quarta-feira, 2 de setembro de 2009

INDEPENDENCIA OU MORTE?

Divagações em torno do Hino Nacional
Henrique Faria

Bem que gostaria de iniciar esta reflexão com um título mais sugestivo. Limitei-me a trocar o ponto de exclamação pelo de interrogação. Tão batido, o grito de Dom Pedro I virou um jargão popular, longe de expressar o seu significado político e até mesmo a inconsequência do brado do príncipe regente, que causou grandes transtornos à coroa portuguesa.

Esquecendo-me do brado retumbante de um povo heróico às margens de um riacho paulistano, eu me pergunto se conseguimos mesmo conquistar o penhor da tal igualdade. De qual igualdade fala o nosso hino? Daquela que diz que “todos são são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros”, como ponderou George Orwell em A Revolução dos Bichos?

Ou Pedro foi um grande artista – talvez o mais imortal de todos os artistas que passaram por este país – fazendo do seu grito (que nem sei mesmo se foi um grito ou um sussurro) um tremendo blefe que já se avizinha dos trezentos anos; ou a epopéia do Ipiranga conseguiu fazer soar o grito do príncipe, robusto de tal maneira que pudesse estar ecoando pelos nossos dias... Ou a independência, que nos deu uma mãe gentil, esqueceu-se de dizer quem é o nosso pai. Bastardos da pátria amada, idolatrada por tantos pretendentes, procuramos na liberdade – ainda que tenha um nome feminio – aquele que poderia ser o nosso genitor. Mas não é – o que nos leva a crer que somos um povo mal-nascido.

O grito, talvez inconsequente, de Pedro, o primeiro, não nos deu a liberdade, nem a igualdade, nem nos permite conquistar com braço forte – o que temos certeza – a independência e a auto-suficiência para podermos ter a alegria de sentir que, de fato, nossos risonhos lindos campos têm mais flores, nossos bosques têm mais vida, nossa vida no seu seio mais amores.

Que campos? Que bosques? Esses que queimam descontrolados em milhares de hectares pela Amazônia adentro, fruto da sanha inescrupulosa de grandes grupos multinacionais que, tendo exaurido as reservas florestais em seus países de origem, querem, agora, como os outros que já nos roubaram todo o ouro, descolorir o verde-louro do lábaro que ostentamos estrelado?

Algumas verdades preconizadas pelo nosso Hino continuam atuais: o povo heróico, por exemplo. Por muito menos do que se perpetraram contra a nossa mãe gentil alguns de seus próprios filhos que a empurram para a prostituição, outros países não suportaram a humilhação, se levantarame e se mataram uns aos outros em carnificinas históricas. Nós também tivemos as nossas mazelas, como o bandeirantismo assassino e escravocrata que subjugou milhões de indígenas, ou os fazendeiros do café ou da cana-de-açúcar que importaram negros africanos como se fossem bichos. “Ora –diriam vocês – mas isso foi antes da Independência!”

Foi mesmo! Antes e depois! Mas, depois do grito de Dom Pedro, a escravidão e a morte assumiram outras formas que me permitem assegurar haver, hoje, muito mais escravos e muito mais mortes cruéis do que na adolescência da nossa mãe gentil.

Independência ou morte a prostituição e o trabalho escravo infantis? Independência ou morte a submissão de um povo triste a umas merrecas das tantas bolsas com que o governo lhes cala a boca? Independência ou morte o adolescente que, a duras penas, termina seu colegial e vê seu sonho universitário se esvair na frustração do desemprego ou do salário que mal dá para ajudar aos irmãozinhos comer? Independência ou morte a gente ter que assistir a esse festival de corrupção que disputa com a guerra dos morros cariocas o espoço nobre da televisão brasileira?

A morte tem muitas caras, mas a independência tem uma só: a maturidade cívica que, quem sabe depois de tantas desventuras, haveremos de alcançar e nos dar ao luxo de deitarmos em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo...