domingo, 19 de abril de 2009

A Nossa Praça Central

Praça Dom Epaminondas. Marco zero.
Um lero-lero em papos de meia idade,
aposentados, fofoqueiros, gente boa da cidade...
Cuidar da vida alheia e se apertar no barzinho do chinês,
tão pequeno, esprimidinho, que entra um só de cada vez,
é o esporte preferido de políticos e doutores,
profissionais ou amadores na arte de conversar.
Nada mais que um cafezinho, o que vale é um papinho,
pra esperar dar oito horas e a vida começar.
Nem sei se lucro tem o comerciante oriental
com tanta gente se apertando e pouca gente comprando ,
falando de tanta coisa, de procissão a carnaval.
Gente boa... alguém duvida? Tem de tudo na birosca:
vendedor de loteria oferecendo sua aposta,
advogado comentando sobre a vara da família,
comerciante lamentando a marolinha. Tem amado satisfeito,
tem amante apavorado, tem médico cardiologista, funerário ,
jornalista, cartorário. Tem o fotógrafo desvalido,
o veado enrustido, gente pobre, gente rica,
tem aquele que se encosta só pra ver como é que fica.
Só não tem mulher na rodinha, nem feia nem bonitinha,
porque mulher na praça é caso pra se cuidar,
é coisa tão perigosa misturar-se à homarada...
que não custa uma cantada de um marmanjo mais afoito..
O melhor mesmo é esperar o padre Marcos começar
a sua missa das oito.

Pouco antes, pelas sete, no banco senta quietinha,
Dona Maria, coitadinha... esperando a igreja abrir.
De repente um cafajeste, que se veste de bacana,
tasca assim, na cara-dura: “oi, princesa!
Vamos fazer um programa?”
Não respeita nem a hora, pois ali na nossa praça,
qualquer hora, qualquer dia, vagabundos perambulam
caçando a qualquer custo, ignorando quem é quem,
tomando a santa senhora também por mariposa
em plena alvorada do dia, na hora em que a outra maria,
cansada de tanto trabalho, em sua cama repousa.

O circo armado, bem no meio da praça,
é um convite a quem passa pra sentar-se ao rés do chão.
Tem de tudo na rodela: vagabundo, desocupado,
tem cachorro, tem cadela, balconista, desempregado,
flautista peruano, tecladista boliviano,
tem pastor que está cantando, madalena em atividade,
tem de tudo na cidade. Tem trecheiro, tem andante,
tem marqueteiro falante, enganando os manés,
vendendo pirataria, dizendo que é oito por dez.
Enquanto a família unida, espalha a mesa sortida,
três a quatro ou cinco metros, espalhando seus produtos,
a alguns passos dali, fiscais brutos afugentam estátuas vivas
que tentam seu troco suado, indefesas e passivas,
sem que ninguém por elas grite e sem poder molhar a mão,
pois a tinta não permite. Humilhados pelos homens,
os pobres garotos somem, ouvindo o grito mascate,
de quem pode fazer o que eles, mulambentos, não podem,
porque, coitados, contra a força não há argumentos.

O pobre explorado por pobre, deixa a bicileta guardada,
atrás da banca do jornal. Pilantras achacam coitados,
que chegam dos bairros suados pra fazer sua comprinha
ou pra pagar suas continhas, na casa que vende sorte.
E os fiscais ( ô raça de morte!)
que tudo vêem, não movem uma pena pra acabar
com a festa dos bandidos, que na cidade, norte a sul,
tomam conta de baiques, motos e carros até mesmo em zona azul.

Filas como um rosário – “pobre gosta de filas”, dizia
a bonequinha do Mário – aguardam, antes das nove,
a loja dos sonhos abrir. Em se falando de fila, (dá vontade de rir)
diversão de aposentado é esperar duas horas o expediente começar.
Na porta do banco esperam o caixa eletrônico, enquanto o jeito é conversar.
Sai de tudo nas conversas, de saudades dos bons tempos,
do chefe chato, a secretária boa, do bandejão sortido,
do sindicato falido, assim como o tempo voa, sua história e sua saga,
do tempo em que ganhavam o dobro que agora o governo lhes paga,
de como um tá conservado e um outro está acabado, de dor na coluna,
diabetes, pressão alta, às vezes uma certa dormência,
do remédio que às vezes lhes falta, mas todos jurando potência.

