sacerdote em Roma, na igreja da abadia de Grotaferrata. Foi eleito patriarca, sucedendo Máximo V Hakim, em 29 de novembro de 2000. Assumiu o nome de Gregorios, que quer dizer “vigilante” em grego, depois de Gregorios II Youssef, o último de sua ordem, que tinha sido eleito patriarca e governou a Igreja Greco-Melquita de 1864 a 1897.


Ao lado de dom Fares (à esquerda), o patriarca Gregorios III se encaminha, com o povo, para a igreja de Santana


A chegada do patriarca à igreja de Santana


O npatriarca sagrando o novo altar


O patriarca Gregorios III e o bispo emérito de Taubaté-SP, dom Antônio Affonso de Miranda


Da esquerda para a direita; frei José Moacyr Cadenassi, monsenhor Marco Eduardo Jacob Silva, dom Antonio Affonso de Miranda, patriarca Gregorios III, dom Fares Maakaron, padre Dimitrios Bertani


Homenagem a um casal da comunidade sirio-libanesa, beneméritos da igreja de Santana


No final da celebração, o abraço do povo

Maquininha de fazer milagres

Henrique Faria

Há um certo pudor, injustificável, por parte de setores da Igreja, especialmente os mais conservadores e fundamentalistas, em abordar o assunto político-econômico-social à luz do Evangelho de Jesus, como se ele tivesse vindo à terra para nos levar ao céu como seres transformados em anjos. No entanto, a Igreja, não só de hoje – especialmente aqueles setores que causam urticária nos nossos santos alienados – mas a do tempo dos primeiros apóstolos também, tem uma preocupação expressa com o nosso bem-estar material.

Na verdade, não existe Igreja conservadora e Igreja progressista. A Igreja é uma só, fundada no Evangelho que, em nenhum momento, foge da discussão política. Existem, isso sim, católicos conservadores e católicos progressistas; aqueles, mais centrados no discurso fundamentalista que vivem a fé mais voltados para o metafísico; e estes, às vezes exageradamente voltados para a leitura meramente sócio-política dos evangelhos. Nenhum dos dois extremos é o ideal. A virtude está no meio.

Dentro desta perspectiva, procurando configurar a figura de Jesus Deus e Homem com a nossa história do aqui e agora, procuramos fazer uma leitura da sua mensagem de forma que atenda às nossas necessidades temporais, já que foi ele mesmo que disse que veio para que todos tenham vida e vida em abundância. Jesus não ignorou a nossa condição humana, de quem pretende e merece ser feliz já aqui nesta vida. E se preocupou com as diferenças que os homens estabeleceram entre si, uns – os que têm mais – oprimindo os outros, os que têm menos ou nada têm. Na raiz do seu discurso político está a sua preocupação com o nosso bem-estar. No entanto, o Pai não delegou a ele o poder de transformar a nossa vida num passe de mágica sem o nosso concurso.

Não é preciso ser católico ou de qualquer outra religião para entender o papel do homem na criação. É visível até mesmo a um ateu que cabe ao homem manter o equilíbrio da natureza em todas as suas manifestações, não só no aspecto do meio ambiente, mas das relações humanas que exigem uma harmonia entre os seres pensantes para que todos vivam em paz. Aqui entram as nossas relações políticas.

Nessa multidão incontável de pessoas que buscam a felicidade é preciso que haja uma escala, não de valores, mas de gestão das relações humanas. É quando a gente escolhe alguns semelhantes nossos para manter a ordem na casa. Aliás, “economia” quer dizer exatamente isso: “ordem na casa”. Jesus não dispensa o poder. Quando provocado sobre a sua situação de cidadão governado pelo poder romano, colocou-se no seu lugar, dizendo que se atribuísse a César o que era de César. Ele não ignorou o poder político. Há, também, inúmeras manifestações suas sobre economia, quando ela fala em moeda, em poupar, em esbanjar; sobre saúde – neste aspecto, o evangelho é riquíssimo em fatos que demonstram um Jesus sensível com a dor, a doença, a morte –; em segurança; em educação – Jesus foi um grande pedagogo.

Por que, então, não nos espelharmos em Jesus quando temos que escolher as pessoas que devem “pôr ordem na nossa casa”? O momento é agora: as eleições, quando podemos escolher pessoas sintonizadas com o projeto social-econômico-político que Deus delineou para que tenhamos vida em plenitude. Nós insistimos, como já dissemos em editoriais anteriores, que o Projeto de Salvação, que teve em Jesus-homem o seu objeto e instrumento de implementação, tem em nós os seus sujeitos e agentes, implementadores e construtores da nossa própria felicidade.

Como escolhermos, entre as pessoas que deverão deixar a nossa casa em ordem, pessoas que não estão alinhadas com os valores estabelecidos no grande projeto social-econômico-político que pode mudar a nossa vida? Como acreditar em pessoas que prometem há dez, vinte, trinta, quarenta e até cinqüenta anos as mesmas coisas: educação de qualidade, infraestrutura de saneamento básico, segurança, saúde, casa própria, emprego? Nós temos aí nessa eleição políticos que roubaram durante cinqüenta anos, pois há cinqüenta anos vêm prometendo as mesmas coisas que não cumprem, e há cinqüenta anos sendo eleitos por essas mesmas promessas. Se você buscar nos arquivos, vinte anos atrás, os discursos dos candidatos de hoje, que já foram eleitos e reeleitos, verá que as promessas são as mesmas. E daí? Eles passaram pelo governo e não resolveram? Isso nas duas instâncias do poder, o legislativo e o executivo.

Enquanto nós continuarmos aceitando a política como um deboche da nossa cara, o Brasil não muda. É preciso fazer uma revolução! Não uma revolução de armas, evidentemente, já que se ela não partir das Formas Armadas, morre no ninho. Mas uma revolução cultural. É preciso mudar a nossa cultura de fantoches, manipulados pelos dedos espertos daqueles que dirigem os nossos movimentos. Nem Deus, com todo o seu poder, nos fez fantoches! Ele nos deu o livre arbítrio para escrevermos, nós mesmos, a nossa história. E parece que não nos aproveitamos bem dessa prerrogativa, escrevendo uma história cheia de injustiça, opressão, violência, doenças – valores negativos que não estão delineados no Projeto de Deus.

Mais uma vez, como já insistimos em outras tantas, é preciso que nos conscientizemos de que somos maioria. Nós católicos, somados a outros cristãos que conhecem o mesmo projeto de libertação, somos massacrante maioria nesse país de eleitores que não levam a sério o seu dever de escolher bem quem pode fazer a nossa “economia”, ou seja, de colocar “ordem na casa”, redesenhando o Projeto de Felicidade que Deus escreveu para nós. Pense nisso antes de colocar o seu dedinho naquela maquininha milagrosa. Sim... Ela pode fazer milagres!
(Editorial Rádio Cultura Taubaté AM 790 – 20.08.2010)

A maioria católica pode mudar as estruturas

Henrique Faria

Com inicio previsto para a próxima terça feira, a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão promete nos aborrecer ao máximo, acrescentando muito pouco para que se possa formular um juízo seguro de cada candidato. O primeiro debate na televisão dos candidatos à presidência da república revelou o que deverá ser a tônica. Com exceção daqueles que não têm a menor possibilidade de vencer o pleito, e que podem disparar chumbo grosso para os seus adversários, os debates deverão ser aquela coisa pastosa, cada qual se superando em repetir os mesmo jargões, as mesmas promessas, os mesmo projetos mirabolantes de se dar ao país uma educação, segurança, política de saúde de primeiro mundo. Um discurso requentado que já vimos em tantas outras eleições.

Os próximos quarenta e cinco dias serão um festival de apertos de mãos, de sorrisos fáceis, até mesmo no rosto da candidata que passou oito anos com cara de enfezada no governo que agoniza. Não se pode ignorar que a tendência é a vitória vai recair sobre um dos dois atuais líderes de pesquisas, já que o brasileiro só aposta em cavalo que corre na frente. Este o grande mal do eleitor médio brasileiro. Ele vota como quem joga. Se, por um milagre da propaganda eletrônica – sim, ela é a deusa das eleições – o terceiro candidato ou terceira candidata começar a disparar, com consistência, ameaçando o segundo (ou segunda), pode ter certeza: o eleitor médio o verá ou a verá com outros olhos. Mas é preciso um arranque que convença o apostador. Os outros candidatos são meros figurantes. Estão ali para exporem seus nomes, beliscar um tostãozinho aqui outro ali, e, nos debates, a serviço dos cobras-criadas, como paus-mandados para atazanar a performance do adversário.

No plano estadual, a coisa não muda nas candidaturas ao mandato majoritário. Em São Paulo, o líder nas pesquisas corre com uma certa tranqüilidade, quem sabe arrancando a eleição até mesmo no primeiro turno. Mas o bicho pega mesmo é nas eleições proporcionais. Candidatos a deputados estaduais e federais se comem, num vale-tudo quase homicida, na tentativa de arrancar do cidadão o seu precioso voto. Na praça Dom Epaminondas se poderá ver ao vivo essas figuras que de quatro em quatro anos nos dão um abraço apertado, às vezes nem mesmo falando em política. Mas querem que a gente saiba que somos amigos desde criancinhas. Alguns franco-atiradores vêm de longe caçar alguma coisa por aqui e... até levam, graças ao serviço competente de alguns cabos profissionais, que nem ganham tanto assim para cabalar os votos dos forasteiros.

Vamos reconhecer: eleição é uma festa. Principalmente para cabos e generais – estes, que mesmo não sendo militares têm o poder sobre um exército de inocentes-úteis. O circo que se arma em todos os níveis de comunicação – seja na rua, no rádio, na TV, nas igrejas, seja onde for... – não oferece a menor condição de um discernimento maduro para a escolha, por si só. É preciso que o eleitor esteja esperto para avaliar os discursos, na maioria deles, demagógicos.

Nós, católicos, insistimos em não atinarmos para o nosso poder, no mínimo pela quantidade de cidadãos que somos em todo o Brasil. Nós somos quase 80% da população. Nós temos o poder de mudar as estruturas políticas e sociais. Basta sairmos das igrejas – levando Deus no coração, é claro... – e nos aventurarmos no meio do povão, levando a todas as pessoas que conhecemos o que deve ser a proposta do bom candidato. Essas propostas estão compiladas em um único Projeto político, que nós conhecemos de sobra, e nem sempre sabemos identificar o seu caráter social, porque... Ora... Por que? Porque nas igrejas estamos preocupados em louvar o Senhor, adorá-lo em seu trono de poder, quando, na realidade ele está aqui do nosso lado, sujeito do Projeto social que ele mesmo delineou para que nós o executemos. Esse Projeto político e o Projeto da Salvação de que nos falam os que só entendem a linguagem dos anjos, são exatamente a mesma coisa. O Projeto de Salvação começa aqui, neste mundo, onde leva o nome de Projeto social e político. Ele não é inspirado em Jesus. Ele é a própria pessoa de Jesus, que se fez um projeto vivo de cura, de libertação, de bem-aventurança, que nós, mais próximos do Jesus que anda ao nosso lado, chamamos de felicidade.

Como identificar o político que defende esse Projeto? É muito fácil. É o político que defende a vida. Nós temos assistido a luta sangrenta entre alguns “gatos pingados” heróis da nossa Igreja, que se estrebucham pelos corredores do Congresso Nacional, com os políticos que são contra a vida. A tentativa de se favorecer a descriminalização do aborto, por exemplo, é o sinal mais claro do pouco caso que a maioria dos políticos fazem do nosso povo em geral, e da nossa Igreja em particular. Nós sabemos que, graças a Deus, 75% do povo brasileiro é contra o aborto. No entanto, por causa de meia dúzia de safados mal escolhidos, há grande possibilidade de a lei favorável ao aborto passar, sem que demore muito tempo para isso. Isso porque, provavelmente a pessoa em quem você pretende votar, é favorável ao crime de se tirar a vida de um inocente, com a “bênção” do governo.

Nem precisa saber muita coisa do seu candidato. Basta saber a sua opinião sobre a defesa da vida. Se for candidato novo, é mais difícil, é verdade. Mas se for candidato que já freqüenta há tempos as nossas campanhas eleitorais, é muito fácil você identificá-los. Você tropeça em candidatos a presidente, a governador, a deputado estadual e federal que sejam contra a vida. Seja esperto.

Vamos mudar esse cenário eleitoral. Desmanchar esse circo armado pelos profissionais das eleições para transformá-lo num grande fórum de discussões que possam, de fato, amadurecer o nosso discernimento. Recordando: nós, católicos, temos o poder de transformar esses projetos demagógicos que se estendem nos mesmos teores e não são implementados há décadas, em um Projeto Social e Político que seja o Projeto da Felicidade, que só no evangelho de Jesus encontramos desenhado.

Mas será preciso coragem para mudar de postura, especialmente a nossa de Igreja, que fazemos coro a essa horda de demagogos em que vamos tropeçar até outubro.
Editorial Rádio Cultura Taubaté 790 AM (13.08.2010)

Editorial Rádio Cultura Taubaté 790 AM (06.08.2010)

Ser pai
Henrique Faria

Domingo próximo é dia de festa. É verdade que já não existe mais aquele clima de a mãe expropriar alguns tostões da carteira do “velho” para que os filhos possam comprar seus presentes. Aliás, nem tanto presente se dá assim hoje em dia. A festa perdeu um pouco a magia e não é porque somos velhos... Diga-se de passagem, que quanto mais velho, mais encanto tem o pai. Mesmo que não tenha sido lá essas coisas na juventude.

Hoje não é tão fácil extrair poesia do pai, mas a televisão está cheia delas porque para se vender se fazem milagres. Mas ainda se pode encontrar um pai poético que seja maduro sem deixar de ser criança. Ou que tenha experiência sem perder a adolescência. É possível que o pai seja um filho crescido, um jovem contido.

Mas pai que é pai, é mãe no seu desvelo, guardião de tanto zelo. Ser pai é chorar escondido quando tudo dói. É brincar de ser bandido pra que o filho seja herói.
Ser pai é tão engraçado, as mães comentam entre si que ele é um desastrado. Ser pai é dormir enquanto a mãe acorda; é ler jornal enquanto ela borda. É atrapalhar-se na cozinha; é não atender a campainha.

Ser pai é não inspirar poesia; é não ser toda magia que ser mãe a gente diz. É ser um eterno aprendiz. É aprender com o filho, mas dizer às vezes a ele que já fez aquilo e não deu certo. É estar perto quando o filho vaza pras baladas, dizendo sempre pra mãe “olha seu filho que ele anda esquisito...” É dormir, roncar como um imperador romano depois de um banquete; é sonhar, enquanto a mãe... coitada... não prega os olhos antes do filho chegar.

Como cansa ser pai...

Mas nem tudo é poesia. Talvez a poesia nos inspire ao lembrar do nosso pai, hoje velhinho, que dá ele mesmo as suas risadas, coitadinho...
Nem sempre foi amigo do seu filho, mas a pedagogia moderna nos remete ao pai antigo, da bronca, do castigo. Acho que ele estava com a razão. Já não cabe mais a vara de marmelo – que era coisa de mãe – ou chinelo... mas deveria haver alguns limites que talvez os pais de hoje não tiveram quando eram filhos. O mundo evolui muito e os direitos humanos alcançaram a intimidade dos nossos lares onde não se pode dar nem mais umas palmadas.

Hoje se volta ao pai que não precisa ser amigo coisa nenhuma do seu filho, pois amigos eles os têm muito mais interessantes da sua idade. O pai precisa ser disciplinador, com ternura, é verdade, porque o filho precisa de limites.

Os pais que trazem a vida de bandeja aos seus filhos podem ter desagradáveis surpresas, quando ele achar que a vida é do jeito que o pai pintou, tratando-o como um boneco, um bichinho de estimação.

Bem...

Acabou a poesia? Acabou se ficarmos espreitando o interior dos nossos lares, se vemos o pai mandar a mãe apanhar tudo o que o filho jogou pelo chão, consertar romanticamente os carrinhos que ele destruiu...

Já não vemos mais poesia nos pais que não ensinam os seu filhos a rezar, que não os chamam mais de “senhor” e não lhes pedem a bênção antes de deitar. Nem nos pais que não chegam até a cama dos seus filhos pra lhes dar um beijo de boa noite, não importa a idade que ele tenha: quinze, dezoito, vinte e um. Mais tarde, os filhos viram todos beijoqueiros, mas é nessa idade que mais precisam do beijo do pai.

O pai, coitado... também envolvido no relativismo que virou a nossa sociedade, já não sabe o que é certo, o que é errado, o que é moral e imoral. Há muitas filhas adolescentes, que ainda não têm seu próprio dinheiro, que precisam da carteira do pai pra comprar seus anticoncepcionais; ou os garotos – a quem eles dão com todo orgulho – que lhes pedem grana para a camisinha ou uma noitada no motel.

É difícil ver poesia no pai consumista, que exibe ao filho seu poder de compra e seu status, passeando no shopping aos sábados à tarde quando poderia estar num parque rolando na grama e se borrando todo pra fazer gracinha pro filho. O pai materialista tem horror aos perrengues da vida e procura facilitar tudo para o filho para que ele não passe dificuldades e não aprenda com os revezes que a vida não é fácil e que ele tem que superar sozinho, quando possível, seus obstáculos.

Bem... nós não vamos ficar aqui até amanhã falando das mazelas de um pai que não inspira poesia.

Afinal, seja como for, ele é o nosso herói. Bandido coisa nenhuma! O nosso super-homem, o nosso deus!
Deus? Não! Mas um homem, como diz o nosso poeta Fabio de Melo, no seu jeito finito de ser Deus, que nos revela Deus no seu jeito infinito de ser homem.
Vamos fazer a festa! Feliz Dia dos Pais!

Editorial Rádio Cultura Taubaté 790 AM (30.07.2010)

Todo o evangelho é muito bonito. Todo ele vai além da estética e da poesia, mas quem não gosta de um texto bonito, inspirador, envolvente? As bem-aventuranças, os lírios do campo e as aves do céu se configuram com o belo que seduz, com a poesia que encanta, com a esperança que convence, com a fé na vida que promove em seu estágio terreno um ensaio geral da felicidade eterna.

As bem-aventuranças não foram proferidas para os anjos. Os pobres de espírito – expressão tão deturpada pela nossa linguagem – somos nós: carne e osso, recheados da alma que, na verdade, nos faz ser o que somos.

Os que choram, com certeza não são os que já passaram por aqui; somos nós que caminhamos neste vale de lágrimas, de desamor, de violência, de injustiça, de desigualdade social, de abandono por parte de quem deveria cuidar da nossa saúde, de quem vê seu filho terminar o colegial e não lhe pode bancar a universidade ou do filho que não pode seguir seus estudos adiante porque tem que ajudar os pais; de quem vê a sua criança crescer e ser roubada pelo tráfico ou pela prostituição.

Os mansos somos nós que, acima de tudo, ainda acreditamos no respeito, na relação harmoniosa entre pais e filhos, patrões e empregados, na nossa condição de irmãos em uma grande família onde não há necessidade de se gritar para ser ouvido, nem de apanhar para ser educado, nem de sofrer para ser amado.

Os famintos e sedentos de justiça somos nós que ainda respeitamos o momento inicial da criação, quando Deus fez todos iguais, a natureza concorrendo para a harmonia da vida onde não houvesse quem se aproveitasse da fraqueza do outro, quem se servisse da inocência do irmão para explorar, oprimir, extorquir. Mas somos nós que, antes de sermos resignados com a injustiça, nos fazemos profetas para denunciá-la e sujeitos da promoção do equilíbrio, da harmonia e da paz social.