A praça, agora bonitinha, ainda que não seja batatinha,
mesmo assim, como se diz “revitalizada”, é um nojo, um lixão,
não esconde a sujeirada que se espalha pelo chão.
É xixi por toda parte, gente porca, primitiva, que não tem educação.
Cada baita cocozão, lá no canto da igreja, é sinal da porcaria
que retrata a incompetência do governo da cidade
que a caipirada agora herda, porque o elegeu de novo,
como quem gosta de merda.
Cada guaianá que por lá passa, em cada poste vendo uma bananeira,
foi um voto, com certeza, que encheu de caganeira a maquininha de votar.
Há quem diga que a sujeira, o mal cheiro, o atraso sem cura
é a mesma praga que criou uma tal primeira dama,
praga de padre de fama que não ganhou a prefeitura.

Deixando a política de lado, já que não tem jeito,
Vamos em frente. (o prefeito a gente escolhe – eu não! –
mas a mulher é acidente). E não poderia ter acidente assim tão fatal
como ser governado por um pica-pau. Fêmea, que se diga também,
porque é ela quem manda e o marido diz amém.

Bem... Na loja dos falsos brilhantes, a todo vapor alto-falantes
aporrinham os ouvidos da gente com liquidações intermináveis,
aniversários memoráveis, quando o locutor em voz de FM
(não sei se canta, fala ou geme) já co’a garganta roxa,
se achando todo, anuncia promoções de pega-trouxa.

Um pouco mais abaixo, na esquina da Visconde,
um palhaço fala grosso, baixo, monocórdico e,
meio insosso e em tom pungente, empunha o microfone com garbo,
mas que dá sono na gente.
São sapatos muito finos, que ninguém pode perder,
nem meninas, nem meninos, nem mocinhas, nem gatões,
nem velhinhas, quarentões, em qualquer das estações,
porque o preço está baixando, oitenta por cento mais barato
que o da loja d’outra esquina que também vende sapato.

Mais ao centro da praça, a toda gente que passa,
o vendedor de móveis, ao som de dois caipiras se esgoelando,
tem a melhor oferta, vai falando, de sofás e camas,
mesas e armários, pra todo e qualquer salário,
produtos mais do que modernos, chiques, bacanas,
que não duram mais que dois invernos.

No centro do canteiro, “tocando o que toca você” o dia inteiro,
o locutor marqueteiro, coitado, não se faz ouvir
porque de todo lado há sempre alguém mais exaltado,
berrando sertanejos, sambas de molejo, axés e vanerões
sem consultar quem quer ou quem não quer escutar essas canções.
São carros velhos que passam, ou mesmo novos que sejam,
na praça, na Visconde ou na Rodovalho,
um barulhão do ca... cete, com seus falantes em cima,
berrando em cada esquina liquidações a preços piquititico,
pensando que o ouvido da gente não é mais do que um pinico.

De uns tempos pra cá, o que chamam de obelisco
não passa de um cisco em tempestade de areia.
Marco geográfico que chamam de zero, beira o pornográfico.
Apontando durinho pro céu, esticado, dizendo que ali
é o ponto marcado (alguém escreveu...) que a cidade nasceu.
Há quem diga, coitado, que de tão pequinininho,
tão chinfrinzinho e sem jeito, é o retrato esculpido,
escarrado e cuspido do bilau do seu prefeito.

Clientela garantida, que só olha e lambe os beiços,
os velhinhos, todo dia, se misturam àquelas mocinhas,
desdentadas ou gordinhas, loira tingida em minissaia,
com suas leggings agarradinhas, denunciando as gordurinhas,