Os misericordiosos somos nós que, diferente dos animais, conhecemos as fraquezas do outro para poder entendê-las e não nos prevalecermos delas; para acolher o fraco e o pecador contumaz e perdoá-lo sempre; para ter no nosso coração o coração do outro.

Os puros de coração somos nós que conseguimos ver em uma mulher ou em um homem bonitos a presença de Deus e a sua capacidade de criar a estética como fonte de satisfação e alegria; ver na criança suja e já encaminhada no crime o mesmo encanto e a mesma pureza da criança bem nascida, a quem a graça viceja com mais aparência; ver nos idosos, por mais ranhetas que sejam, os faróis que nos iluminam, as setas que nos direcionam, a sabedoria que nos ensina. Muito mais do que isso: os puros de coração somos nós, para quem a maldade passa ao largo, a maledicência não encontra ouvidos, a vingança não é substantivo e o amor é objeto direto.

Os que promovem a paz somos nós que promovemos a harmonia em nossa casa e ensinamos os nossos filhos que a paz é fruto do amor, mas que só é promovida onde há disciplina e respeito; que ela avança para a comunidade quando se aceitam as diferenças e as limitações; que ela pode pairar sobre a pátria quando há justiça, igualdade, consciência cívica que inclui a responsabilidade de se escolher bem os nossos governantes.

Os perseguidos por causa da justiça somos nós que não nos aquietamos em nosso conforto quando tantos passam fome, sofrem violência, são vilipendiados em sua dignidade se arrastando pelas nossas calçadas porque não têm uma oportunidade de promoção nem quem acredite neles; nós somos os taxados de idiotas porque malhamos em ferro frio há décadas, sem que vejamos resultados concretos, insistindo em manter acesa a nossa chama pela justiça e pelo fim da desigualdade social.
Nós somos os perseguidos e os injuriados, como foi um certo Jesus de Nazaré, como o foram Mandela e Gandhi só para citar três aos quais a história fez justiça. O nosso reconhecimento, com certeza, não será por aqui.

A vida continua, e haveremos de ganhar um abraço de todos os que acolhemos, protegemos e defendemos, um dia, no país da bem-aventurança eterna, onde haveremos de entender que quando passamos por aqui nos vestimos de tamanha glória como se vestem os lírios do campo, mas que muito mais do que eles ou do que os pássaros do céu, nós plantamos, nós colhemos, nós fiamos, nós tecemos, nós trabalhamos e demos um sentido de igualdade, de justiça, de harmonia, de paz e de amor às nossas vidas.

Nós, pobres mortais, somos o foco do evangelho. E é a nós que ele encanta e seduz. O texto das bem-aventuranças é muito bonito, mas é mais do que um poema: é um projeto de felicidade, não só para a outra vida, mas para ser desfrutada aqui mesmo, enquanto caminhamos como matéria e espírito. Quando Jesus falou em bem-aventurados, com certeza não estava falando dos anjos. Os anjos são anjos. Bem-aventurados somos nós.

Editorial Rádio Cultura Taubaté 790AM (23.7.2010)

Diferenças abissais determinam a existência de dois países chamados Brasil. Um, o da realidade; outro, o da fantasia. O Brasil real nós, pobres mortais, o vivemos sob uma carga tributária escorchante que não reverte no bem-estar em que vivem os apregoadores do Brasil da fantasia. Por muito menos, outras nações, muito mais avançadas do que a nossa, deram um grito de basta que, em alguns casos, até algum sangue custou. Mas nós, brasileiros do país da realidade, somos um povo de paz, que só briga mesmo em campo de futebol e em dias de apuração de concurso de desfile de escolas de samba. Já os brasileiros do país da fantasia, não! Eles matam um leão por dia para se manterem no sétimo céu.

O Brasil da realidade, por sua vez, tem várias castas. Do miserável que passa fome – a fome endêmica, histórica – ao cidadão médio que tem o que comer, mas passa apertos, alguns sem salários no fim do mês por desemprego ou por penduras consignadas que amarga em seu contra-cheque. Dos quase seis mil municípios brasileiros, pouco mais de trezentos apresentam um padrão de vida adequado, segundo pesquisa desenvolvida por técnicos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O Brasil da fantasia não tem castas. É difícil, inclusive, identificar seus felizardos cidadãos entre a massa que circula entre os dois países. Eles vivem a realidade fantástica das propagandas oficiais que mostram o Brasil como o maior produtor de carne bovina do mundo, o segundo produtor de soja, o dono da quarta maior empresa de petróleo do planeta, entre outras ufanias alardeadas pela propaganda oficial.

No entanto, no Brasil da realidade não se pode comer carne todo dia – nem de vaca, nem de frango e, muito menos de peixe, que beira o proibitivo e o indesfrutável. Procure os produtos de soja nos supermercados e veja se é possível manter o hábito alimentar que aconselha o uso desse produto nas refeições básicas de qualquer pessoa. E experimente encher o tanque do seu carro – evidentemente dos que podem desfrutar desse luxo, alguns porque conseguem manter um carnê com sessenta ou setenta e duas folhinhas, nem sempre em dia – e você vai sentir o drama de despejar ali um chorado e significativo percentual do seu salário. Para quê servem tanta carne, tanta soja, tanta gasolina?

No país da fantasia o sistema unificado de saúde trata com desvelo os seus doentes, promove a saúde preventiva através de Ames, policlínicas, unidades básicas, assistência odontológica que faz dos dentes dos cidadãos do país da realidade os mais brancos, os mais saudáveis, os mais platinados em seus aparelhos corretivos. É no país da fantasia que não existe analfabetismo, violência, corrupção, tão comuns no Brasil da realidade, que aqui mesmo, em Taubaté, você encontra gente que não sabe ler nem escrever, nem precisando ir nos cantões do Jequitinhonha; ou que assiste a pelo menos dois ou três crimes por dia – dos que dão audiência na televisão – ou gente corrupta que assalta o nosso bolso na cara-dura, enquanto nos dá um abraço, em tempos de eleições, aos sábados na praça Dom Epaminondas.

Preste atenção nas propagandas oficiais na sua TV. Tanto as do governo estadual como as do federal. Entre tantos hospitais que o governo construiu, você conhece algum aqui em nossa região? Aqui morre gente todo dia por deficiência no atendimento de emergência; não se conseguem internar pacientes que precisam de internação, por falta de leitos.
Na maravilha que arautos do Brasil da fantasia apregoam sobre os avanços na educação, você vê algum resultado aqui na sua cidade? São pífias as expressões de realidade na política de democratização do ensino universitário, já que o tal de Pro-Uni, ou coisa parecida, beneficia muito poucos alunos e não atinge um por cento da massa carente de estudantes que terminam o segundo grau e não podem entrar na universidade. O preço da nossa universidade pública local, que se esconde sob o manto de autarquia, chega a ser pornográfico.

O Brasil da realidade amarga a destruição das cidades nordestinas há menos de um mês, e acompanha a humilhação dos seus moradores espremidos em escolas e ginásio de esportes, que não terão como refazer a sua vida com dignidade, enquanto o Brasil da fantasia calcula em bilhões de reais os custos de investimentos em campos de futebol, reforma e construção de aeroportos, implementação de trem-bala para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016. Infelizmente, o povo do Brasil real – coitado, até mesmo aquele povo flagelado – vai ficar orgulhoso do país de que tem e que aos olhos do mundo vai dar um show de organização e eficiência, quem sabe, assistindo aos jogos através de telões instalados nos ginásios de esportes e colégios que poderão estar abrigando uma nova turma de sem-teto.

Que esta reflexão possa ser ampliada por você que, com certeza, está alinhando muitas outras mazelas que nos separam do Brasil da fantasia. E é isso, caro ouvinte, que você deve fazer a partir do início da campanha eleitoral na televisão e no rádio, quando a nossa inteligência será subestimada por uma propaganda avassaladora que vai pintar o quadro do Brasil da fantasia. Avalie o Brasil real e deixe a fantasia para a novela das nove.